A crítica e ensaísta argentina Beatriz Sarlo em Cambridge (Acervo da autora/Divulgação)

Memória,

Encarar o desconhecido

Em memórias, Beatriz Sarlo enfatiza sua preferência pelo dissenso e pela lógica do não entender como oportunidade de expansão

26ago2026

Crítica cultural e analista política das mais importantes no cenário latino-americano das últimas décadas, a argentina Beatriz Sarlo (1942-2024) defende para si, em suas memórias lançadas postumamente, uma não convencionalidade que é comprovada por seus textos, ensaios e livros.

Com a perspectiva ampla da maturidade, em Não entender ela seleciona cenas que enfatizam sua preferência pelo conflito, pelo dissenso, pela contracorrente. Por vezes, sobretudo nos momentos em que fala da infância, essa ideia de preferência é inadequada: a autora parece impressionada pela criança que foi, intransigente e caprichosa muito antes de saber que esses seriam traços definidores de seu caráter e de sua postura diante do mundo.

A tentativa dos parentes de colocá-la nos eixos é evocada por meio de algumas fórmulas reiteradas ao longo do relato: “Eu ‘bancava a moderna’, e eles desejavam conter esse impulso ou essa pretensão, seja lá como se chame o meu desejo”. Outras aparecem: “não venha bancar a intelectual”; “não pense que você pode fazer o que quiser”. Contra essa última, Sarlo escreve que direcionou sua “declaração de independência”.

Beatriz Sarlo criança com uma de suas tias e provavelmente uma prima ou uma amiga (Acervo da autora/Divulgação)

As fórmulas ajudam a delimitar os personagens e registram, literariamente, o eco dessas vozes do passado ao longo da vida, tópico quase obrigatório nesse gênero literário.

Para desacreditar meu pedantismo precoce me diziam em casa: ‘Não pense que você nasceu sabendo’. A indicação era desnecessária porque eu sabia que não tinha nascido sabendo e sim ignorando tudo, e por isso estava preparada para dedicar o tempo que fosse preciso a todo aquele desconhecido.

Na escola, diziam à mãe: “a menina é inteligente, mas insuportável”. Diante disso, a “autoridade escolar” ouviu algo que a mãe “repetiria para mim até eu fazer dezessete anos e sair de casa: ‘Tem que botar essa menina para esfregar o chão e ver se baixa aquela crista’”.

O modo como Sarlo organiza suas memórias, como era de se esperar, não é tradicional. Ainda que a ordem cronológica seja mantida, os saltos são flagrantes — as velozes duzentas páginas atestam, indiretamente, a clara tendência da autora à contenção da autoexposição. Mais do que a exclusão de longos períodos da vida no relato, chama atenção a insistência analítica, por vezes quase teórica, de Sarlo na retomada de suas experiências.

A ética do trabalho explica tanto o pendor analítico de Sarlo quanto a intensidade de suas relações

Ao lembrar como a casa da família, projetada em 1940 por um arquiteto recém-formado, havia sido presente de casamento de uma tia para sua mãe, a mesma tia que havia trazido postais da sua única viagem à Europa, Sarlo afirma que tal conjunção não é uma “simples coincidência”, mas “um fato denso com várias camadas de significado”.

Esses fatos densos abundam na vida da autora, e sua resposta padrão é sempre a de dissecar essas camadas, questionando a superficialidade das respostas alheias: “construo frases agressivas até quando estou elogiando”, resume. “Acredito nas agressões”, continua Sarlo, combinando sua intransigência e sua insistência analítica, pois as agressões lhe parecem “um signo mais confiável de reconhecimento e, sobretudo, de sinceridade”, uma vez que o “entusiasmo pode cegar” e a hipérbole se aproxima perigosamente do ridículo.

Nada disso impede que Sarlo se relacione com outras pessoas. Pelo contrário, deixa os momentos de consonância mais poderosos e os de dissonância mais intensos. Sua “mestra da ironia agressiva e da ironia sentimental”, por exemplo, foi a poeta Juana Bignozzi (1937-2015), também “modelo de mulher dândi”, algo difícil de conseguir, mas que ela “exibia com elegância, sem uma sombra de esnobismo”. Foram mais de quarenta anos “de uma relação em que houve brigas, mal-entendidos, broncas e grandes momentos”.

Beatriz Sarlo (Acervo da autora/Divulgação)

O elemento contínuo de fundo que explica tanto o pendor analítico de Sarlo quanto a intensidade de suas relações é sua ética de trabalho.

Meu gosto foi formado em um caminho ladeira acima que não evoca o prazer mas o trabalho, a vontade, o convencimento de que, se conseguisse percorrer ao menos uma parte, com certeza haveria algo à minha espera ao final desse esforço.

Esse “exercício constante da força de vontade” aparece de forma espontânea já na criança que foi, mas é aprimorado ao longo da vida e, por fim, apreendido de modo definitivo nas memórias. A meta sempre foi “criar obrigações para mim mesma como se eu as tivesse escolhido ou como se as apreciasse”, “planejar programas de trabalho e leituras de férias”.

Desconforto

Desde o primeiro contato com a literatura — decorando poemas que não entendia pelo simples prazer de dominar algo — até os experimentos iniciais com os clássicos — a leitura anual de O vermelho e o negro, de Stendhal, na juventude —, Sarlo absorve a lógica do não entender. Para ela, “não entender é o capítulo inicial de uma viagem”: “não entender nos deixa frente a frente com o desconhecido, oferecendo-nos a oportunidade de expandir o espaço em que vivemos e pensamos”. Trata-se mais de oportunidade que de segurança. Aceitar a incompreensão é, para a autora, aceitar que existe algo “que foge às minhas habilidades”, e essa zona de desconforto é seu espaço vital por excelência.

A personagem que surge dessas memórias está sempre compenetrada, envolvida até o pescoço na árdua tarefa de não desperdiçar um minuto da vida. “Eu, sem inteligência, não era nada. Nada, um farrapo, uma franzina.” Não há espaço para feriados, preguiça ou hesitação: mesmo os encontros com amigos são pautados pelo debate, pela discussão de ideias. Até mesmo o hábito iniciado a partir dos anos 80 de frequentar clubes de jazz em Nova York é filtrado pelo imperativo de dar conta do que é “gosto”, “fato estético” ou “fruição”.

Essa intensidade é o que torna Sarlo única, para seus contemporâneos e para seus leitores no desdobramento do tempo, que recebem uma propícia porta de entrada com essas “memórias de uma intelectual”.            

Quem escreveu esse texto

Kelvin Falcão Klein

Professor da Unirio, é autor de Cartografias da disputa: entre literatura e filosofia (Editora UFPR).