Repertório 451 MHz,
Travessuras e gostosuras
Amara Moira, que lança a coletânea Poemetos travessos & gozosos contos, fala sobre suas estripulias e gostosas brincadeiras com as palavras
11set2026Está no ar o 212º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Esta edição recebe a escritora Amara Moira na coluna Lado Beber, apresentada pela poeta Bruna Beber. Moira, que está lançando a coletânea Poemetos travessos & gozosos contos, pela editora O Sexo da Palavra, conversa sobre suas estripulias e gostosas brincadeiras com as palavras — tanto na poesia como na prosa em bajubá, a língua cifrada das bichas e travestis.
Ela conta que, recentemente, pela primeira vez escreveu “poeta” no campo reservado à profissão em uma ficha e confessa que sua escrita inventiva vem da paixão pelos poetas concretistas e por Guimarães Rosa e James Joyce, que não apenas inventavam, mas também resgatavam palavras. O episódio foi realizado com apoio da Lei Rouanet.
Pesquisadora de teoria e crítica literária — foi a primeira mulher trans a obter um doutorado pela Unicamp —, Amara Moira também publicou E se eu fosse puta (N-1 Edições, 2023), que saiu originalmente em 2016 pela Hoo e ganhou uma versão com o título E se eu fosse pura em 2018, pela mesma editora. Em 2024, lançou Neca: romance em bajubá (Companhia das Letras), primeiro romance brasileiro inteiramente escrito na língua de resistência da comunidade travesti, que apareceu em uma versão inicial em Neca + 20 poemetos travessos (O Sexo da Palavra, 2021).
Mais conhecida como prosadora, Moira conta que, até o início dos anos 2010, antes de iniciar sua transição de gênero, aos 29 anos, sua grande paixão literária era a poesia — principalmente a poesia concreta dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos, criadores do movimento vanguardista ao lado de Décio Pignatari.
“Eu tinha até um pouco de preconceito com a prosa. Eu achava que a prosa era mais preguiçosa [que a poesia], ela se permitia gastar palavras demais. A poesia era mais sintética — eu gostava da síntese que os concretistas propunham”, explica.
A escritora diz que uma leitura específica a fez abandonar essa “ideia preconceituosa”: Ulysses, de James Joyce, que estudou no doutorado. “Eu comecei a sentir que precisava usar a palavra para comunicar esse novo mundo que eu estava conhecendo”, justifica, sobre a decisão de começar a escrever em prosa.

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Outra referência de prosador que se aproveita da linguagem poética foi João Guimarães Rosa, cujo clássico Grande sertão: veredas completa setenta anos em 2026 e foi capa da Quatro Cinco Um de agosto.

“Quando a gente lê Guimarães Rosa, a gente fica ‘nossa, quero sair inventando palavras’. Mas, quando você conhece mais a língua, descobre que o Guimarães não está inventando quase nada. Ele está olhando para uma massa de coisas que já foi inventada e que é subutilizada”, diz, ao lembrar do escritor mineiro como alguém que também garimpava palavras.
Imaginação registrada
O ofício de resgatar expressões incomuns se reflete no bajubá de Neca e nos novos contos de Poemetos travessos & gozosos contos, escritos na língua cifrada das ruas. Com vinte poemas que tinham sido publicados na primeira edição de Neca, de 2021, o novo livro de Moira traz também poemas inéditos anteriormente publicados em outros formatos.
Para a autora, a escrita inventiva dos mestres Rosa e Joyce, que inspirou a sua, reflete “a imaginação de um povo reinventando a língua, que fica muito pouco registrada e ganha muito pouca reverberação na sociedade”. Registrar essas inovações é, na visão de Moira, um dever da literatura.
Contra o amor
Na conversa com Beber, a escritora também revela que costuma fazer listas de palavras que a atraem pela sonoridade ou pelas imagens que suscitam — e até criou um mapa de palavras em bajubá, organizadas em grupos como “partes do corpo”, “xingamentos” e “formas de se referir à aids”. A colunista e a convidada trocam algumas palavras preferidas, como “estripulia” e “ziriguidum”.
Uma palavra em especial, no entanto, Moira diz evitar em seus escritos: “amor”. Para ela, o termo carrega conotações difíceis de contornar, associadas a convenções que a autora busca justamente desafiar. “Tem essa coisa meio de monogamia, de heteronormatividade”, afirma. “É difícil descolá-la de todas essas bizarrices que já fizeram em nome dela.”
A resistência, segundo a autora, é quase uma posição declarada. “Tenho sentido que, muitas vezes, eu tenho uma militância: minha literatura é uma literatura antiamor.” Para Moira, é preferível nomear o afeto e o desejo com outras palavras — Beber propõe “paixão” como alternativa menos gasta.
Moira ainda comenta no episódio a dificuldade de escrever sobre o próprio corpo em transformação, tema de um poema do novo livro que termina com a expressão “e agora?”. Para ela, o assunto cabe mais à poesia do que à prosa. “Acho que a poesia pode ser esse espaço para a gente falar sobre descobertas que estão acontecendo agora: novas formas de relacionamento, de prazer, outras relações com o próprio corpo.”
Livro Marcador
No quadro sobre livros marcantes na vida de escritores e personalidades das artes e da cultura, o episódio traz a sugestão da jornalista e bióloga Maria Guimarães, autora de de Jardim Botânico de São Paulo (Terceiro Nome, 2012). Ela indica Píppi Meialonga (Companhia das Letrinhas, 2016), da escritora sueca Astrid Lindgren. O livro tem tradução de Maria de Macedo, pseudônimo usado por Heloisa Jahn, mãe da jornalista.

“Quando eu era muito pequena, fui morar na Dinamarca e lá eu tive contato com a Píppi Meialonga e o fato de ser uma menina que dá conta de tudo e que é poderosa. Minha mãe contava, eu não lembro, que foi fundamental para mim — no momento em que eu estava num país onde eu não sabia a língua, era tudo diferente, isso me deu um superpoder. Então não foi à toa que, muitos anos depois, a minha mãe traduziu esse livro aqui”, diz.
O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]
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