Repertório 451 MHz,
A luta continua
Amelinha Teles e Camilo Vannuchi conversam sobre a batalha pela democracia, o direito à memória e o papel das mulheres na resistência à ditadura militar
01out2026 • Atualizado em: 02out2026Está no ar o 215º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Este programa, que vai ao ar na véspera de mais uma eleição decisiva para a democracia brasileira, é uma homenagem à escritora e ativista Amelinha Teles, morta em 15 de setembro. Ela e o jornalista e escritor Camilo Vannuchi falam sobre a luta para que a história da ditadura militar não seja apagada.
A conversa, que também trata do direito à memória e do papel das mulheres na resistência ao regime militar, aconteceu durante A Feira do Livro 2026 com mediação da colunista da Quatro Cinco Um Juliana Borges. O episódio foi realizado com apoio da Lei Rouanet.
Também educadora, jornalista e feminista, Maria Amélia de Almeida Teles nasceu em Contagem (MG) e morreu aos 81 anos. Militante do PCdoB, foi presa em 1972 e torturada no DOI-Codi de São Paulo. Em 2008, depois que a família dela moveu uma ação judicial contra o major do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra, ele se tornou o primeiro agente da ditadura a ser declarado torturador.
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Entre os livros publicados por Teles estão Breve história do feminismo no Brasil (Brasiliense, 1993), O que são os direitos humanos das mulheres (Brasiliense, 2006) e Contos da cela três: memórias de uma presa política na ditadura (Ema, 2024), escrito originalmente na prisão, em 1973.
Já o paulistano Vannuchi é autor de diversas obras sobre a ditadura militar e a redemocratização, como Vala de Perus, uma biografia (Alameda, 2020), que narra a descoberta de um ossário utilizado para esconder corpos de vítimas da repressão, e Eu só disse meu nome (Discurso Direto, 2024), sobre a história do primo Alexandre Vannucchi Leme, estudante da USP torturado e morto em 1973 pela ditadura. Pela mesma editora, lançou em 2026 Nunca mais: os bastidores da maior denúncia contra a tortura já feita no Brasil, que reconstitui a operação secreta de advogados, religiosos e pesquisadores para copiar e analisar 707 processos do Superior Tribunal Militar.
Mentiras da ditadura
No episódio, Teles conta que aprendeu a importância de registrar a história durante a própria ditadura, ao perceber as mentiras do regime militar. Ela lembra ter sido obrigada a ler uma manchete de jornal que apresentava um companheiro assassinado pelos militares como um “terrorista morto em tiroteio”.
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“A ditadura mentiu o tempo todo para o povo brasileiro. Quantas versões falsas tem da história do Brasil?”, diz. Teles ressalta que lembrar dos crimes da ditadura é condição para consolidar a democracia. “A minha vivência política me mostra o seguinte: nós estamos fazendo história, mas temos que registrar e estudar a história do Brasil.”
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Vannuchi explica que decidiu aprofundar seu trabalho com a memória e a verdade sobre o regime depois do impeachment de Dilma Rousseff em 2016. “Cresci achando que a democracia estava consolidada no Brasil”, diz, acrescentando que se espanta com os movimentos extremistas de direita nos dias atuais.
“De repente, a gente teve um golpe de Estado, civil, parlamentar, midiático [o impeachment de 2016] e o começo de um processo de ascensão de grupos políticos que tinham como líder uma pessoa que dizia na televisão que era a favor da tortura”, afirma, em referência ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
Mulheres e democracia
Ao responder uma pergunta de Juliana Borges sobre críticas ao movimento feminista, muitas vezes chamado de “identitário”, Amelinha Teles lembra que as mulheres são desiguais entre si — por raça, classe e orientação sexual. No entanto, elas se aproximam devido à posição subalterna que historicamente ocuparam na sociedade.
“A nossa democracia só vai ser alcançada, de fato, com as mulheres. As mulheres são mais oprimidas, e não é por acaso que elas participaram da luta contra a ditadura”, diz Teles.
Ela cita companheiras como Iara Iavelberg, Ísis Dias de Oliveira, Aurora Nascimento Furtado e Dinalva Teixeira, e conta a história de Sônia Maria de Moraes Angel Jones, morta em 1973. Vannuchi recorda também Eny Raimundo Moreira, presidente-fundadora do Comitê Brasileiro pela Anistia, e uma das idealizadoras do movimento Brasil: Nunca Mais.

Ele também ressalta que a busca por verdade e justiça foi liderada por mulheres como Eunice Paiva, Clarice Herzog e muitas outras mães, companheiras e irmãs de mortos e desaparecidos. Foram elas, diz o jornalista, que botaram “o dedo na cara dos militares”. Outro exemplo é o da estilista Zuzu Angel, cuja biografia foi tema do 28º episódio do 451 MHz.
Escrever para lembrar
Amelinha Teles conta que, presa no Dops, fez amizade com uma lagartixa a quem chamou de “Lagartixa Linguaruda de Nascimento”. Em conversas imaginárias, o bicho estimulou Teles a escrever para os filhos, então com 4 e 5 anos. “Eu escrevi bem pequenininho para poder caber no meu pensamento. Eu tinha mais pensamento do que papel”, brinca.
Os textos foram escritos em papel de cigarro e acabaram apreendidos numa revista da cela. Décadas depois, ela os reescreveu de memória para Contos da cela três.

A partir do episódio, Vannuchi conta como a resistência também exigiu documentar em segredo. Os processos do Superior Tribunal Militar, por exemplo, eram emprestados por 24 horas, copiados e lidos por uma equipe clandestina que temia o desaparecimento de provas contra os torturadores.
O trabalho resultou, em 1985, no livro Brasil: nunca mais, que desmontou a versão do governo militar que negava a prática disseminada da tortura. “Nós convivemos com a narrativa de que a tortura nunca foi política de Estado, que foram casos isolados. [Foram] 242 locais no Brasil equipados com cadeira do dragão, pimentinha, sala de tortura, 444 torturadores, todos casos isolados”, ironiza.
Livro Marcador
No quadro sobre livros marcantes na vida de escritores e personalidades da cultura, o episódio traz a sugestão de Roberta Martinelli, jornalista, radialista e apresentadora do Cultura Livre, da TV Cultura. Ela recomenda Batida só (Todavia, 2025), de Giovana Madalosso.

“Eu sou uma pessoa com pouca fé, pra não dizer nenhuma fé, e o Batida só fez eu repensar o que é a fé e eu me tornei, agora eu digo que eu sou uma pessoa de fé porque, assim como a Sara, que é uma das personagens, eu acredito muito nas pessoas. Ela acredita em tudo, mas eu acredito nas pessoas. Então eu acho que o que eu pensava da fé estava um pouco errado. Talvez eu seja uma pessoa que tenha muita fé”, diz.
O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Convidados: Ana Lima Cecilio e Paulo Roberto Pires
Coordenação: Beatriz Muylaert
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Roteiro: Beatriz Souza e Beatriz Muylaert
Pesquisa e reportagem: Gabriela Caputo e Mariana Moreira
Imagem: Estúdio Soapbox
Edição e mixagem: Mariana Franco
Arte: Isadora Bertholdo
Cenografia: Giovanna Farah e Yolanda Frutuoso
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]
