Flip,
Carmen Stephan e Ernesto Mané entrelaçam literatura e traumas pessoais
Autores da Tinta-da-China Brasil discutiram o uso da escrita para buscar respostas sobre a experiência com a doença, um pai ausente e a ancestralidade
23jul2026Como a escrita literária pode destravar uma busca mais profunda por respostas sobre questões tão diversas quanto a saúde, a família e a ancestralidade? Essa pergunta guiou a conversa dos escritores Carmen Stephan e Ernesto Mané com o editor da Quatro Cinco Um Paulo Werneck na manhã desta quinta-feira (23), na Pousada Literária, durante a 24ª Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip.
Stephan e Mané participam também da programação principal do evento. Ela sobe ao palco do Auditório da Matriz na sexta (24), na mesa “Água parada água parada água parando”, enquanto ele estará na mesa “A porta está aberta”, no domingo (26).
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Alemã radicada na Bahia, Stephan é autora de Malária: um romance, no qual narra a saga de quando contraiu a doença após uma viagem à Amazônia, em 2003, e passou por diferentes médicos até obter o diagnóstico correto. Em outro périplo, Mané relata em Antes do início sua procura pelas origens paternas na Guiné-Bissau. Os dois livros foram publicados pela Tinta-da-China Brasil, selo editorial da Associação Quatro Cinco Um.
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“Sempre foi um sonho fazer o livro chegar no Brasil. Aqui é o lugar dele”, disse Stephan, que publicou o romance na Alemanha em 2012 e por ele venceu os prêmios Jürgen Ponto-Stiftung de Literatura e Buddenbrookhaus. A edição brasileira teve tradução de Claudia Abeling.
A autora contou que, no início, não queria mais saber da história. “Foi uma coisa que me traumatizou um pouco, chegar perto de morrer, sentir esse limite”, lembrou. “É um processo. Senti que essa experiência provocou tantas perguntas essenciais que unem todo mundo, são as perguntas da vida, da existência, da causa humana.”
O grande diferencial de Malária é a narradora: a fêmea de mosquito que picou Carmen Stephan. Ela recordou, inclusive, a crise pela qual passou quando um primeiro editor a aconselhou a trocar de narrador com metade do romance escrito. “Você deveria escrever ‘eu’, ele disse. Fiquei desestabilizada.” Foi durante uma viagem ao Quênia, para visitar um casal de amigos e refletir sobre os rumos do livro, que a autora teve a epifania que se transformou no trecho de abertura:
Aprendam a me conhecer. Todo bando precisa de um cérebro que o guie. Me chamem de ponto preto. Quando a noite cai, as pessoas encolhem e os mosquitos crescem. Notem as sombras nas paredes, as antenas, as pernas, os longos palpos. Me escutem cantar do canto mais escuro do quarto. Adormeçam. Baixem a guarda. Cheguei.
“Estava dormindo à noite, debaixo do mosquiteiro, acordei suando. Tive tanto medo que podia ser picada de novo, lá tinha malária, e chegaram essas palavras. Peguei um papel e anotei. Soube que esse seria o início do livro”, contou ela.
Família e colonialismo
O livro de Mané, que é físico e diplomata, também nasceu de uma viagem. Ele foi à Guiné-Bissau entre o fim de 2010 e o início de 2011 para conhecer a história de sua família paterna. Seu pai veio ao Brasil logo após a independência do país, também uma ex-colônia portuguesa, em 1973. Criado pela mãe após um divórcio litigioso, Mané passou grande parte da infância e adolescência sem notícias dele.
O autor registrou suas impressões de viagem em um diário, que passou anos engavetado até que a pandemia de covid-19, em 2020, o levou a transformar as anotações em livro. “Honestamente, foi o medo da morte que me fez retirar o livro da gaveta”, lembrou.
Mané citou uma certa “experiência antropofágica” ao analisar seu processo de escrita. “Eu estava buscando um certo essencialismo, uma conexão profunda com uma África imaginada, e eu vi uma África diferente.”
As vivências do autor como físico — com passagens por laboratórios de ponta na Suíça e no Canadá — e como diplomata — atualmente lotado em Buenos Aires — se entrelaçam no livro, que vai além das questões pessoais relacionadas à família.
“Eu estava acostumado com laboratório, com cálculo, não tinha feito esse mergulho na minha própria subjetividade”, disse. Ao fazê-lo, ele se deparou com temas como o papel do pai no processo de independência da Guiné-Bissau — lutando do lado de Portugal.
“Meu pai era muito jovem quando foi alistado para servir as forças coloniais portuguesas. Quando falam que ele é traidor da pátria, na verdade não existia pátria guineense. Eu, pessoalmente, queria que meu pai tivesse lutado ao lado dos revolucionários, é um pouco frustrante ver ele lutando ao lado do colonizador, mas isso fazia parte do projeto do império ultramarino português”, afirmou Mané.
Flip 2026
A 24ª Flip acontece de 22 a 26 de julho e homenageia a poeta paulista Orides Fontela. Leia mais sobre a Flip 2026.
