A crítica e curadora Aracy Amaral (Andre Seiti/Itaú Cultural/Divulgação)

Arte, Memória,

O legado de Aracy Amaral

A curadora e crítica, morta na última terça-feira, pensou a arte em contexto sul-americano e como gesto de responsabilidade social

17set2026

Professora, crítica, curadora, pesquisadora. O rigor e os méritos de Aracy Amaral não param de ser enumerados desde a notícia de sua morte na manhã de terça-feira (15), aos 96 anos: sua importância para os estudos do modernismo brasileiro, em especial a partir da obra de Tarsila do Amaral; seu pioneirismo na gestão de instituições, tendo sido a primeira mulher a dirigir a Pinacoteca (1975-1979) e o MAC-USP (1982-1986); e a inteireza de caráter que imprimiu em centenas de artigos, livros e exposições, sem medo de tomar posições controversas ou arriscadas.

Mais do que produzir conhecimento, Aracy participou ativamente da formação de um campo e de uma profissão. Lançado em dezembro de 2025, A gênese da curadoria no Brasil (Propágulo), da pesquisadora Cristiana Tejo, enfatiza como, muito antes de a palavra “curador” ganhar prestígio, o nome de Aracy estava entre os que transformaram a forma de pensar e apresentar a arte no Brasil na segunda metade do século 20. Ao tratar catalogação, conservação e curadoria como trabalho intelectual, Aracy confirmou a arte brasileira como objeto de estudo, numa época em que criticar arte no Brasil ainda era, em grande medida, expressão de gosto travestida de autoridade.

Formada em jornalismo pela PUC-SP, ela partiu para estudos na École du Louvre, em Paris. De volta ao Brasil, defendeu um mestrado sobre as artes plásticas na Semana de 22 e um doutorado sobre Tarsila do Amaral — duas pesquisas que foram editadas em livros referenciais para qualquer pesquisador da área: Artes plásticas na Semana de 22 e Tarsila: sua obra e seu tempo.

Ao longo de mais de seis décadas de atuação, desenvolveu um trânsito pela universidade, imprensa, mercado editorial e outras instituições, produzindo artigos sobre arte para os mais diversos veículos, com uma pesquisa incansável de esmiuçar acervos, documentos e outras fontes primárias.

Ao longo de mais de seis décadas de atuação, Aracy Amaral transitou por diversas instituições

Um aspecto que merece destaque é sua dedicação sistemática e persistente para inserir a história da arte brasileira dentro de uma perspectiva mais ampla da América Latina.

“Historicamente, o Brasil sempre foi alheio ao que se passa no contexto cultural de países latino-americanos. A América Latina dialoga entre si, mas o Brasil não dialoga com a América Latina. Isso é um problema”, sintetizou dessa e de diferentes formas em ensaios e entrevistas. “Será exclusivamente por causa da diferença da língua? Ou o Brasil, por julgar-se um gigante esplêndido, não se interessa e dá as costas à região, buscando ficar de frente para a Europa e os Estados Unidos?”, disse em entrevista à revista Pesquisa Fapesp, em 2021.

(André Seiti/Itaú Cultural/Divulgação)

Em 1975, com a América Latina atravessada por regimes autoritários, participou do famoso Simpósio de Austin, encontro sobre arte e literatura latino-americanas realizado pela Universidade do Texas, que reuniu escritores, críticos, historiadores e artistas de variados países do continente: Octavio Paz (México), Frederico Morais (Brasil), Juan Acha (Peru), entre outros. Jovem pesquisadora à época, Aracy não só esteve presente no encontro como levou de lá uma amizade e um diálogo intensivo com a crítica argentina Marta Traba, que mereceriam um livro. 

A articulação de uma rede de artistas e intelectuais e a constituição de uma biblioteca pessoal monumental em torno da arte latino-americana — doada em 2022 ao mac-usp — partiam da ideia de que a arte brasileira só fazia sentido se pensada em contexto. Foi esse movimento que, décadas depois, levou Aracy a curar a Trienal do Chile (2009) e a Bienal do Mercosul (2011).

Crítica social

A crítica entendida como gesto de responsabilidade social está presente em sua obra e se fez sentir ao longo das mostras que concebeu: da primeira retrospectiva formal de Tarsila, em 1969, a exposições sobre  concretismo e videoarte, passando pelo emblemático 34o Panorama do mam (2015), quando propôs diálogos entre arte contemporânea e arte pré-histórica, e por seu engajamento no Rumos, programa do Itaú Cultural para o mapeamento de jovens artistas.

Até o último momento, Aracy continuou acompanhando, com interesse e vivacidade, a cena da arte brasileira que ajudou a formatar nas últimas décadas. Nas vernissagens, era comum vê-la chegar com sua bengala, acompanhada por amigos e ex-alunos que faziam questão de garantir seu transporte e conforto. Era uma sumidade, dessas que cada geração conta nos dedos.

Ficam as boas histórias — que começam a aparecer no depoimento de críticos e curadores das diferentes gerações — e seu acervo pessoal, alocado no ieb-usp, fonte incontornável  para a pesquisa sobre a história da arte e da cultura.  

Quem escreveu esse texto

Gabriela Longman

Curadora, editora e jornalista, é mestre em arte e doutora em literatura.