Literatura,

Sedução maligna

O clássico "Drácula", de Bram Stoker, mergulha na sexualidade sublimada pela violência e no abismo social do ocaso da Inglaterra vitoriana

01mar2021 - 00h00 | Edição #43

Tenho medo, medo, medo.
Dr. Van Helsing, em Drácula

Eu sei que eu sou um vampiro
Que nunca vai ter paz no coração.

Jorge Mautner, “Vampiro”

Na introdução à Antologia da literatura fantástica (1965), que assina com Jorge Luis Borges e Silvina Ocampo, Bioy Casares adverte: “Vampiros e castelos. Sua passagem pela literatura não foi feliz; lembremos de Drácula, de Bram Stoker […]. Não figuram nesta antologia”. Julgamento sumário e bastante severo, considerando-se que, àquela altura, a obra publicada pelo irlandês no apagar das luzes do século 19 já podia ser considerada o clássico definitivo das histórias de vampiro, havendo inclusive inspirado montagens cinematográficas memoráveis (com destaque para Nosferatu, de F. W. Murnau, de 1922).

O veredito do trio argentino não é unânime entre os escritores. H.P. Lovecraft, autor que Borges admirava, reconhecia, em 1927: “A melhor de todas [as histórias de Stoker] é a famosa Drácula, que se transformou na virtual exploração moderna-padrão do pavoroso mito do vampiro. […] Uma história que hoje faz jus a um lugar permanente nas letras inglesas”. O criador de Sherlock Holmes, Arthur Conan Doyle, que conhecia Stoker pessoalmente, escreveu-lhe para contar do seu prazer com a leitura da “melhor história de diablerie que li em muitos anos”. Gabriel García Márquez reputava Drácula como “um livro absolutamente fantástico, mas que os intelectuais consideram sem valor” — e é saboroso o relato de que o colombiano presenteara Fidel Castro com um exemplar da obra e, no dia seguinte, encontrara o líder cubano abatido, afirmando: “Aquele livro não me deixou dormir”.

Dentre os temas centrais de Drácula, destaca-se a alimentação. A razão principal é a própria condição do vampiro, de que decorre sua malignidade. Como explica o dr. Van Helsing em sua aula magna: “O vampiro continua vivo, não sendo suscetível à morte pela mera passagem do tempo, e se fortalece quando pode se nutrir do sangue dos vivos” (“Sangue é vida”, reza o Gênesis). Ademais, uma vez que essa é a forma exclusiva de nutrição dessas criaturas, a recusa em ingerir alimentos é um dos indícios de sua presença, assim como o tamanho acentuado dos caninos e o fato de espelhos não as refletirem. O vampiro, prossegue o holandês, “não come da mesma forma que nós”. Essa característica passa despercebida por Jonathan Harker em sua primeira noite no assombroso castelo, quando o conde gentilmente se desculpa: “Há de me perdoar por não o acompanhar, mas ocorre que já jantei”. Por outro lado, ela inquieta Van Helsing quando Drácula, lá pelo fim da epopeia, oferece comida a Madame Mina, que declina. 

Por fim, as refeições em Drácula (as convencionais, não as dos não mortos ou do pobre Reinfield, quiçá o alter ego de Harker/Stoker, que devora moscas e aranhas) adquirem um valor ritualístico, de preparação para o confronto com forças além da imaginação: “O jantar está servido. Temos que nos manter fortes para o que está à nossa frente; nossa tarefa é terrível e assustadora”.  

Um parêntese: chama a atenção o fato de, num romance em que as refeições se fazem tão presentes, quase não haver menção aos pratos servidos. A exceção famosa, logo na abertura, são as anotações de Jonathan Harker, jovem e pacato advogado que se delicia com especialidades da culinária romena, como paprika hendl e impletata. Consta que Stoker, embora tenha viajado bastante na condição de produtor teatral, jamais esteve nos Cárpatos e conhecia a região exclusivamente por meio das pesquisas às quais se dedicou para escrever sua magnum opus. É de supor que, salvo a função de contribuir para a caracterização do cenário “exótico”, adicionando cor local, a descrição de alimentos tenha parecido ao romancista um detalhe irrelevante.

Vale sublinhar, em seguida, a importância do dinheiro e do suborno, nessa narrativa. Assim como o conde, que não tem dificuldade em adquirir propriedades em Londres, os heróis do romance desconhecem apuros financeiros (alguns deles foram agraciados com boas heranças) e não poupam recursos em sua empresa — lançam mão, inclusive, de novidades tecnológicas como a máquina de escrever, o fonógrafo e a câmera Kodak. Tampouco hesitam em utilizar o vil metal para produzir facilidades onde há má vontade ou entraves burocráticos. 

Em Drácula, o abismo social — característico da Inglaterra vitoriana — é de tal ordem que inexiste diálogo entre trabalhadores e classe dominante sem intermediação monetária: assim, de gorjeta em gorjeta, abrem-se os caminhos no cemitério, no zoológico, na transportadora, no porto, na alfândega. Essa prática tão corriqueira — a intercessão do “juiz Propina”, nas palavras de Harker — parece um traço de subdesenvolvimento aos olhos do advogado britânico quando este chega à Bulgária, a caminho da Romênia: “Neste país tudo se resolve com suborno”, registra em seu diário o viajante que, no início da saga, havia se queixado da impontualidade dos trens e desdenhado da aparência das mulheres do Leste Europeu. 

Erotismo

Mas o aspecto do romance que mais tem fascinado seus apreciadores é, claro, a sua carga erótica peculiar. Para Stephen King, “Drácula é o motor ofegante dos últimos dias da sexualidade vitoriana, uma sexualidade que foi apenas sublimada através da violência”. A suposição de que Stoker se inspirou, para criar seu maligno personagem, em relatos sobre um conde romeno conhecido como Vlad Drakul, o Empalador, dá uma ideia dos modos inusitados e assustadores como sexo e morte se entrelaçam nessa história de um vampiro obstinado em penetrar suas vítimas com seus dentes pontiagudos. Ao fazê-lo, Drácula — ele próprio um não morto (un-dead) — transforma-as em não mortas, deixando-as em um torpor que não é vigília nem sono e que poderíamos chamar de pequena morte — outro nome para orgasmo. 

Segundo outra especulação, a inspiração para a criação do vampiro estaria nos modos refinados e na personalidade dominadora do ator Henry Irving, amigo e chefe de Stoker a quem permaneceu ligado por quase três décadas, nutrindo-lhe admiração e temor (sob o impacto da morte de Irving, em 1905, o escritor sofreria o primeiro da série de derrames que lhe custariam a vida). Outra possível fonte de inspiração teria sido Oscar Wilde, também amigo de Stoker, objeto de horror e fascínio por parte da sociedade britânica, condenado à prisão pelo “crime de homossexualidade” em 1895, dois anos antes de o vampiro vir, por assim dizer, a lume.

Em Drácula, o erotismo reprimido emerge, encantador e apavorante, na forma de musas etéreas que, surgindo furtivamente no castelo, seduzem Jonathan Harker: “Havia uma voluptuosidade deliberada que era ao mesmo tempo excitante e repulsiva, e ao curvar o pescoço ela chegou a lamber os beiços, como um animal”.

É interessante notar como, aqui, toda expressão de sensualidade é característica dos não mortos, enquanto os vivos, ou pelo menos os mais nobres dentre eles, devem primar pela pureza e castidade. Ao deparar com o abominável conde em uma rua de Londres, Mina Harker repara: “Seu rosto não era o de uma pessoa bondosa: as feições eram rígidas, cruéis e sensuais”. No diário do dr. John Seward, lemos estes registros do medonho encontro com uma Lucy Westenra agora transformada em monstro, de cujos lábios escorria o sangue ainda fresco de uma criança: “Seus olhos faiscaram com um brilho ímpio, e a face se contorceu num sorriso voluptuoso”. Posteriormente, ao vê-la em seu sepulcro, pouco antes de ser submetida ao penoso ritual que a faria descansar “como verdadeira morta”, o mesmo Seward destaca “a aparência geral lasciva e sensual que era como uma zombaria da adorável Lucy”.

Registre-se que, enquanto viveu, a bela Lucy teve sua aura de castidade diligentemente defendida pelos que a amavam. Castidade que se exprimia antes de mais nada pela adequação da vestimenta. Numa noite em que, sonâmbula, ela sai pelas ruas de Whitby atraída pelo misterioso chamado de “um vulto alto e negro”, sua amiga Mina em princípio sente alívio ao verificar que tanto seu peignoir quanto seu vestido continuavam nos devidos lugares, e conclui: “Ela não pode ter ido longe, pois está só de camisola”. Ledo engano: a apavorada Mina afinal encontra a amiga desfalecida e seminua, a quadras dali, no penhasco que as duas gostavam de frequentar. Uma de suas preocupações era que Lucy, “devido à pouca roupa que usava”, apanhasse um resfriado. Mas, claro, havia outra, que Mina adiciona a seguir: “Temia por sua reputação, se a história se tornasse conhecida”. Dias depois, Lucy recordaria nestes termos o que experimentou no sombrio encontro com o vulto alto e escuro, de olhos vermelhos: “Uma sensação ao mesmo tempo muito agradável e muito dolorosa me envolvendo”.

Fidel Castro teria ficado abatido com o livro, que recebera de presente de Gabriel García Márquez 

Ainda mais intenso é o ataque que Madame Mina sofre quando o conde irrompe no quarto em que ela dormia com o marido, agarra-a pela nuca e, não contente em sugar-lhe o sangue, obriga-a a beber o sangue de si próprio, que ele faz brotar do peito nu. Estranha e enfeitiçadora troca de fluidos. Uma comunhão blasfema, diria Lovecraft. Sobre esse tópico, há que se dizer, ainda, que é erótica (embora predominantemente casta e certamente distante dos ritos de bondage de que Drácula se mostra capaz) a união entre os heróis desse romance polifônico: Lucy Westenra é objeto do desejo de Arthur Holmwood (aka lorde Godalming), do caubói norte-americano Quincey P. Morris e do dr. John Seward, diretor do hospício local — os quais lhe pedem a mão, todos, num mesmo dia.

Embora decidida a casar-se com Arthur, Lucy se interessa pelo trio e chega a confidenciar a Mina seu sonho de que a moralidade vigente fosse mais próxima do desejo: “Por que não permitem que uma moça se case com três homens, ou com quantos quiser?”.

É também amoroso o cuidado que Mina dispensa a sua amiga, cuja beleza admira: “Está mais corada que o habitual, e tão bonita!”, diz ela, parecendo uma personagem de Cassandra Rios a adorar a amante. Por sua vez, Mina cai nas graças do professor Van Helsing, que a cobre de elogios, um deles nestes termos: “Tem o cérebro de um homem, na verdade o cérebro de um homem particularmente dotado, e o coração de uma mulher”.

Isso dito, nada traduz melhor a eficácia da sedução maligna de Drácula do que o fato de a obra oferecer aos leitores uma boa quantidade de cenas, algumas delas inesquecíveis, de genuíno horror — garantia de gozo para os aficionados do gênero, que, assim como Lucy, desfrutam do que os faz padecer.

Quem escreveu esse texto

Pedro Amaral

É autor de Meninas más, mulheres nuas: as máquinas literárias de Adelaide Carraro e Cassandra Rios (Papéis Selvagens).

Matéria publicada na edição impressa #43 em fevereiro de 2021.