Literatura infantojuvenil,
O príncipe e a flor-bomba
No exílio da adolescência, clássico de Saint-Exupéry foi uma luz na escuridão: sua espantosa simplicidade contém a mais pura poesia
01out2026 • Atualizado em: 28set2026 | Edição #110Uma nova tradução de O pequeno príncipe, com poderosas ilustrações de Beatrice Alemagna, está longe de chover no molhado. Sua proposta poética nunca se esgota, e eu sei do que falo. Desde pequeno, amei desenfreadamente coleguinhas e rapazes mais velhos — um tio, por exemplo. Eu ainda não tinha certeza, mas temia ser uma criança viada. Lá no mais profundo do meu mistério, caçava maneiras de me conectar com o mundo. O que conseguia entender não era nada agradável: o mundo me excluía. Já então, me sentia um animal em exílio. Tanta era a dor dessa divergência amorosa que eu fantasiava cortar os pulsos.
O despertar de algum sentido sobre mim começou ao mesmo tempo que eu, flor-bomba, sentia os hormônios da puberdade, em torno dos treze ou catorze anos. Foi quando me deparei com O pequeno príncipe. Enquanto o lia pela primeira vez, me via protagonista de uma história inteira, com direito a significados diretos e indiretos. Basicamente, falava da paixão e — suprema delícia! — do jeito que eu a sentia: sólida, imbatível, desenfreada, ainda que gozosa e dolorosíssima.
Tudo isso através do mesmo livrinho que as candidatas a Miss Universo passaram a amar, no seu modo cafona de entender o amor. Muitas vezes ouvi comentários debochando dessas misses e, por extensão, do livro, que chegou a ser acusado de literatura de gosto discutível, ou mesmo rasteiro e piegas. Já adulto, me recusei a compartilhar essa opinião. Não me importava o que a elegância canônica pensava de nós, exilados em nosso próprio país. Continuei acreditando naquela expressividade poética que eu, quando criança viada, descobrira: O pequeno príncipe refletia, de modo radical, a capacidade de me apaixonar, e a respaldava.

Meu encantamento foi tanto que decidi ler o livro no original, e assim comecei a aprender francês. Nunca esqueci a banalidade sagrada do primeiro diálogo: “S’il vous plaît… dessine-moi un mouton!”. Eu me deliciava com a raposa astuta ensinando ao menino os modos adequados de amar. Ou me emocionava ao saber que “as estrelas são lindas por causa de uma flor que a gente não vê”. E tantas vezes agradeci alguém ter me revelado: “Você se torna para sempre responsável pelo que cativou”. Esses não me pareciam e nunca pareceram exemplos de poética rasteira. Para crianças desviantes, trata-se de um
olhar visionário.
Ternura
Penso nos milhares de meninos desmunhecados, de gênero divergente, surrados nas famílias e zombados nas escolas. Aprenderam a sobreviver porque compreenderam o poder de uma flor, ao contrário da ordem sádica: “Tem que aprender a ser homem!”. Ainda ecoa essa palavra de ordem, que ouvi, por volta dos meus oito ou nove anos, gritada por entre gargalhadas, quando me jogaram no caudaloso rio Jacaré-Guaçu.
O menino exilado em seu planeta proporcionará alfabetização poética até para os robôs
No exílio em que eu me sentia, O pequeno príncipe foi uma luz na escuridão. Parece um livrinho despretensioso, mas sua espantosa simplicidade contém a mais pura poesia. O encontro afetivo entre um piloto perdido no deserto e um garotinho perdido no cosmos apontava a possibilidade de me entregar à paixão, fosse por uma rosa, fosse por uma raposa — porque a ternura, tanto quanto a poesia, não tem fronteira.

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Se aprendi a dar os primeiros passos do amor nesse período movido por hormônios, nele também descobri que a flor-bomba da poesia podia existir fora do meu pequeno planeta. Acho necessário que O pequeno príncipe continue sendo saboreado em roupagens mais contemporâneas, como esta nova tradução brasileira. Ele funcionará sempre como um beabá da poesia para crianças e adultos, em todas as partes, das aldeias às metrópoles. Na contramão das redes sociais que tomam de assalto o imaginário infantil deste século,o príncipe exilado em seu planeta proporcionará alfabetização poética até mesmo para os robôs que nos aguardam logo adiante.
Matéria publicada na edição impressa #110 em outubro de 2026. Com o título “O príncipe e a flor-bomba”
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