A advogada e professora paulistana Luciana Temer (Divulgação)

Educação,

Uma realidade estarrecedora

Luciana Temer aposta na indignação como motor de mudança do cenário de violência sexual contra crianças e adolescentes

16out2026 • Atualizado em: 15out2026

Há um apelo bastante comum entre adultos: pedimos que crianças e adolescentes confiem em nós e nos contem o que se passa com eles. Mas a passagem entre a oferta de confidência e o relato em si não é simples ou direta, como nos mostra Temporário 12, um belíssimo filme de 2013.

O longa estadunidense tem o nome de um lar provisório para menores de idade. Ali, uma garota de quinze anos mostra à supervisora Grace a história de um polvo cujos tentáculos são devorados pouco a pouco por um tubarão a quem considera um amigo. O desenho de Jayden, a adolescente, ajuda Grace a identificar abusos sexuais cometidos sistematicamente por um familiar bem próximo. Grace denuncia a situação ao diretor da instituição, que a ignora e não notifica as autoridades. Para ele, não é papel de Grace “interpretar lágrimas” ou concluir coisas a partir de um desenho infantil.

Grace é a adulta que, ao levar a denúncia a sério, quebra um circuito nefasto, infelizmente muito comum também na realidade brasileira, em que 63% dos estupros de vulneráveis são cometidos por familiares. O dado estarrecedor é realçado pela advogada Luciana Temer no desconcertante Educar para proteger. Realçado porque, no livro, há pessoas, dores e repetições por trás dos números. Já o desconcerto vem do emudecimento. “Por que ainda não falamos disso?” — aqui ressoa a pergunta que mobiliza a autora, também à frente do Instituto Liberta, organização fundada por ela em 2017 para combater a violência sexual contra crianças e adolescentes.

Falar é algo fundante e caro à psicanálise, mas seu efeito só se dá com o par dialético da escuta. Então, se dizemos que é preciso confiar, é igualmente necessário prover espaço para a validação do que é relatado.

Ação

Antes da denúncia temos a prevenção, que é mais eficaz e está ao nosso alcance, argumenta Temer, professora no curso de direito na PUC-SP. Basta a sociedade tomar para si essa tarefa, distribuindo informações e dando urgência ao assunto, mesmo sendo indigesto e revoltante.

A autora traz as dinâmicas de poder que tumultuam o reconhecimento de meninas e meninos como vítimas

A autora aposta no constrangimento social como estímulo às medidas. “Um problema dessa dimensão não se resolve sem políticas públicas, e políticas públicas se constroem com pressão social”, escreve. A indignação como motor de mudança — a recusa da inação — é uma importante marca do livro. Ao mesmo tempo que nasce das vivências de Temer no Instituto Liberta e também como delegada de polícia, secretária estadual e municipal, Educar para proteger transmite um imperativo de transformação social, ou seja, aponta para a construção de futuro.

Para tanto, é preciso confrontar uma realidade degradante e difícil de testemunhar. A gravidade vem carregada pela palavra — abusos sexuais de crianças e adolescentes são, tecnicamente, estupro de vulnerável. A autora ressalta que nesse enquadramento entra qualquer ato sexual com meninas e meninos de menos de catorze anos, mesmo que não tenha havido penetração. A diferença na nomeação impacta decisões judiciais, com juízes e tribunais se recusando a reconhecer abusos como estupro e atribuindo penas menores.

Ambiguidade

A exploração sexual é outra recorrência tematizada por Temer, que complexifica o debate ao trazer as dinâmicas de poder e assujeitamento que tumultuam o reconhecimento de meninas e meninos como vítimas. O acesso a bens materiais e o teto oferecido revelam as artimanhas da lógica de submissão e ambiguidade presente em relações tão cruéis e assimétricas.

A esse cenário acrescenta-se a violência contra crianças e adolescentes no ambiente virtual. Convém frisar que esta é financeiramente impulsionada e, portanto, é lucrativa sob a lógica algorítmica de plataformas que não se responsabilizam, como bem demonstrou o relatório “Conteúdos extremos nas redes sociais: atrocidades no Discord”, produzido por Letícia Oliveira e Tatiana Azevedo.

Se informações assim parecem terríveis e pouco convidativas, é porque nomeiam o chocante da experiência. É penoso saber; pior ainda é negligenciar o que acontece. O livro inspira algo poderoso, que é a coletivização do possível (um mais um, e mais tantos, fazem a diferença). Na prática, trata-se de zelar pelos instrumentos de proteção, como o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital, instituído pela Lei nº 15.211/2025, para proteger crianças e adolescentes no ambiente digital), e defender a educação sexual.

Esta última era uma antiga bandeira de Freud, que recomendava que cuidadores e escola respondessem com honestidade e sensibilidade às perguntas das crianças sobre a sexualidade dos adultos. “O que queremos alcançar quando privamos as crianças desses esclarecimentos sobre a vida sexual humana?”, escreve o psicanalista austríaco em uma carta aberta de 1907, dando a letra: o desconhecimento pode produzir sofrimento e vulnerabilização.

Cá estamos em 2026, no entanto, com professores acuados e pais desorientados, amedrontados ou impedidos de ensinar sobre gênero, diversidade sexual e corpo humano em nome da suposta defesa dos valores da família — para lembrar: é no arranjo familiar que ocorre a maior parte dos estupros. Como garantir educação sexual se há uma força política expressiva e nada moderada (leia-se extrema direita) que condena o acesso à informação e relativiza ou desmente as consequências da falta dela?

Esse não é um argumento de Educar para proteger, mas creio que uma leitura estrutural, que evidencie racialização, política e precarização do trabalho, possa amplificar a imprescindível missão proposta por Luciana Temer. Afinal, não estamos falando de monstros ou de condutas individuais. Estejamos advertidos do que se vê na série Os testamentos, adaptação do romance distópico de Margaret Atwood: em face da revelação de que o homem de confiança da sociedade é um abusador de adolescentes, o horror trazido pela denúncia vem a partir da “mancha” causada na “pureza” das meninas treinadas para ser esposas tradicionais. Um horror, portanto, que em nada perturba a estrutura produtora de abusos, já que essas garotas são educadas para a submissão à violência sexual de seus maridos, conforme os valores do regime teocrático, totalitário e de extrema direita em que vivem.

Quem escreveu esse texto

Amanda Mont’Alvão Veloso

Psicanalista e pesquisadora, escreveu Psicanálise e contradição (Dialética).

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