O cantor e compositor Caetano Veloso em 1972 (Fundo Correio da Manhã/Arquivo Nacional/Reprodução)

Música,

Evangelho segundo Mateus

Em livro com cara de romance, escritora carioca investiga o mais cultuado disco de Caetano Veloso

29out2026

Se Caetano Veloso é o messias dos descolados e Transa, a obra que marca sua ressurreição no exílio londrino, então acaba de chegar o livro que melhor detalha essa paixão. Um verdadeiro evangelho para os fiéis da seita transante. E não poderia sair de mãos mais adequadas. A escritora carioca Mateus Baldi é uma emocionada — no jargão jovem, “emocionado” é todo aquele que não hesita em demonstrar vivamente sua empolgação frente a um fato ou evento, em vez de adotar uma postura sóbria ou comedida.

“A obra do Caetano é enorme e tem discos para todos os gostos, mas Transa ganha lugar especial pela força que traz consigo por ter sido feito num exílio sofrido, com uma banda de músicos extraordinários e num período rico da música brasileira. Mas é especial sobretudo pelas canções, que trazem uma mistura interessantíssima de inglês e português, samba, rock’n’roll, citação de reggae e música de capoeira, formando um caldo que acho irresistível”, responde quando perguntada por que o álbum tem tanto apelo junto às novas gerações.

Jornalista e mestra em estudos literários, com a dissertação que originou o título da coleção O Livro do Disco, Baldi é autora de Os anos de vidro (Nós), vencedor do prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de 2025. A proximidade com a literatura traz à investigação sobre o cultuado disco um peculiar acento narrativo, com personagens profundos, cenários bem delineados, histórias saborosas e reconstituição de diálogos-chave da música brasileira, que dão ao volume de duzentas páginas uma cara de romance. Ao encerrar a leitura, já nos perguntamos quando veremos a adaptação audiovisual (este repórter também joga no time dos emocionados).

Chama a atenção o amplo conhecimento musical de Baldi, bem como o dom de recriar passagens históricas e usar a palavra para bordar fragmentos sonoros. Como na descrição da segunda parte de “Mora na filosofia”:

A bateria marca a entrada no refrão e o ritmo volta ao samba, lento, com os contrastes espoucando, Jards dedilha, Áureo batuca no aro e faz viradas econômicas, o baixo pulsa, Caetano e as vogais. Na repetição ele sobe, e ‘Show me from behind the wall’ assertivo de ‘You don’t know me’ encontra seu par, e o refrão é repetido até Caetano emendar falsestes […].

Além de descrever em pormenores os enfumaçados ensaios e sessões de gravação, o livro se aproxima da forma ensaio ao refletir sobre o sentido último das canções.

Chama a atenção o dom de Baldi em recriar passagens e usar a palavra para bordar fragmentos sonoros

‘Nine out of ten’ é a canção da fraternidade em espírito, algo que depois de ‘It’s a long way’ vai retomar com seus ‘hey, brothers’ — como se tudo que os Beatles pregava tivesse sido remixado. Caetano sabe que o sonho acabou e ‘one day I must die’, mas […] está ‘alive and vivo muito vivo vivo vivo’, no Electric Cinema ou na televisão — e pensemos na catarse de poder rir de Monty Python em Londres, no início dos 1970.

Com insights como esse, Baldi demonstra como Transa, mais que um álbum, é uma via-sacra que leva a um tempo e um mundo perdidos.

Polissemia

Além de “Mora”, há capítulos dedicados às canções “You don’t know me”, “Triste Bahia”, “It’s a long way”, “Neolithic man” e “Nostalgia”, ao mesmo tempo que se narram a composição, a gravação e a recepção de cada faixa, em contraponto a mergulhos na miríade de referências a perpassar a cabeça caetânica de 1972, justificando a polissemia do título — que vai desde comércio, ato sexual, affair, afinidade, até rolê e, por que não, transe místico ou espiritual. O termo estava na boca do povo e, mesmo de Londres, Caetano demonstrava rara capacidade de se conectar ao Zeitgeist brasileiro, entre as dunas do delírio dos desbundados e o medo da tortura e da censura do regime militar. O astro, porém, não deu entrevista a Baldi.

“É difícil chegar ao Caetano, e eu tinha muita vontade de ouvir pessoas que estiveram em Transa ou ao seu redor”, explica a escritora. “Assim cheguei a Jards Macalé, Tutty Moreno, Péricles Cavalcanti e Angela Ro Ro, que foram supergenerosos em compartilhar suas memórias.” Além de forte apoio na pesquisa da historiadora Márcia Fráguas, autora de It’s a long way: o exílio em Caetano Veloso (Garota FM Books, 2024), que detalha o rico período em que o baiano teve a companhia de artistas brasileiros na Inglaterra, Baldi cita as publicações de Caetano e ensaios acadêmicos, com destaque para Lançar mundos no mundo (Fósforo, 2022), de Guilherme Wisnik.

Também organizadora de Vivo muito vivo: 15 contos inspirados nas canções de Caetano Veloso (José Olympio, 2022), Baldi nutre certa obsessão pelo leonino de Santo Amaro da Purificação. “Ele tem uma obra incontornável, sobretudo para pensar o Brasil. É um intérprete do país, e isso aparece com força nas canções. Há um interesse natural pelo que diz de nossos tempos, porque vem dizendo há sessenta anos”, comenta a autora, que coloca o álbum na original categoria de “disco-mapa”.

Bem mais do que mera coleção de grandes canções, o “discobjeto” Transa, com o design concretista de Álvaro Guimarães e Aldo Luiz, se insere na rara linhagem de álbuns conceituais, uma genealogia literária da música pop surgida em obras como Os afro-sambas (1966), de Vinicius de Moraes e Baden Powell, e Sgt. Pepper’s (1967), dos Beatles, seguindo por Ziggy Stardust, de David Bowie, e Clube da esquina, de Milton Nascimento e Lô Borges (ambos de 1972, mesmo ano de Transa), para chegar a gemas pop como Da lama ao caos (1994), de Chico Science & Nação Zumbi, OK Computer (1997), de Radiohead, e Dirty Computer (2018), de Janelle Monáe. Aliando erudição acadêmica, talento literário e linguagem fluida, Baldi topou com algumas surpresas. “Descobri que aspectos das letras de Transa já estavam em textos que o Caetano produziu antes e durante o exílio”, afirma.

Como se isso não bastasse, você finalmente entenderá o que quer dizer o verso bizarro “que tem vovó pelanca só”, de “Neolithic man”. À moda do bem-te-vi, cujo canto nomeia o pássaro, é outro jeito de falar do sabiá-da-mata, ou sabiá baiano. Amém?

Quem escreveu esse texto

Ronaldo Bressane

É escritor, jornalista, professor de escrita, editor da revista de literatura e artes visuais Morel e autor de Escalpo (Reformatório).

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