A escritora indiana Arundhati Roy, em junho de 2026 (David Levenson/Getty Images)

Literatura,

O mais apaixonante dos seus temas

Em Meu abrigo, minha tormenta, Arundhati Roy parte da morte da mãe para contar sua história e a da Índia contemporânea

10ago2026 | Edição #109

Não são poucos os escritores que falam sobre seus pais e, mais especificamente, sobre a perda deles. Em Meu abrigo, minha tormenta, Arundhati Roy mostra com brilhantismo que o tema não perdeu força. Autora do premiado O Deus das pequenas coisas (1997), a escritora indiana lança agora o que uma crítica do The Times definiu como o livro pelo qual os fãs de Roy esperavam: a autobiografia que parte da morte da mãe — inspiração de personagens da autora — para recontar sua própria vida. 

Publicado originalmente, no final de 2025, como Mother Mary Comes to Me, o título em português pega emprestada uma definição da autora de quem foi sua mãe: 

Talvez mais ainda do que uma filha chorando a morte da mãe, eu a chore como uma escritora que perdeu o mais apaixonante dos seus temas. Nestas páginas minha mãe, minha gângster, viverá. Ela foi meu abrigo, e minha tormenta.

A ressaca que a morte — e a vida — dessa mãe causou à filha é o fio condutor da história, que começa nos anos de infância, na década de 60, e chega aos dias de hoje, com a escritora sexagenária. Cheia de desvios, a narrativa passa pela adolescência, os anos na escola de arquitetura em Délhi, pelo primeiro amor, casamentos, a carreira no cinema antes de se tornar a renomada escritora, vencedora do Booker Prize em 1997 com seu romance de estreia, O Deus das pequenas coisas, e figura de resistência política, autora de longos ensaios políticos que abordam questões que assolam a Índia nas últimas décadas.

Quem gosta de autobiografias sobre relações familiares pode apreciar os casos da família Roy: além de sua mãe, a Sra. Roy, conhecemos seu irmão LKC, a quem o livro é dedicado e que ela diz ser o único que deve ter sofrido mais com a mãe do que ela — ele discorda. Há também seu tio G. Isaac, um gordinho excêntrico e mimado; seu pai Micky Roy, apelidado assim por conta das orelhas, e que a filha só veio a conhecer aos vinte e cinco anos; sua avó tocadora de violino, e todas as brigas entre eles — inclusive as que chegaram à Suprema Corte do país. 

A família infeliz à sua maneira rendeu à escritora enorme coragem e liberdade

Como mãe, a Sra. Roy falhou miseravelmente. A filha descreve que tinha como companheira constante uma mariposa fria e peluda pousada no coração, que batia as asas toda vez que pressentia um ataque da mãe direcionado a ela. Poderia ser mais fácil detestá-la se a Sra. Roy não fosse também uma mulher extraordinária. Sozinha (ela largou o marido alcoólatra), criou os filhos e fundou uma escola, desafiou a própria família e o Estado indiano e levou uma mudança à legislação do país. (Anos depois de contestar a Lei de Sucessão Cristã de Travancore e exigir uma parte igual à do irmão na herança de seu pai — que ganhou —, abriu uma petição na Suprema Corte alegando que a lei era inconstitucional.)

Aos dezoito anos, após mais uma cena de humilhação pública por parte da Sra. Roy, na frente de alunos da escola, Arundhati jurou que aquela seria a última vez. Saiu de casa rumo a Délhi. “Deixei minha mãe não por não amá-la, mas para preservar esse amor”, escreve. As distâncias são contadas como antigamente: 

Délhi ficava a três dias e duas noites de trem de Cochin, que fica a três horas de carro da nossa cidade, Kottayam, que por sua vez fica a alguns quilômetros do nosso povoado, Ayemenem, onde passei minha primeira infância.

Apesar da distância física e dos anos sem ter falado com a mãe, esta seguiu uma presença constante em sua vida, além de ser sua leitora e, de certa forma, apoiadora. “Ela pairava acima de mim como um anjo de ferro sem afeto. O deslocar metálico das suas asas de ferro me estimulava a comprar as brigas grandes, não as pequenas.”

Quando Arundhati venceu o Booker Prize por O Deus das pequenas coisas, a única pessoa para quem ligou foi a mãe, que estava acordada assistindo à premiação na tv e lhe disse “Meus parabéns, filhinha”. A expressão, usada com parcimônia, foi a mesma que a Sra. Roy usou para se despedir da filha quando ela lhe telefonou antes de se apresentar na Suprema Corte para responder por difamação devido a uma passagem do mesmo livro.

Essa família infeliz à sua maneira também rendeu a Arundhati enorme coragem e liberdade — visíveis nas decisões que tomou, nas fortes relações que construiu e, na vida adulta, assumindo uma postura de arruaceira contra qualquer instituição ou ordem.

Quanto mais eu era caçada como uma inimiga da pátria, mais certeza tinha de que a Índia era o lugar que eu amava, o lugar ao qual pertencia. Onde mais eu poderia ser a arruaceira que estava me tornando? 

Caminhos

Dividida em 42 capítulos curtos, a autobiografia é narrada cronologicamente, e a leitura flui tanto por suas histórias envolventes quanto pela linguagem com frases pontuadas por adjetivos precisos, traduzidas por Fernanda Abreu. Também embala a leitura o senso de humor da autora, ingrediente útil para aceitar a mãe e outras cartas que a vida lhe deu. 

Arundhati percorre caminhos sinuosos como o rio Meenachil, no qual ela passava as tardes de infância. Nos desvios, somos informados do contexto histórico e político da Índia das últimas décadas, tema de ensaios cujos bastidores ficamos conhecendo, como sua passagem pelos vales do Narmada e da Caxemira. “Se o vale do Narmada realinhou minha estrutura óssea, o vale da Caxemira revirou meu coração”, conta, lembrando que nada do que vemos nas notícias nos prepara para as injustiças da realidade.

Quem nunca leu Arundhati encontra em Meu abrigo, minha tormenta um ótimo lugar por onde começar. Quem já leu seus romances pode conhecer a história de vida da escritora e o ambiente afetivo que moldou seu universo, além de ter contato com as figuras que inspiraram seus personagens — e que também liam sua ficção e não ficção: “A Sra. Roy acompanhava de perto a minha escrita, sem nunca deixar passar nada. [] e não precisava que eu a alertasse sobre em que andava metida. Eu sentia isso como amor”. 

Como sabemos desde a primeira página, a Sra. Roy não chegará a ler o livro. Só resta imaginar o que essa mãe acharia disso tudo.

Quem escreveu esse texto

Beatriz Muylaert

Jornalista e editora executiva da Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #109 em agosto de 2026. Com o título “O mais apaixonante dos seus temas”