As Cidades e As Coisas,

Pauliceia esfacelada

Como a recorrência de demolições e reconstruções transformou a cidade de São Paulo em uma somatória de fragmentos sem homogeneidade

01mar2022 - 03h51 | Edição #55

São Paulo reside no imaginário de muitos como uma cidade em obras, com entranhas de ruas à mostra e barulhos ensurdecedores. Essas situações, descritas muitas vezes como transtornos necessários, persiste em uma ideia recorrente de diversos escritores: uma cidade que se destrói para se reconstruir “mais moderna”. A ideia de arruinar para progredir encontrou uma metáfora potente nas histórias escritas sobre a cidade. Seria ela um palimpsesto, ou seja, um pergaminho que, de tempos em tempos, é raspado para que sobre ele sejam escritos novos textos.

Essa imagem foi aplicada a São Paulo primeiramente pela imprensa. De evocação poética, parece se prestar bem a justificar a recorrência de demolições promovidas por particulares e pelo próprio poder público. Analisando as transformações físicas ocorridas nas décadas de 30 e 40, mais do que uma cidade em substituição por outra (melhor), mais do que uma Pauliceia desvairada, o que se via era uma Pauliceia esfacelada.

Em São Paulo não existe homogeneidade formal: nem a cidade do século 19 se foi plenamente, nem a do século 20 se completou ou permanece inteiramente em nosso século. São Paulo é uma somatória de fragmentos: de tempos pregressos, de sistemas viários, de edifícios e de projetos políticos que ficaram pela cidade.

Pensar que esse esfacelamento não é apenas obra do acaso, mas também parte de um projeto de cidade é importante para que conheçamos os jogos de poder que se manifestam. Um plano urbano se torna tridimensional quando é implantado. Contudo, enquanto conhecimento intelectual, ele existe antes mesmo de sua instalação espacial. Como fruto de um período e de pensadores das cidades, constitui-se em algo material também.

A história do Plano de Avenidas é exemplar nesse aspecto. Produzido pela colaboração de membros da tecnocracia paulista, como os engenheiros-urbanistas João de Ulhôa Cintra e Francisco Prestes Maia, foi implantado em São Paulo a partir de meados da década de 30. Com implementações pontuais na administração do prefeito Fábio Prado (1934-38), veio a ser revisitado e implantado em grande medida por Prestes Maia quando este se tornou prefeito, em maio de 1938. Até 1945, quando deixou o comando da cidade, o prefeito urbanista tinha alterado a face da metrópole que se formava.

A ideia de arruinar para progredir encontrou uma metáfora potente nas histórias sobre São Paulo

A extensão e o impacto das obras de Prestes Maia na cidade são inegáveis. Visto já em sua época como “conhecedor atualizado das discussões mundiais sobre arquitetura e urbanismo”; “ótimo técnico”; “homem honesto”, ele foi persona fundamental para a implantação da cidade moderna.

A história do urbanismo moderno tem sido alvo de uma pergunta recorrente nos últimos anos: afinal, quem são e para onde foram as pessoas que a implantação da cidade moderna desalojou? Procuramos responder a essa pergunta nos últimos anos por meio de um projeto de pesquisa que rendeu frutos instigantes, dentre eles o curta-metragem Metrópole de véus.

O filme, produzido por mim, pelo cineasta Francisco Miguez e pelo arquiteto e urbanista Martim Passos, cruzou preocupações históricas com recursos audiovisuais contemporâneos, como um sobrevoo da cidade por um drone, de maneira a enfatizar o argumento da pesquisa: São Paulo é um múltiplo de cidades. Nela, há temporalidades que convivem, materializadas em edifícios datados de pelo menos um século, que ficaram ocultados pelos arranha-céus gigantescos que surgiram com o Plano de Avenidas.

Mulheres invisíveis

Notamos também como a metrópole que se gestava, entrosada com uma modernidade de costumes, oficialmente silenciava as mulheres. As que eram casadas eram tratadas como pessoas vinculadas ao marido. Nas centenas de peças desapropriatórias consultadas durante a pesquisa, ao lançarem os valores pagos como indenização pela demolição dos imóveis, os homens apareciam minuciosamente descritos, mas a seu lado, quando casados, figuravam as iniciais “s.m.”, o que indica: “sua mulher”.

A cidade, que em português é palavra feminina, repudiou a feminilidade. Além da possessividade, algo que descobrimos foi a batalha contra as casas de tolerância e os cortiços. Existentes ao redor do centro, objeto de expansão no Plano de Avenidas, os usos e os costumes da gente pobre e trabalhadora se tornavam incompatíveis com a metrópole almejada. Modernizar era implantar aquilo que se assentava sobre um dos tripés do urbanismo: a moralidade.

Prostitutas, pessoas pobres e enquadramentos visuais que descortinavam aspectos ainda rurais das então franjas da cidade deveriam desaparecer para dar lugar a bulevares, viadutos e arranha-céus. Em grande medida, São Paulo conseguiu reverter esses aspectos, em especial ao longo do grande anel viário que Prestes Maia construiu, e que chamou de Perímetro de Irradiação. Dali saíram raios de modernidade, calcados em veículos que circulam em avenidas radiais até hoje. Em outro sentido, os bulevares, os viadutos e os arranha-céus apenas esconderam um esfacelamento das antigas cidades, que ainda resistem e, por meio do voo do drone, nos mostram que São Paulo é um coletivo de ações.

Quem escreveu esse texto

Fernando Atique

Escreveu Arquitetura evanescente (Edusp).

Matéria publicada na edição impressa #55 em outubro de 2021.