Cinema,

Confissões de um incinerador de livros

Ray Bradbury acreditava que o pensamento crítico estava sob ameaça. Seu romance clássico é mais relevante do que nunca

01jul2018 - 04h51 | Edição #13 jul.2018

Nenhum livro sofreu maus-tratos durante as filmagens. Não há esse tipo de aviso no final do meu novo filme, pois queimamos um monte de livros. Desenvolvemos poderosos lança-chamas a querosene e incineramos livros — em massa. Não foi fácil para mim. Quando eu era muito pequeno, me ensinaram a ler e a respeitar os livros. Até mesmo deixar uma xícara de chá em cima de um livro era considerado um pecado. Na casa dos meus pais, o livro de poesia persa de Hafiz, Diwan, era reverenciado como se fosse um texto religioso. 

Só que agora eu estava preparando uma adaptação cinematográfica de Fahrenheit 451, o seminal romance de Ray Bradbury que mostra os Estados Unidos do futuro, onde livros são proibidos e queimados pelos bombeiros. O protagonista, um bombeiro chamado Guy Montag, começa a pôr suas ações em dúvida e se volta contra o seu mentor, o capitão Beatty. Quando comecei a adaptar o romance, no início de 2016, me deparei com uma grande questão: as pessoas ainda se importam com livros físicos?

Pedi conselhos a um amigo de 82 anos. “Vá em frente e queime livros,” disse ele. “Eles não significam nada para mim. Posso ler o que quiser no meu tablet, do Gilgamesh a Jo Nesbø, e posso ler na cama, no avião ou à beira-mar, porque tudo está na nuvem, a salvo das tochas dos seus bombeiros.”

Se ele pensava assim, imagine um adolescente. O romance de Bradbury é um clássico estudado nas escolas dos Estados Unidos. Quanto mais eu pensava sobre ele, mais relevante ele parecia. Para Bradbury, os livros são repositórios de conhecimento e ideias. Ele temia um futuro no qual essas coisas estariam ameaçadas, e agora o futuro estava aqui: a internet e as novas plataformas de mídias sociais — e sua potencial ameaça ao pensamento sério — estariam no coração da minha adaptação. 

Eu nunca havia adaptado um livro, imagine começar por um dessa importância. Alterar uma obra tão brilhante e admirada sempre chateia alguns fãs. Eu sabia que Bradbury tinha gostado da adaptação para o cinema de François Truffaut, de 1966. E, mais importante, o próprio Bradbury tinha reimaginado Fahrenheit 451 primeiro como peça de teatro, depois como musical, modificando muitos elementos, como deixar que Clarisse McClellan, a vizinha de Montag, vivesse (no romance, ela morre logo no começo). Tendo Bradbury como guia e com a promessa de me manter fiel a suas ideias, comecei a trabalhar no roteiro.

Angústias

Fahrenheit 451 foi escrito no começo dos anos 1950, não muito depois de os nazistas terem queimado primeiro livros e, por fim, seres humanos. Os Estados Unidos viviam sob uma nuvem de medo, criada pelo Comitê de Atividades Antiamericanas e pelo macartismo, que trouxeram repressão política, listas negras e censura sobre a literatura e a arte. Essas angústias permeiam o romance.

Mas a inspiração-chave de Bradbury foi a invasão das televisões em preto e branco de sete polegadas na casa das pessoas. Bradbury não era um ludita. Escreveu roteiros, incluindo uma adaptação de Moby Dick. Também escreveu 65 episódios de uma série de TV, The Ray Bradbury Theater. Mas, em Fahrenheit 451, Bradbury nos alertava para a ameaça dos meios de comunicação de massa à leitura, para o bombardeio de sensações digitais com potencial de substituir o pensamento crítico. 

No romance, ele imagina um mundo onde as pessoas se entretêm dia e noite encarando telas gigantes na parede de casas. Interagem com “amigos” através dessas telas, ouvindo-os por Seashells — a versão de Bradbury para os AirPods sem fio da Apple — enfiadas no ouvido. Nesse mundo,  as pessoas estão sobrecarregadas de “informações não combustíveis” — letras de canções populares, nomes das capitais estaduais, o volume de “milho que Iowa produziu ano passado”.  “Sentem que estão pensando”, Bradbury escreve, “e estão felizes, porque fatos desse tipo não mudam”.

Bradbury ficou preocupado com o surgimento da revista Reader’s Digest. Hoje temos a Wikipedia e tuítes. Ele achava que as pessoas só leriam as manchetes. Hoje, parece que metade das palavras on-line foram substituídas por emojis. Quanto mais erodimos a linguagem, mais erodimos o pensamento complexo e nos tornamos mais facilmente controláveis. 

Bradbury temia a perda de memória. Hoje, designamos o Google e nossas contas em mídias sociais como guardiões de nossas memórias, emoções, sonhos e acontecimentos. Com as empresas de tecnologia consolidando o seu poder, imagine como seria fácil reescrever o verbete de Benjamin Franklin na Wikipedia para ficar igual ao que os soldados do romance de Bradbury aprendem sobre a história do Corpo de Bombeiros: “Criada, em 1790, para queimar nas colônias livros com influências inglesas. Primeiro bombeiro: Benjamin Franklin”. À sua maneira, Bradbury previu a ascensão dos “fatos alternativos” e de uma era da “pós-verdade”.

À medida que o mundo virtual se torna mais dominante, ter livros torna-se um ato de rebelião. Quando se possui um livro impresso, ninguém pode rastreá-lo, alterá-lo ou hackeá-lo. As personagens do meu filme nunca viram um livro. Quando encontram uma biblioteca pela primeira vez, os livros são como água num vasto deserto digital. Olhar, tocar e cheirar um livro é tão alienígena para os bombeiros quanto ordenhar manualmente uma vaca seria para a maioria de nós. Os bombeiros são mesmerizados pelos livros — e ainda assim eles precisam queimá-los.

Desafio legal

Queimar livros no filme mostrou-se um desafio legal. A arte da capa da maioria dos livros é protegida por copyrights, e na maioria dos casos nós não conseguimos autorização para mostrar — muito menos para queimá-los diante das câmeras. Então os diretores de arte do meu filme criaram inúmeras capas de livro originais que pudéssemos queimar. 

A pergunta era: quais livros? Havia mais títulos que eu queria queimar do que o tempo de filmagem permitiria. Eu queria incluir alguns dos meus favoritos, como Crime e castigo, o Cântico dos cânticos, e as obras de Franz Kafka. Mas precisávamos queimar mais que apenas ficção. As Histórias de Heródoto — a própria história — foram incineradas. Páginas da poesia de Emily Dickinson, Tagore e Ferdowsi se reduziram a cinzas. Botamos fogo na filosofia de Hegel, Platão e Grace Lee Boggs. Os bombeiros não discriminaram ninguém: textos em chinês, hindu, persa e espanhol foram incendiados. Uma partitura de Mozart, uma pintura de Edvard Munch, revistas, jornais, fotografias de Touro Sentado, de Frederick Douglass e da chegada na lua em 1969 viraram fumaça.

Até o mais fanático bombeiro teria dificuldade em queimar todas as cópias de um best-seller como Os 7 hábitos de pessoas altamente eficazes. Depois que J.K. Rowling fez uma declaração contra Donald Trump no Twitter, pessoas tuitaram que planejavam queimar seus livros da série Harry Potter. Pois assim o fizemos. Livros que ganharam fama por seu banimento tinham que estar na lista: A autobiografia de Malcolm X, Lolita, Folhas de relva e O manifesto comunista. Enquanto filmávamos, O sol é para todos, alvo frequente de censura, foi novamente banido em algumas escolas: jogamos na fogueira. Para alguns autores, ter um livro queimado no filme virou um distintivo de honra. Werner Herzog e Hamid Dabashi doaram generosamente o seu trabalho para ser queimado junto com o melhor e o pior da literatura. Se salvarmos Sangue sábio, então precisamos preservar Mein Kampf também.

O assovio das páginas se incinerando soava como os arquejos finais de centenas de almas agonizantes

Assistir à queima dos livros foi uma experiência indescritível. O assovio das páginas se incinerando soava como os arquejos finais de centenas de almas agonizantes. Quanto mais queimávamos, mais hipnótico ficava — um espetáculo mesmerizante de páginas se contorcendo e fagulhas dançando no vazio.

Bradbury acreditava que desejávamos que o mundo ficasse assim. Que pedimos aos bombeiros que queimem livros. Que desejamos que o entretenimento substitua a leitura e o pensamento. Que votamos para que os sistemas políticos e econômicos nos deixem felizes em vez de criticamente informados. Ele diria que escolhemos entregar a nossa privacidade e liberdade nas mãos de empresas de tecnologia. Que decidimos confiar a nossa herança cultural e o nosso conhecimento a arquivos digitais. O maior exército de bombeiros vai ser irrelevante no mundo digital. Serão tão impotentes quanto bebês sem dentes perto daqueles que controlam uma internet consolidada. Como conseguiriam impedir uma pessoa com um laptop, escondida no porão da casa dos pais, de hackear milhares de anos de literatura, cultura e história coletiva da humanidade, e reescrever tudo… ou apenas apertar “delete”? 

E quem perceberia? [Tradução de Fernanda Diamant

Quem escreveu esse texto

Ramin Bahrani

Escritor e cineasta, adaptou Fahrenheit 451 para a HBO.

Matéria publicada na edição impressa #13 jul.2018 em junho de 2018.