Os escritores Marcelo Labes, Simone Campos e Thiago Souza de Souza (Rafaela Martins/Divulgação; Luiza Sigulem/Divulgação; Marco Antonio Filho/Divulgação)

Religião,

Fé na ficção

Ao escrever melhor o evangélico, três romances rejeitam estereótipos sobre um grupo social multifacetado e contraditório

30jun2026

Em anos recentes, aumentou a quantidade de livros, de ficção ou não ficção, que buscam narrar e compreender o protestantismo brasileiro. O interesse editorial acompanha o interesse que o Brasil passa a ter pelos evangélicos — já que se “evangelizou” nas últimas décadas, como evidencia reportagem da Folha de S.Paulo. Se no Censo de 1991 os crentes não chegavam a um em cada dez brasileiros, no de 2022 o contingente evangélico chega a 26,9% da nossa população.

A ascensão evangélica não se dá sem tensões, uma das principais sendo o perturbador entrelaçamento entre essa religião — até os anos 90 tida como uma seita por muitos católicos, apesar de a Reforma Protestante ter acontecido no século 16 — e o projeto político de extrema direita que chegou ao poder no país em 2018. Além disso, algumas vertentes do protestantismo brasileiro praticam uma leitura bastante literal da Bíblia, o que leva a fundamentalismos e à intolerância com outras religiões. Isso num contexto em que o protestantismo tem projeção midiática e poder político e econômico como nunca antes na história brasileira.

Envolto em estereótipos, preconceitos e mistificações, o evangélico revela um país que parte do Brasil desconhecia ou não queria enxergar e que, só em anos mais recentes, passou a ganhar maior centralidade em nossa ficção. Ao longo da história da literatura brasileira, o evangélico foi um ilustre coadjuvante. No necessário embate que toda boa literatura estabelece com os costumes e com a hipocrisia social, o crente, como personagem, se tornou uma variante do “beato” a ser ridicularizado.  

Nova perspectiva

Os romances Memória do chão, de Marcelo Labes, Mulher de pouca fé, de Simone Campos, e Do teu fantasma vejo só o coração, de Thiago Souza de Souza, todos publicados ao longo de 2025, são exemplos de uma nova perspectiva sobre o tema. Um dos precursores recentes dessa abordagem é Cancún (Companhia das Letras), de Miguel Del Castillo, lançado em 2019. Entre os vários méritos do romance está o modo crítico e honesto de abordar a religião protestante. Del Castillo fala de desejo, família e memória, grandes temas literários, a partir da vivência de personagens evangélicos. Ser um crente não é tudo que concerne a seus personagens — esse é o diferencial. 

Assim, a literatura contemporânea brasileira passa a trocar o viés da caricatura pelo da complexidade. Escrever melhor o evangélico, como os autores citados fazem, significa não se contentar em replicar lugares-comuns sobre um grupo social tão multifacetado e contraditório. Cancún, Memória do chão, Mulher de pouca fé e Do teu fantasma vejo só o coração não buscam, no entanto, a conciliação com a religião. Todos eles, em especial os três romances de 2025, fazem uma rigorosa análise da experiência religiosa evangélica, mas à radicalidade crítica se entrelaçam ternura e humanização. 

Ao longo da história da literatura brasileira, o evangélico foi um ilustre coadjuvante

Nenhum dos romances esquece que dentro das comunidades evangélicas existem, em primeiro lugar, pessoas. Elas, as pessoas que se denominam crentes, têm rotinas banais, como você e eu. Às vezes fazem coisas terríveis; às vezes, coisas admiráveis. É levando em consideração a nossa “eterna contradição humana”, para usar uma frase do conto “A igreja do Diabo”, de Machado de Assis, que os personagens evangélicos são escritos. 

No caso dos títulos publicados em 2025, encontramos ênfases diferentes na representação da experiência evangélica, além dos estilos distintos. No romance de Simone Campos, os crentes têm maior protagonismo, sendo o protestantismo um dos temas principais. Em Marcelo Labes, a religião é um contexto social. Ambos seguem o caminho da autoficção e constroem uma linguagem fluida, com narrativas descritivas e lineares. Há muito a ser conhecido sobre a vida de seus protagonistas, o que explica o investimento em narrar acontecimentos de suas jornadas, por um lado, e do contexto histórico, por outro. 

Já Thiago Souza de Souza se filia à tradição do drama psicológico e dá uma forma mais experimental a Do teu fantasma vejo só o coração. Com poeticidade e fragmentação narrativa, a reflexão evangélica recai principalmente em Fanta, uma das protagonistas. O autor se interessa pelo mergulho psicológico em seus personagens e se destaca nos momentos em que recria, com sabor psicanalítico, os tortuosos processos mentais da angústia, da memória e do delírio.

Formação

Sem recair em didatismo, os três romances constroem uma adensada moldura social de compreensão do mundo evangélico. No caso de Labes, o foco é a vida no colégio interno onde seu protagonista, Rafael, estudou. O colégio, de confessionalidade luterana, se chama Evangélica e se localiza no interior do Rio Grande do Sul. 

Nascido em Santa Catarina, como o próprio Labes, Rafael escuta falar que os internos na Evangélica recebem uma formação que os habilita a atuar, depois de formados, como pastores luteranos. No entanto, ao chegar à escola, o protagonista descobre que essa formação não existe mais e que ele será formado para atuar como professor da educação básica. O protagonista não tem vocação nem para o ministério nem para o magistério. Virar pastor, porém, é seu tíquete para sair de uma realidade social que o empareda, por ser um adolescente de família pobre. Ser pastor, na realidade construída por Memória do chão, significa não somente ter um salário razoável, mas, sobretudo na sua comunidade, obter maior status social. 

Tal qual Simone Campos, Labes escreve uma autoficção que se articula com a tradição do romance de formação. Embora partes de Memória do chão se passem na vida adulta de Rafael, o foco é a vida de interno, ao longo dos três anos do ensino médio, na Evangélica. Nesse sentido, não há como não aproximar esse livro de um clássico da nossa literatura: O ateneu, de Raul Pompeia. Sim, ilusões serão perdidas. 

A experiência da Evangélica não destoa da experiência de qualquer colégio interno laico ou religioso. Na verdade, o que Rafael e seus amigos e amigas vivem — o tédio, a iniciação sexual, o bullying, a descoberta de vocações, a amizade, o amadurecimento — em maior ou menor grau fará parte da vida social e afetiva de qualquer criança e adolescente que frequente uma escola. 

Julgamento

Ao observarmos os personagens evangélicos dos três autores, notamos que existe uma gradação no exercício da fé. Alguns são mais fervorosos, outros a vivem como qualquer católico não praticante. Todos têm defeitos e virtudes. Dessa forma, além da ausência de idealização ou de estereótipos religiosos, a ausência de julgamento moral é um componente importante para a fatura desses romances.

O escopo de Mulher de pouca fé, de Simone Campos, é o mais amplo de todos, porque ao acompanharmos a vida de Simone, uma criança e, depois, adolescente carioca, acabamos passeando pela história do país nas décadas de 80, 90 e 2000. Dos videogames, passando pela cultura pop, costumes, política, internet e TV, Mulher de pouca fé mostra que, dentro da singularidade da vivência religiosa, os evangélicos nunca deixaram de fazer parte do tecido social brasileiro, embora às vezes queiram se afastar desse mundo secular.

Ao longo das páginas, a narrativa constrói uma fascinante dicotomia: à medida que o país se evangeliza, que a igreja de Simone (a maldisfarçada Igreja Universal do Reino de Deus) cresce em tamanho e poder, a personagem se afasta da sua fé. Em especial, ao entender sua bissexualidade e sua condição neurodivergente, e ao perceber que a igreja não a acolhe em sua singularidade. A rigidez que a fé evangélica pode assumir é um dos pontos de crítica fundamentais de Mulher de pouca fé

Labes, Campos e De Souza fazem uma rigorosa crítica da experiência religiosa, com ternura e humanização

Tal rigidez nunca é aceita plenamente por nenhum personagem crente de Labes, Campos ou De Souza. Os protagonistas exercem a fé num estado de negociação constante, sabendo que o “pecado” está sempre à espreita — afinal de contas, nossos desejos não cabem na norma. Parte dos conflitos vividos nas narrativas diz respeito a como atualizar dinâmicas da vida contemporânea com regras de conduta pregadas pela Bíblia. Como ser fiel a Cristo ou aos mandamentos de Moisés na hipermodernidade do século 21? 

Com frequência, os personagens criam a sua forma particular de fé. É o caso de Fanta, uma das protagonistas do romance de Thiago Souza de Souza, mulher que precisa conciliar a família, o desejo sexual e a carreira artística com os compromissos com a igreja e com a sua ambígua e complexa fé cristã. 

Fanta precisa não só lidar com a culpa por ter contribuído para a internação compulsória do seu tio alcoolista em uma espécie de retiro evangélico, mas também com as consequências da participação como secretária de Cultura em um governo de extrema direita e com o delicado manejo de um filho cuja condição mental requer cuidados. Emparedada por múltiplas expectativas (arte, igreja, política), Fanta é a rebeldia suprema. Sua comédia de erros, tão humanos, é o fio condutor e aquilo que de mais forte ecoa em Do teu fantasma vejo só o coração

No ensaio “Mundo desfeito e refeito”, Antonio Candido se pergunta de que maneira podemos pensar, no estudo da literatura, a conexão do texto literário com “as motivações exteriores, provindas da personalidade ou da sociedade”. Em seguida, propõe uma saída: “A única maneira talvez seja entrar pela própria constituição do discurso, desmontando-o como se a escrita gerasse um universo próprio”. Os escritores e a escritora dessas histórias criam, com qualidade literária, universos próprios, que são representativos de uma dimensão social concreta. É através da fabulação literária que, nos romances sobre evangélicos — sejamos ou não crentes —, encontramos não só um outro, mas nossas próprias contradições.

Quem escreveu esse texto

Cristhiano Aguiar

É autor de Gótico nordestino (Alfaguara).

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