Literatura japonesa,

Um guerreiro pacifista

Morto aos 85 anos, Leiji Matsumoto deixa uma prolífica obra de teor antiguerra nos mangás e animações

31mar2023 - 03h51 | Edição #68

Foram exatas oito décadas dedicadas à prancheta de desenho, dezenas de quadrinhos publicados e mais tantas outras animações produzidas. Isso sem falar nos prêmios e condecorações, como Pessoa de Mérito Cultural pelo governo japonês ou o título de Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras da França. Com uma carreira desse porte, é possível afirmar que Leiji Matsumoto, morto por insuficiência cardíaca aos 85 anos em fevereiro, combateu o bom combate — ainda que de combatente nada tivesse, já que as posições antiguerra sejam um dos pilares de sua vasta obra.

Nascido Akira Matsumoto (Leiji é a versão chinesa de seu nome, adotada como pseudônimo), natural de Kurume, província de Fukuoka, começou a desenhar cedo, aos cinco anos de idade. Sua estreia no mercado editorial se deu na adolescência, fato comum entre vários quadrinistas japoneses renomados (como Osamu Tezuka e Yoshihiro Tatsumi). Ao final do ensino médio, mudou-se para Tóquio com o objetivo de apostar na carreira de artista — na capital, quem sabe, a fama poderia chegar antes.

Seu primeiro grande sucesso, no entanto, viria apenas no início da década de 70, com Otoko Oidon, série a respeito de um jovem pobre que se prepara para o vestibular. Já havia então se casado com Miyako Maki, uma das primeiras mulheres criadoras de mangás a se tornar fenômeno cultural em todo o Japão. Em parceria com a esposa, desenvolveu diversos projetos artísticos ao longo das décadas, o principal deles sendo o estúdio Leijisha.

“Quando era criança, e certamente por toda minha vida, eu sempre estava pensando e lendo sobre a Terra, sobre seres sencientes do passado, presente e futuro”, disse Matsumoto há alguns anos em entrevista ao jornal Japan Times. Talvez venha dessa inquietação em relação a nosso papel no universo seu gosto pela ficção científica. A vontade de conhecer outros mundos, outras formas de vida, era tanta que preferiu criá-los ele mesmo.

A partir de 1974, a aposta de Matsumoto enfim se pagou: enfileirou mangás bem-sucedidos de público e crítica, como Patrulha Estelar Yamato, Space Pirate Captain Harlock, Galaxy Express 999 e Queen Emeraldas. Em comum, enredos passados num futuro distante, no qual a humanidade dominou a viagem interestelar e luta para sobreviver em meio a espaçonaves, raças alienígenas e androides. Outra semelhança é que todos os trabalhos ganharam séries animadas de sucesso — foi esse, inclusive, o fator essencial para o autor se fazer conhecido no Ocidente. A adaptação de Yamato era a mais querida por ele, que se envolveu em diversos aspectos da produção, incluindo argumento, design de personagens e direção.

O embate entre nossos instintos assassinos e a busca pela preservação da vida foram seu foco

Seus quadrinhos abordam os horrores da guerra, principalmente o impacto psicológico da perda e da solidão causado por ela. Durante toda a década de 70, Matsumoto também produziu inúmeros senjou manga (“mangás de campo de batalha”), nos quais abordava o tema diretamente. Vale lembrar que ele era criança ao fim da Segunda Guerra Mundial; seu pai foi piloto de elite no conflito e, segundo relatos, disse ao filho que a guerra “destrói o futuro”. Não à toa, seria justamente o embate entre nossos instintos assassinos e a busca pela preservação da vida o foco de seu trabalho.

“Seus senjou manga são retratos vívidos do que acontece durante a guerra, narrando a experiência nua e crua dos soldados de ambos os lados”, comenta a tradutora especializada em hqs japonesas Drik Sada. “Isso aparece, por exemplo, numa cena de combate aéreo em que o piloto japonês chora durante o voo de ataque. Ao chegar próximo do avião inimigo, seu olhar cruza com o do piloto americano na outra cabine, que também chora. Ambos acabam abatidos.”

Na versão de luxo de Yamato, lançada pela editora NewPop no Brasil, a narrativa é descomprimida para mostrar os tempos mortos entre as batalhas. São várias as imagens da embarcação do título apenas voando pelo espaço ou situações em que pouco ou quase nada acontece efetivamente na trama. O aspecto reflexivo também está na versão em anime — em tese uma mídia mais movimentada, já que se trata de uma obra audiovisual. No fim do primeiro capítulo da série, um combate se anuncia de modo tenso; a música cresce em agitação, uma nave persegue a outra, o motor de uma delas superaquece e a tripulação se vê obrigada a pousar. A supressão da ação até tem propósito, levando a história a um rumo inesperado, mas demonstra os reais interesses de Matsumoto: a morte e a destruição ficam para depois; as pessoas são o mais importante.

“São muitos os autores japoneses que têm partido nos últimos anos, como Hiroshi Hirata, Sanpei Shirato e, agora, Matsumoto, pessoas que viveram a guerra e o pós-guerra e expressaram seus sentimentos quanto a isso em suas obras”, lamenta Drik Sada — em março último, o escritor pacifista Kenzaburo Oe, Nobel de Literatura em 1994, também nos deixou. “Ainda bem que, por meio delas, continuaremos a ter a chance de ouvir suas vozes e mensagens.”

Sons intergalácticos

Matsumoto ainda se tornou ícone cult da música eletrônica na virada do milênio. O duo francês Daft Punk planejou uma animação em formato de longa-metragem para acompanhar o álbum Discovery, de 2001. A ideia era costurar as canções a uma história grandiosa passada no cosmos, porém mundana na essência: uma banda (de jovens alienígenas) tentando escapar do jugo de um empresário sem escrúpulos. O escolhido para supervisionar o projeto foi o mangaká. “Como crescemos com os poéticos e enigmáticos mundos criados por Leiji Matsumoto, sonhamos com a possibilidade de trabalhar ao lado dele”, explicou a dupla em depoimento durante o Festival de Cannes de 2003 — onde o filme, intitulado Interstella 5555: The 5tory of the 5ecret 5tar 5ystem, foi apresentado depois de dois anos de trabalho. O icônico videoclipe de “One More Time”, sucesso arrasa-quarteirão do Daft Punk, é retirado de uma sequência de Interstella. A estética, as cores, os efeitos visuais: tudo revela sem esforço a mente por trás da obra.

Makiko Matsumoto, filha do criador e atual diretora do estúdio Leijisha, comentou quando da morte do pai: “Matsumoto costumava dizer que ‘no ponto distante onde os anéis do tempo se juntam, nos encontraremos novamente’”. Se depender da arte dele, sua jornada sempre será lembrada — seja nas estátuas dos personagens de Yamato e Galaxy Express 999 erguidas na cidade portuária japonesa de Tsuruga, no inconformismo com a guerra, na representação visual de um clássico da música pop contemporânea ou mesmo na indagação sobre o que existe além daquele brilho no céu.

Esta editoria tem o apoio da Japan House São Paulo.

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Desde 2019, a Japan House São Paulo realiza em parceria com a Quatro Cinco Um uma cobertura especial de literatura japonesa, um clube de leitura e eventos especiais.

Quem escreveu esse texto

Thiago Borges

É jornalista especializado em quadrinhos. Escreve o blog O Quadro e o Risco e edita a revista impressa Banda.

Matéria publicada na edição impressa #68 em março de 2023.