O ex-líbris do alemão Hanns Igler (c.1450) (Reprodução)

Bagagem Literária,

Dos livros de alguém

Os ex-líbris atravessaram séculos e continentes e chegam em alta à era do BookTok

16jul2026

Cecília Meireles tinha o seu, assim como tinham o modernista Mário de Andrade, o francês Victor Hugo e até Malba Tahan, heterônimo de Júlio César de Mello e Souza. Afora os escritores, colecionavam alguns o aviador Santos Dumont, a Viscondessa de Cavalcanti e o ex-presidente Getúlio Vargas, que guardou o seu único, sem uso, depois de ganhá-lo de estudantes argentinos. Com sua natureza eclética, os ex-líbris atravessaram séculos e continentes para chegar cheios de popularidade à era do BookTok, com fãs, colecionadores e até encontros anuais de entusiastas. 

Os ex-líbris são marcas de propriedade colocadas nos livros, geralmente por meio de uma etiqueta, carimbo ou gravura. Seu nome deriva da expressão em latim, que significa “dos livros de”. As imagens tendem a reunir elementos que, quando combinados, remetem ao dono do exemplar selado. Ilustrações de livros abertos são uma metalinguagem recorrente, claro, mas também aparecem corujas, caveiras, brasões, flores, castelos, animais mitológicos, instrumentos musicais e referências profissionais.

Esse inventário é fruto da pesquisa de Mary Komatsu, bibliotecária aposentada com carreira no Museu Nacional de Belas Artes (MNBA) e na Rede de Bibliotecas e Centros de Informação em Arte (Redarte), no Rio de Janeiro. No Instagram e no YouTube, ela é a Caçadora de Ex-líbris, perfil que usa para divulgar a história dessa tradição. “Podemos observar que cada símbolo é uma autobiografia silenciosa”, afirma a pesquisadora, cujo ex-líbris mescla a Vitória de Samotrácia (escultura alada e sem cabeça exposta hoje no Museu do Louvre), borboletas, um pinheiro, um pincel e um livro aberto.

O ex-líbris da pesquisadora Mary Komatsu (Acervo pessoal)

Entre 1986 e 2019, em sua rotina no MNBA, Komatsu se deparava com os registros de propriedade em guardas de livros (as folhas entre a capa e o miolo). Ficou fascinada. Entendia que eram fragmentos de histórias pessoais, trajetórias de colecionadores e pistas sobre a circulação dos exemplares ao longo do tempo. Em 2018, veio o ponto de virada: a exposição “Dos livros: Ex-libris nas coleções do MNBA”, uma narrativa virtual que apresentava a história dos itens. 

Não há uma definição precisa da data e do local de origem do primeiro ex-líbris do mundo, mas pesquisas mapeiam marcas de propriedade desde 1400 a.C. no Egito, com o indicativo de posse do faraó Amenófis 3º em uma tampa de caixa, exposta atualmente no Museu Britânico, em Londres. Carimbos de propriedade também foram encontrados nas ruínas da Biblioteca de Nínive, na antiga Assíria. Hoje no Museu do Vaticano, uma efígie de 1188 do imperador alemão Frederico 1º é considerada uma antecessora do ex-líbris.

A xilogravura de um ouriço é apontada como o ex-líbris gravado mais antigo de que se tem notícia, pertencente ao alemão Johannes Knabensberg, conhecido como Hanns Igler (João Ouriço, em português). Estima-se que tenha sido produzido por volta de 1450. Sobre o animal, uma faixa avisa: Hanns Igler das dich ein Igel kuss (Hanns Igler, que um ouriço te beije).

Marcas de propriedade precursoras das peças datam de 1400 a.C., no Antigo Egito

“A mensagem tinha um tom bem-humorado, mas também funcionava como um aviso nada sutil: quem se apropriasse indevidamente do livro poderia sair ferido pelos espinhos. Isso é fascinante do ponto de vista histórico”, diz Komatsu. “Antes mesmo do surgimento dos ex-líbris impressos, muitos manuscritos medievais já traziam inscrição de posse com tom ameaçador”, explica. “Algumas advertências diziam que quem roubasse, escondesse ou não devolvesse um livro poderia ser amaldiçoado, excomungado ou sofrer punições divinas. Era uma forma bastante dramática e criativa de proteger obras que, naquele período, eram raras e extremamente valiosas.”

Entre os ex-líbris datados, o mais antigo é o do diplomata e historiador alemão Hieronymus Wilhelm Ebner von Eschenbach, fundador da Bibliotheca Ebneriana — em 1516, ele contratou o gravurista e pintor Albrecht Dürer, famoso artista do Renascimento nórdico, para desenvolver uma peça com a inscrição Devs refugivm mevm (Deus é o meu refúgio). 

Pioneiros

Manuel de Abreu Guimarães, provedor da Santa Casa de Sabará, em Minas Gerais, foi o primeiro dono de um ex-líbris feito no Brasil. Hoje preservada na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, a peça — que data de meados de 1790, tem sete por seis centímetros e simboliza o culto das artes e do comércio — foi gravada com buril e elaborada pelo padre José Joaquim Viegas de Menezes, pintor, ceramista e gravador que viveu em Vila Rica, a atual Ouro Preto.

Foi Barão do Rio Branco (1845-1912) o primeiro colecionador brasileiro de ex-líbris. Reuniu seu acervo de uma forma que os pesquisadores consideram peculiar: colava os itens nas páginas de um livro escrito pelo bibliófilo francês Auguste Poulet-Malassis, Les ex-libris français depuis leur origine jusqu’à nos jours (Os ex-líbris franceses desde a sua origem até os nossos dias), obra de referência que documenta a trajetória dos ex-líbris na França. Hoje, a coleção está na biblioteca do Palácio Itamaraty.

“Nos séculos 16 e 17 predominavam brasões heráldicos ligados à nobreza e ao poder. O ex-líbris funcionava quase como extensão do status familiar”, afirma Komatsu. “Com o tempo, especialmente com a art nouveau e depois com o modernismo, vemos uma ruptura: entram elementos mais subjetivos, profissões, hobbies, referências literárias, humor e até traços psicológicos. É nesse momento que o ex-líbris passa a revelar mais claramente a individualidade do leitor.” 

Ex-líbris de Martha Bowen Kershaw (1915), de Aubrey Beardsley (c. 1897) e de William Loring Andrews (1902) (The New York Public Library/Reprodução; National Digital Library of Poland/University of Toronto Libraries/Reprodução; Auckland Museum/Reprodução)

Embora não haja uma escola brasileira de artes em ex-líbris propriamente dita, a exemplo do que pesquisadores reconhecem em países como Alemanha e Portugal, é certo dizer que o Rio de Janeiro teve papel fundamental na trajetória nacional. “Por ter sido capital do país e um importante centro editorial, artístico e intelectual, a cidade concentrou grandes bibliófilos, colecionadores, gravadores e instituições culturais que ajudaram a difundir o ex-librismo no Brasil”, avalia Komatsu.

Em 1940, aficionados criaram a Sociedade de Amadores Brasileiros de Ex-líbris, que organizou, dois anos depois, a primeira exposição de ex-líbris do país. O evento aconteceu no Museu Nacional de Belas Artes, que sediou, em 22 maio, o 2º Encontro de Ex-librismo, com o tema “Ex-líbris: arte miniatura e memória gráfica no Brasil contemporâneo”. 

A mostra integrou a 24ª Semana Nacional de Museus. Dias antes do evento, a oficina de criação de ex-líbris em xilogravura já tinha as vagas esgotadas. Sucesso no encontro, os carimbos também estão em alta nas redes sociais. A ilustradora e desenhista Rebeca Catarina, por exemplo, criou o perfil Bex Libris no Instagram, durante a pandemia, e desde então já executou mais de 2 mil projetos. 

“No começo, muitas pessoas que vinham encomendar nem sabiam o que significava ex-líbris; às vezes achavam que era o nome da minha ‘marca’. Algumas chegavam pelo interesse na ilustração personalizada, outras pela ideia de marcar livros”, conta. “Hoje sinto que existe um interesse bem mais amplo pelas etiquetas — pelo valor gráfico e afetivo delas.”

Catarina cria as ilustrações em conjunto com o cliente e adapta o estilo do desenho a depender da ideia. Conta que antes se inspirava nos ex-líbris antigos, clássicos e art nouveau, mas entendeu que a prática limitava seu processo criativo. “Como ilustradora, eu já carrego muitas referências visuais, então naturalmente vou beliscando referências de diferentes lugares. Hoje geralmente pesquiso mais quando aparece um pedido muito específico ou um tema e universo muito particulares.”

Preservação

Há acervos relevantes de ex-líbris no Brasil. A Biblioteca Nacional concentra um dos maiores, com aproximadamente 10 mil itens, incluindo a coleção de Floriano Bicudo Teixeira — organizada em doze caixas, por ordem alfabética — e o patrimônio de Diogo Barbosa Machado e o do Conde da Barca, além do ex-líbris do pioneiro Manuel de Abreu Guimarães.

Na Biblioteca Central da Universidade de Brasília são cerca de 5 mil exemplares. Na Biblioteca Pública do Paraná é possível ver a coleção de Ely de Azambuja Germano, adquirida em 1982, com 3.317 ex-líbris nacionais e estrangeiros, incluindo peças raras. No Museu Imperial são cerca de 135 exemplares, incluindo um atribuído a Teresa Cristina de Bourbon-Duas Sicílias, esposa de Pedro 2º e imperatriz consorte do Brasil de 1842 até a proclamação da República. 

Os ex-líbris muitas vezes revelam leitoras e intelectuais apagadas das narrativas tradicionais

Encontrar um ex-líbris pertencente a uma mulher, aliás, é sempre simbólico, afirma Mary Komatsu. “Eles evidenciam mulheres leitoras, colecionadoras, intelectuais e profissionais que muitas vezes foram apagadas das narrativas tradicionais. É muito significativo justamente porque revelam desigualdades históricas no acesso feminino à educação, ao patrimônio e à formação de bibliotecas particulares.”

Para a bibliotecária, os ex-líbris são peças-chave nos estudos de proveniência e história do livro, e agregam valor histórico aos exemplares. Ainda assim, ela acredita não haver no Brasil uma política de aquisição bem definida para o recebimento de ex-líbris avulsos provenientes de colecionadores, nem instrumentos consolidados de catalogação e classificação, o que gera dúvidas no tratamento técnico dessas peças.

Apesar disso, ela afirma, é possível observar avanços relevantes. “Projetos como o repositório de marcas de proveniência da Biblioteca Rio-Grandense, o Signa Amazoniana e a iniciativa Os ex-líbris da Coleção Mindlin: documentação e difusão, vinculada à Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, mostram que as instituições brasileiras estão começando a olhar com mais atenção para a documentação, a digitalização e a difusão dessas marcas de proveniência.”

Quem escreveu esse texto

Marcella Franco

É jornalista e escritora.

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