Literatura,
Tudo sobre minha mãe
Em Colcoz, Emmanuel Carrère oscila entre o registro doméstico e o histórico para narrar a trajetória de Hélène Carrère d’Encausse
12ago2026 • Atualizado em: 11ago2026 | Edição #109Um leitor apressado poderia dizer que Emmanuel Carrère escreve sempre o mesmo livro: é sempre a mesma voz em primeira pessoa que narra — um narrador identificado com o próprio Carrère, que usa cenas da vida do autor para construir a história, mesclando o autobiográfico e a crônica dos eventos contemporâneos, em um fluxo associativo organizado em breves capítulos.
A descrição se aplica a Um romance russo (2007), que lida com a história do avô materno de Carrère, Georges Zourabichvili; a Outras vidas que não a minha (2009), que parte da experiência pessoal de ver os efeitos de um tsunami no Sri Lanka; a Limonov (2011), cujo ponto de partida é a vida do político radical russo Eduard Limonov; e também a Ioga (2020), que fala de meditação, retiros espirituais e crises amorosas, tendo como pano de fundo a França do presente, em especial os efeitos do atentado ao Charlie Hebdo, que matou doze pessoas, em 2015.
Colcoz, último livro de Carrère lançado no Brasil, está firmemente inserido nesse universo de autocomentário que o autor construiu. Trata-se, contudo, de uma posição desconfortável, que ele tanto alimenta quanto recusa: “A notoriedade não mudou nada da minha solidão. Está até piorando”.
A “notoriedade” é, nesse romance, elemento central e determinante para a dinâmica narrativa. O Carrère narrador acessa frequentemente a própria notoriedade — suas publicações, suas viagens, todo o capital simbólico amealhado por meio dos projetos anteriores —, mas colocando-a em contraste com uma notoriedade bem maior: o reconhecimento recebido ao longo de décadas por sua mãe, Hélène Carrère d’Encausse, a verdadeira protagonista do relato. “Os dias da minha mãe eram cheios de encontros, lançamentos, palestras, livros para ler ou escrever, júris para presidir”, escreve o filho. “Eram raros os momentos em que estava sozinha.”
A mãe, eleita para a Academia Francesa em 1990, foi também, como elenca o autor, membro da Academia Real da Bélgica, deputada do Parlamento Europeu, doutora honoris causa de umas vinte universidades, Grã-Cruz da Legião de Honra. Em paralelo, manteve a “publicação regular de livros de sucesso” e “uma presença ainda mais regular na imprensa”: “ela alcançou o círculo bastante restrito de pessoas que, quando entram em um lugar, são sempre as mais importantes, aquelas para quem todos os
olhares se voltam”.
A mescla de egoísmo e homenagem forma a matéria que sustenta o projeto literário de Carrère
Não é apenas a dificuldade, especialmente para um escritor vaidoso, de viver sob a sombra da mãe que serve de motor para Colcoz, mas também a complexidade do trajeto que leva Hélène Carrère d’Encausse até o ponto a que chegou. Para dar conta desse trajeto, o autor recua no tempo e se desloca no espaço, evocando inúmeras anedotas de antepassados e personagens menores da história europeia desde o século 19. Se no centro da narrativa estão a relação entre mãe e filho e a preparação de ambos para a morte dela — o enterro é a cena de abertura —, em órbita está uma série de coadjuvantes: padres, pilotos, conspiradores, cuidadores de idosos e outros, muitos deles remetendo a livros anteriores de Carrère.
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É precisamente essa proliferação de personagens que garante complexidade ao relato de Carrère, sempre oscilando entre o registro doméstico (a vida familiar, não apenas com a mãe, mas com o pai e as duas irmãs) e o registro histórico. “Colcoz”, termo que designava as fazendas coletivas soviéticas, serve de senha para a entrada nos domínios familiares: “brincar de colcoz” consistia em arrastar dois colchões para o quarto da mãe, quando o pai viajava a trabalho, para que todos dormissem juntos.
Com frequência, história e vida doméstica são indissociáveis, pois mãe e filho fizeram carreiras que dependem dessa mistura. “Minha mãe era apaixonada por ideologias — mais que pelo zurro dos asnos, o arrulho das rolinhas e as carniças dos camelos”, observa Carrère, e completa: “Ela não gostava nem um pouco do mundo sensorial, da textura e da palpitação das coisas”. Mundo esse, diga-se de passagem, preferido pelo filho.
Cataclismo
A tônica de Carrère está posta na relação com a mãe, especialmente quando o tema é a própria obra e a construção da performance autoral:
A publicação de ‘Um romance russo’ foi um cataclismo familiar. Minha mãe leu o livro tremendo, furiosa e, acima de tudo, aterrorizada. Depois que foi publicado, ficamos muitos anos sem
nos encontrar.
Para o autor, no entanto, expor a história do avô colaboracionista da ocupação nazista era um imperativo que se sobrepunha a qualquer responsabilidade: “Minha mãe realmente acreditou que minha feroz exigência de contar a verdade destruiria tudo o que ela tinha construído”.
O método digressivo de Carrère leva o leitor do Império Russo de Potemkin à guerra russo-ucraniana de Putin, passando por pensionatos de freiras na Borgonha e pelas florestas profundas da República da Geórgia. Por trás da movimentação frenética de Colcoz, vemos a intenção de descrever e dissecar os modos, métodos e procedimentos maternos.
O ponto de referência, contudo, é o narrador: sua consciência pauta e modula todas as cenas e evocações, o que se faz notar mesmo nos momentos mais simples, como quando o filho vai esvaziar o apartamento dos pais. O espaço de trabalho da mãe é um convite para que o narrador especule:
O escritório da minha mãe é tão solene que eu não conseguiria me imaginar trabalhando ali, mas ela fazia isso todos os dias, ocupando-se com as múltiplas tarefas que seu cargo implicava e, de manhã bem cedo, por três horas seguidas, escrevendo livros, o que, para minha admiração, ela fez até o fim da vida.
Essa ambivalência não é nova, tampouco desconhecida para Carrère. A mescla de egoísmo e homenagem forma a matéria que sustenta seu projeto literário. É o próprio narrador quem registra, ao comentar o projeto do livro que ainda não existe: “Estou procurando uma porta por onde entrar. É sempre isso que procuro, uma porta por onde entrar. Ainda não sei que essa porta será, em breve, a morte da minha mãe”.
Matéria publicada na edição impressa #109 em agosto de 2026. Com o título “Tudo sobre minha mãe”
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