Literatura brasileira, Literatura infantojuvenil,

A epopeia de Munduruku

Nova edição de Histórias de índio atualiza suas denúncias e celebra a literatura de autores indígenas

01out2026 • Atualizado em: 28set2026 | Edição #110

Histórias de índio, de Daniel Munduruku, publicado em 1996, foi o primeiro livro desse autor decisivo para trazer as narrativas indígenas às páginas. Digo, as nascidas não apenas para habitar as prateleiras de antropologia, as publicações universitárias e afins, mas para serem levadas às bibliotecas das pequenas e grandes cidades, para estar em destaque nas livrarias, para entrar nas casas e escolas de milhares de brasileiros e brasileiras e do mundo afora, para serem içadas ao panteão dos prêmios literários.

Daniel Munduruku inaugurou, com suas Histórias de índio, toda uma estrada para as narrativas dos povos originários no país. Depois deste, escreveu muitos outros livros — mais de cinquenta! — e puxou vários outros autores e autoras indígenas para o bonde da literatura, principalmente a impressa, já que narrar é a forma essencial de existir desses povos.

Ao receber o convite da Quatro Cinco Um para trazer uma boa-nova para vocês, olho com carinho a minha edição, já velhinha, na prateleira de madeira escura onde ele repousa: Histórias de índio faz hoje, quando escrevo este texto, trinta anos bem vividos, e nós leitores, especialmente os mais jovens — mas não só —, ganhamos uma nova publicação, pela Companhia da Letrinhas, desse livro que segue ocupando um lugar único e fundamental nas narrativas sobre os povos originários no Brasil.

Com Histórias de índio, Munduruku estreou seu estilo singular, cheio de conteúdo e humor, recheado de memórias e pincelado com reflexões que foram se aprimorando ao longo dos anos. Exotiza “os brancos”, combate preconceitos, inverte expectativas e nos envolve com ternura.

Caminho das pedras

A nova edição traz a questão incontornável sobre o uso dos termos “índio” e “indígena”, dando o contexto histórico da publicação, aproveitando para enumerar alguns avanços da sociedade brasileira no trato com os indígenas e nos contando as conquistas destas últimas décadas.

Ilustrações de Laurabeatriz

Infelizmente, as denúncias contidas em seus textos originais, que revelam as adversidades sofridas pelos indígenas, como perseguições e preconceitos, seguem longe de estar resolvidas. E a invasão e o desmatamento de seus territórios, bem como a poluição dos rios, que já soavam como um grito de alerta, só fizeram se agravar.

Além do conto de Kaxi, o menino que não sabia sonhar, dos saborosos causos e crônicas de Munduruku em seu corpo a corpo com o mundo dos brancos e de todas as informações complementares sobre a situação atual das nações indígenas do Brasil, a nova edição também aponta generosamente para outras publicações, de outros autores e autoras indígenas que despontaram de lá para cá, fornecendo o caminho das pedras para adentrarmos nessa profícua produção e mergulharmos em perspectivas singulares de múltiplos indígenas — o que sempre foi uma bandeira hasteada pelo autor.

Ouso dizer que o livro vai envelhecendo no mesmo passo do próprio Daniel Munduruku: sábio como um ancião, travesso feito menino.  

Quem escreveu esse texto

Rita Carelli

Escritora, atriz, ilustradora, é autora de Terrapreta (Editora 34)

Matéria publicada na edição impressa #110 em outubro de 2026. Com o título “A epopeia de Munduruku”

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