Flip,
Escrever ficção é buscar a ‘verdade emocional’, afirma Eduardo Halfon
Autor guatemalteco conversou com a argentino-brasileira Paloma Vidal sobre a ficcionalização de memórias, deslocamentos e traumas
25jul2026Os deslocamentos entre países e línguas marcam as trajetórias dos escritores Eduardo Halfon e Paloma Vidal, que abriram a programação de sábado (25) da Flip 2026 com uma conversa mediada pela jornalista Gabriela Mayer.
Nascido na Guatemala em 1971, Halfon se mudou aos dez anos para os Estados Unidos com a família, fugindo da guerra civil em seu país. Filha de exilados políticos da Argentina, Vidal veio para o Brasil aos dois anos, no fim da década de 70.
Nos romances O boxeador polonês (trad. Silvia Massimini Felix, Autêntica Contemporânea), de Halfon, e O lado de lá (Bazar do Tempo), de Vidal, memórias de infância, traumas e deslocamentos são ficcionalizados, o que para o autor guatemalteco os torna mais “verdadeiros”. “Quando tudo é verossímil, a ficção se torna não o real, mas uma verdade extática e emocional”, disse.
Para Vidal, cuja família sentiu na pele a perseguição da ditadura militar argentina, a ficção não deve estetizar o trauma, mas procurar imagens. “Isso faz parte desse trabalho coletivo de memórias. Logo entendi que eu tinha a tarefa de escrever essas memórias.”
Língua mátria
“Vivo em trânsito entre o português e o espanhol”, disse a escritora, para quem os dois idiomas são, como Brasil e Argentina, irmãos próximos, mas com várias tensões. “Quando entrei na escrita, queria trabalhar essas tensões.” O espanhol é o universo infantil, familiar, “da brincadeira e do humor”. Mas também a língua do medo e trauma: “Pessoas que já dormiram comigo me disseram que tenho pesadelos em espanhol”.
No caso de Halfon, esquecer o espanhol para aprender o inglês foi uma estratégia de sobrevivência quando se mudou para os Estados Unidos. “Linguagem é como um escafandro que você coloca para respirar.”
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Ao voltar para a Guatemala, país que já não mais conhecia, começou o processo de reaprendizado da língua materna, recuperada quando o escritor tinha 18 anos. “Caí na literatura por acidente. Escrevia em espanhol, não sei o motivo, porque pensava em inglês.”
“A língua da infância foi uma forma de entender o trauma, a ruptura que se deu em meu país”, disse. Segundo Halfon, ele buscava no espanhol evidências do que tinham sido seus primeiros anos de vida. E passou a escrever o que chamou de “livros proibidos”: histórias da sua família, sobre as quais ninguém deveria falar, e que o levaram a ser “cancelado” por parentes.
Para Halfon, nada é mais estimulante para um escritor do que o interdito. “Se sinto que querem me proibir, sei que devo escrever.”
Flip 2026
A 24ª Flip acontece de 22 a 26 de julho e homenageia a poeta paulista Orides Fontela. Leia mais sobre a Flip 2026.
