Membros da organização Mães da Praça de Maio seguram uma faixa reivindicando seus filhos e filhas desaparecidos enquanto caminham em frente ao Palácio Presidencial, em Buenos Aires, circa 1980 (Daniel Garcia/AFP File/AFP/Getty Images)

Memória,

Já não soam os sinos

O escritor paulistano, cuja família chegou ao Brasil fugindo do golpe militar de 1976, escreve sobre um objeto e a resistência da memória

24mar2026

Quero escrever sobre um sino, ou sobre menos do que isso, apenas um pedaço de sino que ocupou por décadas a mesa de centro da casa dos meus pais. Nem mesmo um pedaço de sino, menos do que isso, apenas um pedaço do badalo de um sino, a metade de um badalo partido, quebrado, fraturado por algum golpe antigo, que nenhum de nós viu. É uma peça opaca de bronze, de uns quinze centímetros, pesada, fria, quase toda lisa, exceto pela aspereza da parte específica que se partiu, a única capaz de arranhar a mão que a segure sem destreza. 

Não sei por que quero escrever sobre esse sino, sobre esse pedaço de sino, esse pedaço partido do badalo do sino. Conheço e não conheço sua história. Sei que, em alguma tarde inespecífica da longínqua década de 70, no século passado, meus pais caminhavam lado a lado, nas proximidades de alguma igreja, e avistaram aquele naco de bronze caído. Um deles quis recolhê-lo, não sei qual deles, o outro estranhou o gesto. Um deles o recolheu do chão, surpreendeu-se com seu peso, passou-o à mão do outro, que o examinou sem muito interesse. Um deles quis levá-lo para casa, o outro assentiu com indiferença, moravam juntos fazia poucos meses, a casa ainda estava leve e nua e vaporosa e vazia e poderia se beneficiar de algum peso, alguma solidez.

O escritor Julian Fuks (Renato Parada/Divulgação)

Não sei por que quero escrever sobre esse sino. Talvez porque veja nele o símbolo de uma resistência longeva, não necessariamente política, uma resistência à dissolução da memória e à passagem do tempo. Talvez porque veja nele a expressão imperfeita do amor que meus pais souberam sustentar por tantas décadas, o amor que pôde persistir discretamente, subterrâneo, modesto, quando outros afetos eram mais estridentes, quando o que cabia viver era a indignação, a insegurança, o medo, a dor, e logo também o alívio, a alegria, a euforia, o prazer, a nostalgia. O amor que durou até a morte do meu pai, talvez, numa manhã de sol incondizente, ou que durou para além da morte, não sei ao certo. O amor morre quando morre um dos objetos do amor, um dos sujeitos do amor?

*

Quero escrever uma história cujos detalhes não conheço e, por isso, telefono à minha mãe para pedir que a conte mais uma vez. Explico, em palavras breves, que estou participando de uma antologia de filhos e filhas de presos e desaparecidos, filhos e filhas de exilados também, e que preciso escrever um pequeno conto a partir de algum objeto disparador de memória, um objeto que tenha sobrevivido às décadas que nos separam dos tempos sombrios — dos tempos sombrios daquela época, me vejo a esclarecer. Ela se alegra vagamente, como acontece a cada notícia literária que lhe trago, ou a cada vez que algo me aproxima um pouco da Argentina, país que tenho resistido a visitar nos últimos anos não sei bem por quê — ou talvez saiba e não queira dizer.

Estou pensando naquele pedaço de sino que vocês deixam na mesa de centro, sabe?, aquele naco partido de bronze que vocês tratam como enfeite. Falo vocês e reajo com estranhamento à minha própria frase, mas prefiro não me corrigir. Meu pai morreu há três anos e até agora não encontrei a maneira de formular uma frase que traga os dois como sujeito, meu pai e minha mãe, se um já não existe e pede verbos no pretérito, se a outra ainda existe e pede verbos no presente. Como se a gramática me obrigasse a separá-los em orações independentes, já não permitisse que formem o conjunto que sempre chamei de meus pais. Como se a gramática me obrigasse à consciência da morte a cada momento. Vocês continuam com aquele pedaço de sino em cima da mesa?, pergunto apenas para fugir do meu próprio pensamento. 

O amor morre quando morre um dos objetos do amor, um dos sujeitos do amor?

Enfim, não sei se o pedaço de sino está lá, mãe, ou se algum de vocês o guardou num dia qualquer, na realidade não importa, até porque o que se pede é ficção e nada precisa ser tão verdadeiro, mas queria conhecer melhor a história desse objeto — é algo assim o que lhe digo. Mas ela não me ouve há uns quantos segundos porque está tentando lembrar de que diabo de sino estou falando, e a imagem de um metal escuro e maciço lhe vem à cabeça e logo foge sem deixar rastro. 

Não é de todo estranho à sua memória, em todo caso, algo lhe diz que houve mesmo um pedaço de sino quebrado na mesa de centro durante alguns anos, mas ela não se lembra bem, talvez sim. Talvez tenha tirado aquilo de circulação quando começaram a nascer os netos, surge em sua voz uma súbita vibração, podia ser perigoso que brincassem com aquele objeto pesado e áspero, mas agora não sabe onde pode tê-lo guardado. 

Mas não se preocupe, ela me tranquiliza ainda sem me ouvir, sem se atentar ao fato de que não estou preocupado, e de que não quero encontrar o objeto, mas, sim, apenas ouvir sua história, não se preocupe, ela diz uma vez mais. Se chegou mesmo a existir esse sino, eu vou encontrá-lo na gaveta de alguma cômoda, ou num dos baús dos cantos da sala, ou então numa das caixas que levei para o depósito, não se preocupe, eu vou encontrar. 

*

Duas noites depois estamos juntos em sua sala, ela me orienta quanto aos vasos e retratos que devo deslocar para acessar os baús, e vai me entregando as chaves possíveis das gavetas que devo abrir em cada cômoda. Já desisti de lhe dizer que o objeto não me interessa nada, que só quero saber da história, porque sei que ela não vai me escutar e porque, a esta altura, já me interessa a busca em si, a brincadeira conjunta de vasculhar a casa numa caça ao tesouro aleatória. Por vezes o foco da busca também se desloca: ela aponta o retrato de sua mãe numa moldura prateada, o retrato exposto há tantas décadas junto ao sofá, e questiona por que não escrevo sobre aquele retrato, se era uma mulher tão bonita a sua mãe, se até perguntavam se ela não era modelo quando visitava as filhas no internato de Rosario. 

Esta noite temos ali um jantar, meu irmão acaba de voltar da Espanha depois de um ano numa busca fatigada por trabalho, e é bom estarmos todos reunidos de novo, ou quase todos. Ele quer entender por que estamos revirando cada canto da casa, eu explico que preciso muito encontrar aquele sino, sabe?, aquele pedaço de sino, aquele pedaço do badalo do sino que ficava na mesa de centro da sala. Ele não se lembra do sino e parece desprezar toda a empreitada, mas ainda assim se dispõe a ajudar. 

Quando explico que é para um conto escrito a partir de um objeto disparador de memória, ele descarta sumariamente a ideia do sino e pergunta por que não escrevo sobre o retrato da nossa avó. Que os dois tenham dado a mesma sugestão sem ouvir um ao outro é uma coincidência que me espanta, mas os dois a encaram com naturalidade, como se aquela fosse a única opção válida, inevitável. 

Quando minha irmã chega, estamos à mesa e o sino tornou-se uma piada entre os demais familiares. Pensam que o inventei, que nunca houve um pedaço de sino sobre a mesa de centro, pensam que a literatura começou com a invenção desse objeto improvável. Minha irmã demora em compreender a piada, franze a testa, aperta os olhos, e então volta a manifestar a cumplicidade que sempre partilhamos. 

É claro que ela se lembra, havia sim um pedaço de sino na mesa de centro de todas as casas, desde que éramos crianças, primeiro em São Paulo, depois em Buenos Aires, depois em São Paulo de novo, aqui nesta mesma casa. Um naco de bronze com que brincávamos como se fosse um punhal, e que servia também como peso de papel num tempo de papéis esvoaçantes. Ela se lembra dele com exatidão, mas não consegue entender por que alguém o escolheria entre tantos objetos possíveis a alimentar a memória, por que eu escolheria um objeto tão evidentemente fálico.

Em algum momento do jantar, imperturbado por qualquer sino, um silêncio se instaura. Não sei o que estarão pensando os outros, sei que penso em meu pai e nas palavras com que ele preencheria o silêncio. Talvez só ele pudesse contar bem a história do sino, só ele se lembrasse do contexto exato, dos detalhes em que se assenta o sentido. Talvez só ele pudesse dizer que agarrara do chão aquele naco de bronze bem quando passava ao seu lado uma viatura policial, e que o levara consigo por proteção fingindo tranquilidade. 

Que por vezes, nos anos seguintes, apertava com força aquele velho e insensato badalo nos momentos de raiva, e que, na noite da ameaça que os fez fugir às pressas e atravessar a fronteira, com pouco mais do que umas roupas, deu um jeito de encaixar na mala aquele naco de bronze que nunca serviria para salvá-lo. Só ele poderia contar a história que não me cabe adivinhar, a história de que me livro meneando a cabeça de um lado para o outro, voltando ao jantar, voltando às palavras reais e à companhia dos vivos. 

*

Há algum tempo a casa está à venda. É uma casa grande, de três andares, uma casa antiga de paredes manchadas, cortinas puídas, maçanetas desconjuntadas, um espaço largo e trabalhoso demais para uma mulher só. A decisão de vendê-la é inteiramente consensual, mas pouco enfática. A casa está à venda, mas não contamos a ninguém, não propagamos a informação em nenhum lugar, é quase um segredo entre nós. E, no entanto, todos ansiamos pela proposta que um dia virá, e minha mãe já vai desmontando os cômodos nas horas vagas, vai se livrando de livros, vai enchendo caixas com outros enfeites insensatos.

Minha mãe sabe bem onde está, mas os detalhes de sua existência começam a lhe escapar

Enquanto o faz, algo de sua memória se apaga. É confuso habitar um espaço que muda a cada dia, que não oferece uma consistência de paisagem. Minha mãe sabe bem onde está, mas os detalhes de sua existência começam a lhe escapar, os objetos com que se depara já lhe dizem pouco, o passado carece de alguma profundidade. A casa é agora uma imensidão de coisas sem história, sem espessura. A casa está cheia de objetos disparadores de esquecimento, objetos aos quais já não sabemos nos apegar. Há algum tempo a memória está à venda, mas não tem aparecido ninguém disposto a pagar o valor que por ela estimamos. 

*

Dois dias depois minha mãe telefona. Avisa que tem uma boa notícia, e o primeiro pensamento que me acomete é que tenha surgido alguma proposta pela casa. Não, não é isso, ela bufa se desvencilhando da ideia como se fosse absurda ou desagradável. Tenho duas boas notícias, na verdade, ela amplia a expectativa, e então conta que as duas se referem ao pedaço de sino que eu tanto procurava. 

Primeiro, e mais importante, que eu passe assim que possível em sua casa porque ela o encontrou! Tinha sido levado ao seu quarto junto com outras quinquilharias, estava largado num canto, idêntico a si próprio, exatamente como o descrevi naquela noite. Segundo, que pensa ter se lembrado da história. A lembrança já passeava por sua cabeça desde que expliquei o propósito do conto. 

Estavam os dois em Córdoba ali por aqueles anos, num congresso acadêmico de algum tipo que era também um encontro da militância, e passaram ao lado de uma igreja em ruínas, ou uma igreja em reforma. Havia uma série de despojos largados ao redor, e ela própria se encantou com aquele pedaço de bronze, e decidiu carregá-lo sem saber bem com que finalidade, como continuou carregando-o nas décadas seguintes, de país em país, de casa em casa. Vejo que se esforça em me agradar, se esforça em inventar detalhes pertinentes, se esforça em configurar uma história, ainda que falhe. Vejo que eu também virei a falhar.

Agora escrevo este último parágrafo com o sino ao meu lado, sobre uma pilha de livros em minha escrivaninha. Não um sino, menos do que isso, apenas um pedaço de sino, a metade de um badalo de sino que já não soa. Os sinos já não soam em minha cidade, há tempos não escuto nenhum sino, é o pensamento estúpido que me ocorre. O sino é inexpressivo, não me diz nada, não me faz recordar nada, não tem história, e, no entanto, insisto em apertá-lo em meu punho, com força desmedida. Tê-lo em minha mão me comove. Não sei por quê, como se apertasse através do sino, pela última vez, a mão do meu pai, invento uma razão disparatada. Sei que vou levá-lo ao próximo jantar e provar a todos que não estou inventando, não estou fazendo literatura, que o sino existe e aqui está.

Nota da redação
A versão em espanhol deste artigo foi publicada na coletânea Materia de memoria: 13 relatos inéditos a 50 años del golpe (Emecé), recém-lançada na Argentina e inédita no Brasil.

Quem escreveu esse texto

Julián Fuks

É autor de A ocupação (Companhia das Letras).