As Cidades e As Coisas,

A destruição criativa do vale do Anhangabaú

Um século depois, nova reforma do centro de São Paulo repete imposição de modelos urbanísticos estrangeiros e indiferença a dinâmicas existentes

01out2020 - 01h00 | Edição #38 out.2020

Em Tristes trópicos, o antropólogo Claude Lévi-Strauss descreveu brevemente o vale do Anhangabaú em meados dos anos 1930, período em que viveu em São Paulo como parte do grupo de jovens intelectuais franceses que vieram ao país com a missão de fundar a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (USP): “A baixada é ocupada por um parque no gosto inglês: canteiros ornados de estátuas e quiosques, enquanto na vertical dos dois taludes se elevam os principais edifícios […] numa desordem imóvel. Esses edifícios em batalha evocam grandes rebanhos de mamíferos reunidos à tarde em torno de um ponto de água, por alguns instantes hesitantes e imóveis, […] a misturar temporariamente suas espécies antagônicas”.

Nessa paisagem entre bucólica e urbana — já àquela época um cartão-postal de São Paulo —, entre os edifícios em batalha e a desordem mencionados pelo antropólogo estavam o Theatro Municipal, a nova sede da Light e o antigo Hotel Esplanada, cada um deles inspirado em algum original europeu e até hoje importantes marcos arquitetônicos e simbólicos da região central da cidade. O ponto de água em torno do qual se encontravam era o ribeirão Anhangabaú, formado pelo encontro das águas dos rios Saracura, Bixiga e Itororó, um dos pontos basais para a formação da cidade e que, àquela época, já havia sido canalizado. E o parque “no gosto inglês” fora, na verdade, projetado por um francês, Joseph-Antoine Bouvard, arquiteto que remodelou a paisagem do centro de São Paulo no início do século 20.

No magnífico Orfeu extático na metrópole (Companhia das Letras, 1992), ao narrar as transformações velozes que ocorriam em São Paulo nos frementes anos 1920, o historiador Nicolau Sevcenko descreve Bouvard como “a sumidade internacional da época” que, tendo no currículo a reurbanização de parques e praças em Paris e Buenos Aires, foi incumbido do projeto de “desmatar, desarborizar, ajardinar e redecorar a embocadura do Anhangabaú”. A mudança apagou os últimos traços originais do vale e, conta o historiador, transformou suas vertentes selvagens “num panorama cenográfico dos mais elegantes, com toques de fino décor europeu”. 

Para realizar as reformas no centro, os pobres foram empurrados para áreas menos nobres da cidade 

A novidade, porém, não agradou a todos. Sevcenko recupera relatos de cronistas da época, indignados com o desapreço pela memória na sanha transformadora do tal “especialista europeu em parques” que, ademais, custara a vida de um conjunto de árvores majestosas “que os mais opulentos parques do mundo invejariam”.

O amplo conjunto de obras no centro da cidade nesse período — um investimento milionário viabilizado pelos capitais excedentes advindos primeiro do café, depois da indústria paulista — moldava não apenas uma nova paisagem urbana, mas um novo produto cultural. Os interesses das elites convergiam com os da prefeitura na meta de construir um centro moderno e burguês para São Paulo.

Esse projeto começou a se materializar nas primeiras décadas do século 20, primeiro com intervenções arquitetônicas e urbanísticas que copiavam modelos europeus e buscavam promover uma espécie de domesticação dos espaços públicos e, em seguida, com mudanças nas moradias populares, casebres e cortiços da região. Para que a nova e custosa cenografia do centro paulistano cosmopolita se realizasse, os pobres foram empurrados para áreas menos nobres da cidade, em um processo de banimento social e também racial. 

Passado um século, o debate que emergiu junto às imagens do Anhangabaú após a mais recente reforma soa incrivelmente familiar. Mais uma vez o projeto de um especialista europeu em parques inspirou o remodelamento radical de um espaço público caro aos paulistanos, à custas da memória do lugar e de alguns espécimes arbóreos, e a despeito dos usos e dinâmicas que já existiam ali. E essa não é a primeira, mas a terceira grande obra no vale do Anhangabaú desde o projeto de Bouvard. Partindo da reforma do vale no início do século 20 até chegar à reforma do mesmo Anhangabaú no início do século 21, é possível contar uma história da cidade de São Paulo, da sua fabricação como cidade moderna e dos diferentes ciclos de destruição criativa que a acompanharam.
 
Histórico de conflitos

Foi nos anos 1940 que o elegante parque foi substituído pelo eixo viário norte-sul, dentro do Plano de Avenidas. Desenhado pelo engenheiro Prestes Maia, o ambicioso plano urbanístico refletia a difusão no Brasil das propostas do urbanismo norte-americano e determinou um completo redesenho da circulação na cidade, priorizando o transporte automotivo individual. As transformações incluíram o alargamento de ruas existentes, o rearranjo das vias radiais que dariam acesso ao centro e a criação de vias perimetrais, que formariam grandes círculos ao redor do anel central. Tratava-se de um conjunto nada modesto de obras que motivou uma onda de demolições no centro antigo. 

Mas, com o contínuo crescimento do volume de automóveis na cidade, o desenho original do projeto logo já não era suficiente. Foi então que ao Plano de Avenidas foram acrescidas as avenidas diametrais, que formariam o “sistema Y”, que atravessa o centro no sentido norte-sul. Com a urbanização da região já avançada, a solução adotada foi construir essas novas avenidas sobre os rios existentes — escolha projetual que se beneficiava dos caminhos já traçados pelas águas, que demarcavam suas adjacências imediatas como territórios populares, desprezados pelo capital imobiliário, o que também incorreu em economias da prefeitura com as desapropriações necessárias às obras. 

Foi assim que foram construídas a avenida 9 de Julho sobre o rio Saracura, a avenida 23 de Maio sobre o rio Itororó e a avenida Prestes Maia sobre o rio Anhangabaú. Obras que se somavam a uma série de escolhas urbanísticas realizadas nas primeiras décadas do século 20 e que, ao retificar, canalizar, tamponar ou soterrar os inúmeros rios de São Paulo, garantiriam que a relação entre a cidade e suas águas seria para sempre conflituosa. Escolhas que, ademais, também refletiam o desinteresse em considerar as condições preexistentes no território perante o imperativo da modernização. 

Ao soterrarem inúmeros rios, as obras garantiram que a relação entre a cidade e suas águas seria para sempre conflituosa

Nos anos 1980, esse eixo viário cruzando o centro da cidade já havia se tornado inviável, com carros em alta velocidade cortando uma área intensamente utilizada por pedestres e com acidentes, fumaça e barulho. A prefeitura de São Paulo decidiu que era hora de um novo projeto e propôs, junto com o Instituto dos Arquitetos do Brasil (iab), um concurso público para a remodelação do Vale do Anhangabaú. Entre quase cem inscritos, o projeto vencedor era assinado pelo arquiteto Jorge Wilheim com paisagismo de Rosa Kliass e Jamil Kfouri. Foi implementado ao longo dos anos seguintes, com enterramento do tráfego por meio de um túnel, o que trouxe de volta para o nível da rua uma ampla área exclusiva para pedestres e voltada para o lazer, retomando algumas características do parque do início do século. Mas, apesar da qualidade do projeto, sua implementação coincidiu com a intensificação do declínio do centro, que perdia investimentos e população à medida que as elites passavam a buscar novos bairros exclusivos para viver. Até começar a ser desmantelado no ano passado, o Anhangabaú sofreu continuamente a ausência de manutenção e zeladoria. Assim como o centro como um todo, ganhou uma ocupação predominantemente popular, com forte presença de população de rua. 

Fora do lugar

Chegamos então aos dias atuais e ao novo vale do Anhangabaú, prestes a ser inaugurado. O projeto partiu de um diagnóstico que considerou a estrutura do vale obsoleta e subutilizada. Doado por um banco em 2013, foi elaborado a partir de uma consultoria do escritório de arquitetura do dinamarquês Jan Gehl, sumidade internacional para projetos em espaços públicos, o “especialista europeu em parques” da nossa época. Autor do cultuado Cidades para pessoas, Gehl se alinha ao pensamento de Jane Jacobs, autora do também cultuado Morte e vida das grandes cidades, ao advogar uma cidade em escala humana e de fachadas ativas, com respeito à memória e que priorize pedestres sobre automóveis. Apesar da consultoria inicial, o projeto foi formulado pela sp-Urbanismo e pelo escritório de arquitetura Biselli Katchborian.

Sem entrar no mérito do escandaloso custo de implementação e da igualmente escandalosa ausência de participação democrática na tomada de decisão sobre ele, o projeto decorrente fez, mais uma vez, tábula rasa do Anhangabaú: o tradicional piso de pedras portuguesas foi trocado por um insípido concreto cinza; os canteiros ondulados foram reduzidos e retificados; árvores foram retiradas com a promessa de replantio; os antigos postes de luz de tungstênio foram substituídos por imensos postes retos e pretos, alinhados como soldados em um cortejo fúnebre. A tal da escala humana é prometida pela instalação de quiosques comerciais e mobiliário urbano. Olhando as obras de cima, do viaduto do Chá, é difícil imaginar um projeto que reflita tão pouco suas próprias intenções. 

Por fim, a grande novidade é a inclusão de 850 jatos d’água, que tanto pretendem fazer memória ao rio soterrado como conformam um espaço de lazer. Bonita nos renders, a proposta parece ignorar a realidade das fontes e chafarizes do entorno, em sua maioria desativados, cercados por tapumes ou placas de acrílico. Publicizada no auge da crise hídrica de 2015, a proposta parecia delirante e sintetizava a transposição para o planejamento urbano daquilo que o crítico literário Roberto Schwarz chamou de “as ideias fora de lugar”. Tudo isso em um momento em que a crescente gentrificação do centro ameaça a ocupação popular estabelecida nas décadas anteriores.

De volta aos Tristes trópicos, sobre as cidades no Novo Mundo — Nova York, Chicago e São Paulo são os primeiros exemplos —, Lévi-Strauss comenta que “não são apenas recém-construídas: são construídas para se renovar com a mesma rapidez com que foram erguidas, isto é, mal”. Para recorrer a um pensamento autenticamente brasileiro, entendimento semelhante é sintetizado em duas brilhantes letras de Caetano Veloso: em “Fora da ordem”, “Aqui tudo parece/ Que era ainda construção/ E já é ruína”, e, mais explicitamente, em “Maria Bethânia”, “Everybody knows that our cities/ were built to be destroyed” [todos sabem que nossas cidades/ foram construídas para serem destruídas]. 

Se a tradição do último século for mantida, dentro de trinta ou quarenta anos esse vale do Anhangabaú ao gosto dinamarquês será novamente tratado como uma tela em branco na qual serão aplicados os mais novos ideários urbanísticos. Resta esperar que, dessa vez, eles sejam um pouco menos colonizados.

Quem escreveu esse texto

Luanda Vannuchi

Geógrafa, doutora em arquitetura e urbanismo na Universidade de São Paulo.

Matéria publicada na edição impressa #38 out.2020 em setembro de 2020.