Ilustrações de Bruna Lubambo

Literatura infantojuvenil,

A rima desce para cima

Gregorio Duvivier lembra o gosto das palavras com a história do repentista Zé Limeira, que as torcia até virarem poesia

01out2026 • Atualizado em: 28set2026 | Edição #110

Quando eu era pequena, passei muitos anos na fonoaudióloga mastigando as palavras. A fono segurava com graciosidade entre os meus dentes um pequeno cano de borracha envolto em pó de gelatina, e eu tinha de morder com força e relaxar várias vezes enquanto ela declamava Cecília Meireles e outros poetas que rimavam absurdos ou encantos.

O nome dela era Eliete, que me parecia um nome feito apenas para ela. Reforçava o ritmo das declamações batendo um dos pés no chão, conforme os poemas avançavam naquele passo adorável. Era preciso morder a borracha a cada batida do sapato dela no piso. O doce na minha língua, a bochecha contraindo na musculação das rimas. Ginástica fantástica. O fim de uma palavra batia e ressoava no fim da outra e desviava para algum paradoxo que era uma rima e era também uma solução.

Não sei se funcionou para que eu aprendesse a mastigar direito os alimentos, mas certamente engoli diversas palavras, e o som das suas rimas tinha textura, gosto e imagens. A rima era parte do tratamento, de alguma forma me treinava para o sabor elástico das palavras na minha boca.

Seguro agora este livro do Gregorio Duvivier sobre Zé Limeira (1886-1954) e penso que Eliete o teria lido para mim enquanto mergulhava a cânula de borracha no pó açucarado com sabor artificial de morango e me fazia apertá-la entre os dentes, um lado de cada vez, com a força exata do poema. Embora eu não pudesse olhar totalmente para baixo, ficaria atenta às ilustrações tão impressionantes da Bruna Lubambo, abertas no colo da Eliete, e de alguma forma comeria as imagens também.

Tradição oral

Zé Limeira foi um lendário repentista paraibano que encantou e desconcertou o Brasil do século passado com a sua viola e a sua rima desdobrando o inusitado e a insensatez dentro do som e para fora da lógica, feito uma escadaria de Escher que a gente pode subir enquanto desce. Gregorio, com seu nome também de outros séculos, mergulha nessa tradição oral para lembrar que alguma coisa na infância pode ter o mesmo superpoder, e nos leva a imaginar como era o menino Zé Limeira.

Por não saber o óbvio das coisas, a criança tropeça soltinha nos mecanismos do pensamento, e ainda tem a maravilha do assombro que vamos perdendo. De tanto subirmos escadas comuns que nos levam de um andar a outro, esquecemos de ascender.

Alguém pega uma palavra e a observa de baixo para cima, a imaginação são duas mãos contorcendo a frase em ângulos impossíveis, espremendo a pergunta até que ela escorra numa resposta desajustada. Esse alguém é um poeta; ou uma criança. Dizemos tantas coisas o dia inteiro, que é preciso vir alguém — um poeta ou uma criança — lembrar que as palavras têm sentido porque são sentidas. As palavras têm gosto quando são mordidas.

Pode ser necessária uma rima para divertir o ouvido e nos lembrar das coisas que as crianças ainda não esqueceram porque ainda estão escutando tudo pela primeira vez. Talvez um poeta seja um adulto que pode olhar mil vezes a mesma coisa pela primeira vez.

Manoel de Barros trazia direto do idioma das crianças a surpresa de ver um menino e pensá-lo árvore, um menino tão quieto que estica horizontes, ou um menino tão, mas tão poeta que consegue carregar água na peneira. Os meninos como Zé Limeira, que carregam água na peneira, normalmente causam espanto descendo suas escadas até parar no andar de cima, e podem acabar desacreditados, porque esvaziam as palavras da sua verdade absoluta.

Zé Limeira desconcertou o Brasil com sua viola, desdobrando o inusitado e a insensatez dentro do som

Zé Limeira pensava com a rima, e a rima é uma coisa que dança no ouvido da criança e pode doer no ouvido do adulto. O adulto está atento demais aos perigos da confusão de alhos com bugalhos, aos riscos de não juntar lé com cré. O adulto está aos trancos e barrancos, e vem o Zé Limeira de Gregorio lembrar que nada faz sentido nem precisa fazer, porque de todo modo não faz sentido nascer para
um dia morrer.

Rimar confusões contra a morte até deixá-la irremediavelmente atordoada talvez seja mesmo a única saída, ou pode ser que seja o maior talento do poeta, labirintar tanto com as palavras até que nem o fim encontre o caminho final. Zé Limeira vive para sempre desde que a sua rima desnorteou até mesmo a morte.

Quem acompanha os trabalhos de Gregorio sabe que olhar uma palavra junto com ele é observá-la de todos os seus ângulos, torcê-la até desdobrar o sentido que mais se sinta, no nosso português e em outras línguas. Sempre que Gregorio fala ou escreve sobre linguagem, me vem na hora o gosto de pó de gelatina de morango, aquela criança dentro de mim vai mordendo uma a uma as palavras que ele ilumina. Se eu me concentrar, escuto o sapato da Eliete ritmando no piso e então mastigar, engolir e escrever viram parte de uma mesma rima.    

Quem escreveu esse texto

Mariana Salomão Carrara

Escritora e defensora pública, é autora de Sabor paciência (Baião).

Matéria publicada na edição impressa #110 em outubro de 2026. Com o título “A rima desce para cima”

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