O poeta e cardeal português José Tolentino Mendonça em Roma (Lorenzo Moscia/Divulgação)

Encontro de Leituras,

O jogo inocente e perigoso da poesia

José Tolentino Mendonça fala sobre sua sensibilidade poética, vocação religiosa e a importância de artistas e bibliotecas

11ago2026 | Edição #109

Ele fica dias na “grande biblioteca do mundo”, com frequência está cara a cara com o Papa e escreve muita poesia, além de peças de teatro, ensaios, aforismos e crônicas. Neles, aborda de questões teológicas à obra de Clarice Lispector ou Pier Paolo Pasolini — este, um dos top five no panteão de artistas contemporâneos admirados e citados por José Tolentino Mendonça, cuja coluna no jornal português Expresso se chamava “Que coisa são as nuvens”, título de um filme do cineasta italiano.

O poeta e cardeal português, nascido na ilha da Madeira em 1965, já lançou umas três dezenas de livros desde sua estreia, em 1990, com Os dias contados, publicado por uma editora de Funchal. Atualmente, é o prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação, no Vaticano, onde vive e trabalha. Foi arquivista e bibliotecário da biblioteca vaticana, a mais antiga da Europa, e participou do conclave que elegeu o papa Leão XIV (especula-se que Tolentino esteve na “shortlist dos papáveis”).

Maratona

O peso do cargo de cardeal na hierarquia eclesiástica não o impede de trafegar à vontade nas aventuras poéticas contemporâneas — seja nos versos que escreve ou nas amizades que cultiva, como a da poeta Adília Lopes, de quem esteve ao lado, segurando as mãos, quando ela morreu, em dezembro de 2024. E sabe, como poucos, ser pop: em um de seus mais recentes comentários sobre a importância dos artistas, citou a cantora catalã Rosalía.

A antologia de poemas Os enigmas singulares (Círculo de Poemas) foi lançada há pouco no Brasil. Para o lançamento, ele passou a jato pela Festa Literária Internacional de Paraty: chegou na quarta-feira, rezou uma missa, participou de uma mesa com o poeta mineiro Edimilson de Almeida Pereira na quinta e voou de volta a Roma.

Dois dias antes da maratona paratiense, falou por videochamada com a Quatro Cinco Um. Na conversa,
foi do poeta português Eugénio de Andrade ao Cântico dos cânticos e São João da Cruz; citou uma variedade de artistas brasileiros, entre os quais os compositores Chico César, Chico Buarque e Arnaldo Antunes e os escritores Adélia Prado e Bernardo Carvalho; também passou pelo anglo-americano T. S. Eliot, o alemão Friedrich Hölderlin, o argentino Jorge Luis Borges e sua amiga Adília Lopes. Falou ainda do poder da arte e dos artistas, dos mistérios da poesia e da importância das bibliotecas.

O peso do cargo de cardeal não o impede de trafegar à vontade nas aventuras poéticas contemporâneas

Durante a entrevista, Tolentino Mendonça não estava no paraíso borgiano da grande biblioteca, mas em sua casa, em Roma, em frente a uma tela da artista franco­-portuguesa Maria Helena Vieira da Silva. O nome da obra: Biblioteca em chamas — mais um entre os muitos paradoxos do poeta-cardeal.

O senhor se lembra do primeiro poema que o José Tolentino Mendonça ainda menino escreveu?
Menino Eugénio de Andrade, um poeta importante no século 20 em Portugal, dizia que a palavra portuguesa mais bonita era menino (ou menina), sabia? É lindo traçar poesia nessa palavra. A minha entrada no “estado de poesia”, para citar o [compositor] Chico César, foi pela contemplação do mar. Do nada, olhei para o mar vazio e o senti cheio; alguma coisa preparou o coração e a mão para o poema que veio a se concretizar. A escrita se tornou um jogo inocente, perigoso e cada vez mais importante. Aos dezesseis anos, tive na mão o que acho ser meu primeiro poema, “A infância de Herberto Helder”, que abre a antologia Os enigmas singulares.

Acredita que a poesia e a vida eclesiástica são vocação?
Gosto da palavra vocação por duas razões. Uma é o significado dado por uma escritora italiana de que gosto muito, a Natalia Ginzburg: “Vocação é a expressão do nosso amor mais alto pela vida”. Está ligada ao amor pelo mundo. Outra razão é que vocação quer dizer chamado. Em grego, kaleo significa chamar; e kalós, belo. No chamamento há um salto de beleza; quando nos sentimos chamados é como se as coisas encontrassem seu nome — um acender de fósforo, o despertar de uma revelação.

Qual foi o seu poema de formação?
O Cântico dos cânticos é um texto fundamental e sobre o qual trabalhei muito: fiz uma tradução para o português a partir do hebraico. Tudo começa com ele, porque tive a sorte de ouvir o Cântico pela primeira vez dos lábios de uma mulher analfabeta e senti que a palavra humana pode ter uma lentidão que até então eu desconhecia. Esse livro se tornou minha escola do poema. É sem dúvida o que li mais vezes, em diversas línguas — traduzi, meditei, rezei e chorei. É a senha que abre portas, inaugura viagens espirituais, poéticas e humanas. A mística é a poesia da relação, por sua assunção radical da solidão humana. O Cântico dos cânticos, um grande poema de amor, é talvez o maior texto sobre a solidão, porque nos inicia nessa relação inseparável entre ausência e presença. Ali percebemos que o amor é uma forma de mendicância.

Para que serve a poesia?
[O poeta alemão] Hölderlin perguntava: “Para que poetas em tempos de indigência?”. Está subentendido na pergunta que não servem para nada, são testemunhas do nada. A poesia é a hospitalidade que a palavra ou o silêncio pode representar.

Em vários poemas da antologia o senhor escreve sobre o silêncio e sua representação. O que te atrai?
O que mais me seduz na palavra humana é sua pobreza, o quanto a palavra é vulnerável. A palavra impotente, que fica na soleira da porta. A palavra que não pretende, porque a pretensão é uma forma de impostura. A verdade é uma coisa nua. Essa forma de nudez, de despojamento, de vazio, faz da palavra uma aliada da experiência humana.

José Tolentino Mendonça em Roma (Lorenzo Moscia/Divulgação)

A vocação para a poesia veio antes, depois ou junto com a vocação para a vida religiosa?
Sabe que eu não sei? A sensibilidade religiosa sempre existiu, mas essa religiosidade já era um lugar de poesia — para mim a religião é associada à experiência poética. Acho que são concomitantes. Isso pode soar muito abstrato, mas há percursos concretos. Parte do meu tempo como padre é dedicada à oração da liturgia das horas, fundamentalmente salmos escritos pelos pais da Igreja, os primeiros poetas. Há uma intuição poética no dizer religioso que me faz pensar em uma geração de poetas portugueses ligados ao catolicismo, que eram muito próximos do Murilo Mendes, do Jorge de Lima. [Os poetas e pensadores portugueses] Ruy Cinatti e José Blanco tinham uma revista chamada Aventura, cujo lema era: “A poesia é uma só”. Gosto muito desse lema e me sinto filho dessa geração.

Além dessa geração da qual se sente descendente, como os grandes poetas místicos ou ligados ao cristianismo entraram em sua formação?
Se eu tivesse que escolher um poeta, seria São João da Cruz. Soa quase como um crime, já que estou em Roma e Dante é o grande autor da tradição poética ocidental — ele trabalhou a partir da estrutura do cristianismo para escrever um dos maiores poemas de todos os tempos. Mas São João da Cruz está mais próximo da minha sensibilidade, da minha vida. O Eugénio de Andrade, que já citei, era um poeta agnóstico, mas me ajudou a perceber a grandeza de São João da Cruz.

Quem seria o seu São João da Cruz da atualidade?
T. S. Eliot. Seu texto é tecido no presente e inseparável da tradição.

E entre os mais contemporâneos?
Ah, vocês no Brasil têm poetas extraordinários. O Chico Buarque, que é o Bob Dylan da nossa língua. O Arnaldo Antunes. A música que se cria no Brasil tem uma força verbal absolutamente notável. E penso também no Eucanaã Ferraz, na Orides Fontela, no Edimilson de Almeida Pereira.

‘A arte atual é transfronteiriça, mestiça; me interessa esse exercício de contaminação’

E a [poeta portuguesa] Adília Lopes. Tive a oportunidade de ser muito amigo dela e acompanhar sua obra poética, que é como uma mística do século 21. E ainda tive a sorte de estar com ela, segurando sua mão, no momento de sua morte. A Adília e a Adélia Prado são aquilo que São João da Cruz escreveu, mas com outra linguagem, outra métrica, em outra categoria. A poesia delas tem uma gramática quebrada, que aceita ser fragmento e não tem mais esse sonho de totalidade. Não só o luxo, também o lixo.

Há também um escritor brasileiro de que eu gosto muito, o Bernardo Carvalho. Ele tem uma língua viral, pandêmica. É impossível sobreviver da mesma forma depois de ter passado pela leitura de seus livros.

Além dos escritores e poetas, o senhor admira muitos artistas da chamada cultura pop. Qual deles levaria hoje para conversar com o Papa?
Ah, eu levaria todos. Hoje há a compreensão de que o artista é um pneumatóforo, um bom condutor do espírito. Nas diversas disciplinas, há uma qualidade que torna o artista necessário. Ele representa esse inútil que no fundo é indispensável ao processo de tomada de consciência e das transformações sociais.

A Pina Bausch, por exemplo, é uma visionária, uma mestra espiritual. É uma grande coreógrafa da vida. Há o milagre no cinema brasileiro que foi o Glauber Rocha, essa vertigem. Gosto da arte contemporânea porque é transfronteiriça, mestiça. Ela é arte visual, ensaio, lugar filosófico; é dança, arquitetura, sociologia; me interessa esse exercício de contaminação.

O senhor escreve ensaios sobre a arte, os artistas e o próprio ato da escrita, reflexões e pensatas sobre a vida e a condição humana. Qual é o lugar do ensaio em sua obra?
O ensaio é uma grande invenção literária, um exercício do olhar — aproximar ou afastar o objeto para poder entendê-lo. A realidade se mete conosco, e as diferentes formas de ensaio devolvem aquilo que a realidade nos dá. A relação entre escrito e testemunho é muito importante. Essa responsabilidade de contar está na origem da escrita.

Eu não separo o ensaio da poesia, do romance, da notícia de jornal, do tratado de teologia. Tudo é escritura. Claro que aqui na biblioteca [do Vaticano] os livros são separados por gênero, mas essa não é a melhor maneira de arrumar os livros. Eles são bons amigos [entre si], devem ser arrumados para formar uma boa vizinhança.

Como é passar o dia trabalhando dentro da biblioteca do Vaticano?
O [Jorge Luis] Borges dizia que aquilo que amamos é sempre o centro do paraíso. E a biblioteca vaticana é um lugar que nos faz pensar no paraíso. Um dos grandes lugares não só da memória ocidental, mas também da oriental, dos povos primeiros. Durante anos acompanhei figuras ilustres em visita à biblioteca. Começavam a visita conversando, e, à medida que adentravam, vinha o silêncio diante da monumentalidade da memória ali depositada. Mas, como disse o papa Francisco, ali não é um santuário do passado, mas um bom lugar para frequentar o futuro. Assim como as bibliotecas, os cinemas, os teatros e as livrarias são bons lugares para frequentar o futuro.

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, editora da Quatro Cinco Um, é autora de Tantra e a arte de cortar cebolas (Editora 34).

Matéria publicada na edição impressa #109 em agosto de 2026. Com o título “O jogo inocente e perigoso da poesia”

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