Literatura brasileira,

Poeta e mercadoria

A história de Stella do Patrocínio pode ser situada como um importante contraponto à história da arte moderna

24out2021 - 22h58 | Edição #51

Fim de Linha é como ficaram conhecidos os 77 quilômetros quadrados de terra onde se situa a colônia psiquiátrica Juliano Moreira, no Rio de Janeiro. Foi a fronteira que Stella do Patrocínio involuntariamente atravessou quando estava caminhando na rua, ao ser capturada pela polícia por supostamente ter “esquizofrenia hebefrênica, evoluindo sob reações psicóticas”. A colônia onde viveu até sua morte física confirma como a violência da escravidão e do colonialismo se perpetua em uma temporalidade não linear.

A Colônia Juliano Moreira foi construída em 1924 no terreno onde ficava um antigo engenho de açúcar do século 19, o Engenho D’Água, sendo que a edificação da senzala foi transformada no refeitório dos pacientes do hospício. Podemos concluir que as construções que hoje são tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) modernizaram no século 20 a sua estrutura de violência na versão da “plantação cognitiva”, termo articulado pela artista e escritora Jota Mombaça. Também podemos ler esse fato por meio do conceito de “dívida impagável” de Denise Ferreira da Silva, uma ferramenta poética feminista negra definida como “uma obrigação moral que se carrega, mas que não deveria ser paga”.

A construção da personagem de Stella se consolidou na criação da figura de uma poeta por meio do que ela mesma chamava de falatório, termo que envolve certa profecia performativa. O que acredito que o falatório pode nos possibilitar como espaço de revisão crítica é exatamente o que sempre esteve lá e que nunca foi devidamente ouvido: como a subjugação e a expropriação que constituem a base do capital racial-colonial fizeram com que os ex-escravizados não fossem apenas despojados dos meios de produção e do valor total criado por seu trabalho e de seus ancestrais, mas também fossem enquadrados na institucionalização psiquiátrica por um arsenal político-simbólico-biológico que atribui a eles um inerente defeito moral e intelectual.

A partir dessa acumulação negativa, outro conceito de Denise Ferreira da Silva, a ficção científica evolucionista, positivista e determinista do século 19 criou sistemas eugênicos que enalteciam a existência de raças inferiores, considerando a miscigenação um sinônimo de degeneração. É por isso que o mito da democracia racial e as políticas de embranquecimento são um capítulo importante da história da sociedade brasileira, com a ideia de miscigenação amplamente incentivada como propaganda nacional. Foi quando a política governamental incentivou a imigração de europeus para trabalhar em posições que, segundo tais políticas, a população negra, depois da farsa da Abolição, não seria capaz de desenvolver, o que acarretaria um atraso à industrialização e ao desenvolvimento do país.

Ao mesmo tempo, com essa massa populacional negra desempregada invadindo as ruas e a convicção das elites de que essa condição miserável era efeito de apropriação indevida, o nosso futuro foi definido: encarceramento psiquiátrico e encarceramento no sistema prisional. Ou seja, Stella só se tornou uma “poeta-louca” porque a extração do valor total do trabalho escravo foi autorizada e perpetuada pelo Estado. Razão pela qual ela, como mulher negra, é levada a reiterar e representar, sem agência, o significado figurativo da palavra “negro” de 1757, segundo o Dicionário Houaiss: “negro usado em trabalho escravo; um ghost-writer ou escritor fantasma; uma pessoa que escreve uma ou mais obras assinadas por um outro alguém”. Podemos concluir ainda que a institucionalização literária de Stella precisou da violência da institucionalização psiquiátrica para realizar seu ritual sádico de captura, que no final constitui a vida humana como dependente da morte negra para sua existência, sua coerência, seu valor e seu lucro eterno.

Arte

Enclausurado nas categorias da arte moderna como arte bruta ou arte dos insanos, o falatório foi capturado para que ao fim ele pudesse testemunhar contra a única estratégia de fuga e sobrevivência de Stella: a oralidade e a experiência sonora negra. Como podemos perceber com a escuta dos falatórios, fica claro em todas as gravações que o seu enunciado não fala sobre a loucura, e sim sobre um processo de adoecimento institucional devido à condição racial que Stella experienciava.

Como a nova administração do Museu Bispo do Rosário, na Colônia Juliano Moreira, me convidou há dois anos para organizar uma exposição sobre Stella do Patrocínio, venho trabalhando na escuta dos áudios para abrir um debate sobre algo que precisamos ter como premissa: como Stella poderia recusar a ideia de uma exposição, como deveria ser esse projeto curatorial? Já que o nosso presente não vai libertar Stella do que foi o seu futuro, como lidar com a impossibilidade de justiça social? E qual seria o papel de um museu em manter em seus domínios (ainda que públicos) a materialidade da expressão da violência que a própria instituição ocasionou?

Stella só se tornou ‘poeta–louca’ porque a extraçãodo trabalho escravo foiautorizada pelo Estado

Orientada por essas perguntas, cheguei à proposta do projeto Falatório: Grupo de Escuta e Estudos. Trazendo como convidada uma das mais importantes pensadoras do pensamento radical negro contemporâneo, a filósofa, artista e diretora do Institute for Gender, Race, Sexuality & Social Justice (GRSJ), da University of British Columbia, no Canadá, Denise Ferreira da Silva, pretendemos através da oralidade e da plasticidade sonora do falatório levantar as implicações, as contradições e os efeitos de como a sociedade antinegra brasileira vem impactando a vida da população negra institucionalizada e quais são as reverberações no campo da arte moderna e contemporânea. Participam desse grupo artistas como Jota Mombaça, Ana Lira, Castiel Vitorino Brasileiro, Rebeca Carapiá, Ventura Profana, Paulo Nazareth, Juliana dos Santos, Rafael rg, Kulumym-Açu e Igi Ayedun.

Ao longo desse tempo com Stella, venho considerando que a sua história pode ser situada como um importante contraponto à história da arte moderna. Tanto porque nos traz um panorama sobre o cenário artístico da arte contemporânea quanto por revelar as consequências dos processos de apropriação do modernismo brasileiro. Tal apropriação refere-se ao fato de que, mesmo muito próximo da chamada “arte asilar ou arte dos loucos”, o que Stella nos mostra é que o movimento modernista estava mais interessado em se apropriar da “valiosa contribuição” dos pacientes ao programa estético modernista, a fim de se libertar da resistência acadêmica conservadora, do que lutar contra a estrutura racial que tornava possíveis essas expressões. Essa herança cultural, baseada numa produção de valor que articula a intimidade entre arte e loucura no país, são os mesmos princípios éticos que influenciam, direcionam e permitem, décadas depois, a apropriação da expressão de Stella, institucionalizando-a como poeta e mercadoria.

No livro Learning from Madness: Brazilian Modernism and Global Contemporary Art (Aprendendo com a loucura: modernismo brasileiro e arte contemporânea global), Kaira Cabañas apresenta como o modernismo se apropriou da chamada arte dos insanos e de seus trabalhos criativos para o seu desenvolvimento. Principalmente através de colaborações de artistas da vanguarda como Flávio de Carvalho, do psiquiatra Osório César, da médica Nise da Silveira e do crítico Mário Pedrosa, que resultou, em 1949, numa exposição inédita no Museu de Arte Moderna de São Paulo, chamada 9 artistas de Engenho de Dentro do Rio de Janeiro. Segundo Cabañas, “a recepção do trabalho dos pacientes psiquiátricos é tão vital para as práticas institucionais da arte moderna quanto o Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade é para o modernismo estético. Além disso, a arte psiquiátrica nos museus brasileiros e o manifesto de Andrade têm vidas posteriores nas práticas artísticas e culturais atuais”.

Se ainda hoje debatemos a ausência de artistas racializados e dissidentes nos acervos das instituições museológicas de arte, o que a vida de Stella nos comprova é que talvez estejamos procurando nas instituições modernas erradas. Hospitais psiquiátricos, manicômios, colônias e asilos são os espaços que faltavam para preencher os vazios de uma parte importante da história da arte afro-brasileira, que incontornavelmente tem um dos seus capítulos fundamentado no que se convencionou chamar de arte e loucura. Questões que nos levam a concluir que, para a arte moderna brasileira, a morte de Stella do Patrocínio foi um evento necessário.

Essa texto tem apoio do Itaú Cultural.

Quem escreveu esse texto

Diane Lima

É curadora, diretora criativa, pesquisadora e designer.

Matéria publicada na edição impressa #51 em setembro de 2021.