História,

Espírito visionário

Ao mesmo tempo tradicional e cosmopolita, Zuzu Angel misturou o artesanato brasileiro, o ateliê e a moda jovem do prêt-à-porter

01abr2021 - 00h00 | Edição #44

Com nome de vedete, Zuzu Angel nasceu na década de 1920 do século passado. Mas não parece. Sua desconcertante modernidade a situa ao lado das mulheres contemporâneas mais esclarecidas. Independente e confiante, ela é o retrato da mulher do século 21. E tem mais. De família humilde do interior de Minas, Zuzu sapateou na cara da sociedade e deu o dedo em general da ditadura.

Herdou da mãe costureira o gosto pelas roupas e pelo artesanato e desde cedo costurava para as primas e amigas. Se Minas deu a ela o gosto pelas rendas e bordados, foi a Bahia, onde viveu quando jovem, que apimentou seu estilo: cores tropicais, babados e estampas exuberantes. Quando foi morar no Rio de Janeiro, uniu-se ao Comitê Feminino, presidido por Sarah Kubitschek, para auxiliar nos trabalhos sociais, costurando. Assim, ampliou seus contatos com a alta sociedade. 

Passou a costurar para se sustentar quando surgiram dificuldades em seu casamento. Sem capital, comprava tecidos baratos, como brins de forrar colchão, e criava saias balonês, entremeadas por galões de gorgorão. Logo lançou moda e foi copiada por mulheres que ainda tinham o hábito de costurar em casa. 

Sua busca por uma silhueta natural atraía mulheres que não queriam mais se vestir como bonecas

Transformou seu quarto em butique-ateliê quando se desquitou e vendia peças já confeccionadas ou feitas sob medida. Havia poucas lojas de prêt-à-porter estilosas, e as mulheres da classe média ou alta costumavam encomendar às modistas roupas exclusivas. Para criar seus três filhos, seguiu o modelo vigente, conquistando uma clientela abastada.  

O sucesso de Zuzu permitiu que ela começasse a ousar em suas criações. Sua busca por uma silhueta natural, que respeitasse os volumes do corpo feminino e não precisasse ser apertada por cintas, atraía mulheres que não queriam mais se vestir como bonecas.

Cortes simples, formas soltas e confortáveis, com estampas coloridas e inspiração na natureza, davam amplitude aos movimentos e inauguravam a leveza do estilo carioca. Bordados singelos de flores, borboletas, pássaros e frutas em cores doces ou vibrantes expressavam a ideia de um país alegre e jovial. Vestidos de cores claras, cavados e sensuais, mas sempre irreverentes, propunham uma nova moda, diferente da alta-costura de Paris (considerada chic e de bom gosto e que era inspiração dos costureiros renomados da época).

As grã-finas e artistas brasileiras — dentre elas Marieta Severo e Bibi Ferreira — não eram suas únicas fãs. Kim Novak e Liza Minnelli são alguns dos nomes que fizeram a fama de Zuzu no estrangeiro. Audaciosa, ia atrás das pessoas para mostrar o seu trabalho. Foi assim com Joan Crawford, de quem se tornaria amiga. Foi ela que apresentou Zuzu à sociedade nova-iorquina e à influente Eugenia Sheppard, jornalista de moda que anunciou a chegada à cidade daquela estilista cheia de vigor. 

Zuzu estava pronta para conquistar o mercado norte-americano. Procurou a Bergdorf Goodman, uma das lojas de departamento mais luxuosas do mundo, e foi aceita como a darling carioca. Para ser notada no exterior, aprofundou suas pesquisas da cultura brasileira, explorando temas inéditos como as baianas, Carmen Miranda, Lampião e Maria Bonita numa pegada cosmopolita, nunca folclórica. 

Experimental, usava sementes, conchas e bambu para elaborar delicadas decorações em suas batas camponesas e criava efeitos hippie chic em peças com franjas e metais. Rendas como o labirinto ou a renascença, na época consideradas inferiores, foram valorizadas em vestidos de noiva com design limpo. Colares de feijão e moringas de coco incorporavam-se aos looks, surpreendendo as clientes mais novidadeiras. Sua admiração pela tradição fez com que criasse vestidos românticos a partir de paninhos de bandeja arrematados em crochê, toalhas de mesa em bordado inglês ou da Ilha da Madeira, transformando a casa brasileira em looks de passarela. 


Vestido feito de toalhinha de bandeja de Zuzu Angel, clicado por Valentim

Embora seus detratores a chamassem de cafona, misturou, com espírito visionário, as técnicas do artesanato brasileiro, a moda sob medida de ateliê e a linguagem da moda jovem do prêt-à-porter, criando um estilo simples, sofisticado e descontraído. 

É possível estabelecer relações entre a moda de Zuzu e algumas manifestações da moda internacional. Nos Estados Unidos, a moda caseira de Claire McCardell e a roupa prática de Diane von Furstenberg e, em Londres, as referências folk de Bill Gibb e as camponesas de Laura Ashley são alguns exemplos. 

Até 1971, Zuzu construiu uma moda inspirada e única. Tornou a figura do anjo sua marca registrada, abriu uma butique no Leblon, lançou coleções, fez desfiles, vendeu para lojas importantes no exterior e assinou o figurino do filme icônico Todas as mulheres do mundo (1966), de Domingos de Oliveira. 

Desfile político

Tudo ia bem na sua carreira, até o desaparecimento de seu filho, Stuart Angel Jones, que, envolvido com os movimentos estudantis de esquerda, acabaria sendo morto numa sessão de tortura durante a ditadura militar. A partir desse momento, Zuzu luta com todas as suas forças: encara os militares mais perigosos, escreve cartas de denúncia, procura políticos influentes e junta-se a outras mães desejosas de conhecer a verdade sobre o paradeiro de seus filhos.


Zuzu ajusta vestido do primeiro desfile abertamente político da história, em 1971

Apesar da dor, continua seu trabalho. Sua moda, porém, nunca mais foi a mesma. Nos Estados Unidos, denuncia a ditadura militar do Brasil numa das mais emblemáticas apresentações da nossa história, considerada o primeiro desfile político do mundo. Une imaginação e ironia, criando vestidos singelos com bordados infantis: desenhos de quepes militares, tanques de guerra, canhões e o sol encarcerado. O desfile é comentado por vários jornais estrangeiros e, desse dia em diante, Zuzu vai sempre se apresentar vestida de luto.

Ela denuncia a ditadura militar do Brasil num dos mais emblemáticos desfiles da nossa história

Uma história bonita com final perturbador. Lutando contra um sistema político covarde, Zuzu foi morta numa emboscada a caminho de casa. O corpo de seu filho nunca foi encontrado, e os assassinos de ambos, assim como de muitos outros, nunca foram julgados. Mas a voz de Zuzu continua sendo ouvida através da moda de Ronaldo Fraga, que homenageia a cultura brasileira, ou de Isabela Capeto, alegórica e inocente.  As estampas de Adriana Barra e da Farm e a natureza na moda praia de Lenny Niemeyer também demonstram afinidades com a estilista mineira. O Instituto Zuzu Angel, por sua vez, preserva seu acervo e sua história, fomenta a moda e a cultura brasileira e atualiza o ativismo em desfiles como o do ModAtivismo, que, em parceria com o Instituto, denunciou a morte de jovens negros da periferia. 

Zuzu foi corajosa e inovadora. Neste momento em que mais uma página infeliz da nossa história está sendo escrita, não devemos nos esquecer dessa personagem tão inspiradora, na arte e na luta.

Quem escreveu esse texto

Mariana Rocha

É consultora de moda e professora da Faculdade Santa Marcelina.

Matéria publicada na edição impressa #44 em março de 2021.