Literatura brasileira,
Alô, Ruth?
Autora de Marcelo, marmelo, martelo e mais duzentos títulos, Ruth Rocha revolucionou a forma de escrever para as crianças
04dez2025 • Atualizado em: 01jan2026 | Edição #101O telefone no apartamento da rua José Maria Lisboa, no bairro Jardim Paulista, em São Paulo, toca todo dia no mesmo horário. A escritora Ruth Rocha, de 94 anos, sabe quem está do outro lado da linha. É sua irmã Rilda, de 96, pronta para a história do dia. Por cerca de uma hora, Ruth ouve Rilda ler um livro escolhido pelas duas.
O hábito, que já dura anos — e mais de sessenta livros, como Guerra e paz e Os irmãos Karamázov —, faz Rilda sorrir e chamar a dupla de desocupada. O gracejo é ameno se comparado àquele com que Rilda começa a conversa sobre a irmã. “Brinco que queria morrer antes da Ruth, porque eu não aguentaria viver sem ela”, diz.
Um mundo em que Ruth Rocha existe é definitivamente melhor. Ela tem duzentos livros publicados, 40 milhões de exemplares vendidos e obras traduzidas para mais de 25 idiomas. Desde 2009, Ruth tem contrato com a editora Salamandra, do grupo Santillana, e, no final de 2024, renovou o acordo por mais quinze anos.
Em 2023, Ruth chamou O grande livro dos macacos (Salamandra), escrito durante a pandemia, de sua história derradeira. Ela ensaiou pequenos textos aqui e ali, a pedido da editora, mas vem seguindo a resolução porque entende que não sente mais a inspiração fluir — algo impensável para alguém que se virava quando a filha pequena a provocava com desafios como “Agora eu quero uma história sobre um copo” e “Agora eu quero uma história sobre aquela lâmpada”.
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Ruth Sampaio Machado nasceu em março de 1931, no bairro da Vila Mariana, em São Paulo. O pai, o carioca Álvaro de Faria Machado, era médico proctologista formado na primeira turma da Escola de Medicina da Praia Vermelha. Álvaro tinha um irmão, Aurélio, que trabalhava em São Paulo como presidente da Moinho Inglês, empresa que fabricava os biscoitos Aymoré. Mesmo completamente instalado na capital paulista, Aurélio ainda confiava a saúde dos intestinos ao irmão, que viajava só para atendê-lo em casa. De olho no mercado promissor do outro lado da Dutra, Álvaro se mudou também, junto com a esposa, Esther Coelho de Sampaio Machado.
Esther era filha de Francisco, o vovô Ioiô, figura emblemática na família. Quando Ioiô prestava serviço militar, um canhão estourou ao seu lado, danificando de maneira definitiva um dos ouvidos. Ele deu baixa no Exército e seguiu com ocupações módicas ao longo da vida, até se aposentar relativamente cedo. O ócio, por sorte, abriu espaço para a faceta mais marcante: a de contador de histórias.
Inspiração
Ruth diz que foi o avô Ioiô uma de suas maiores inspirações para se tornar escritora. “Ele contava histórias muito, muito bem, e editava a história, porque mexia uma coisinha aqui, outra coisinha ali. Adorava botar coisas que se passavam na Bahia. Branca de Neve e Cinderela, por exemplo, passavam pela Bahia em algum momento”, lembra Ruth, numa tarde de agosto em seu apartamento em São Paulo.
Rilda e Ruth já eram grandes quando nasceram Álvaro Machado Filho, Eliana Machado e Alexandre Machado, os outros filhos do casal Álvaro e Esther. “Minha mãe e meu pai eram muito apaixonados. Eles eram muito amigos, eram muito bons pais”, diz Ruth. O caçula, Alexandre, que viraria jornalista, é de 1945, ano em que Ruth completou catorze anos. Com a chegada de mais crianças, a família se mudou para uma casa espaçosa no número 2133 da avenida Rebouças, onde pessoas ainda passavam a cavalo.
Filha única e curadora da obra da mãe, Mariana Rocha deu sequência à história: “Minha mãe tem muito respeito e consideração pelas pessoas de maneira geral e pelas crianças em particular. Ela viveu um momento em que a criança era pouco valorizada pelos pais e pela escola, mas a família dela é maravilhosa”, conta Mariana. “Ela era criança durante a Segunda Guerra e seu pai mostrava no mapa, semana a semana, onde estavam as tropas, o que estava acontecendo. Era uma época em que as mulheres não tinham importância e ali eram duas meninas; ainda assim, suas ideias e opiniões eram tratadas com respeito. Sempre houve muita conversa na mesa e todas as crianças da casa eram ouvidas.”
Quando tinha treze anos, Ruth soube por Antônio Soares Amora, seu professor de literatura no Colégio Bandeirantes, que era possível “tirar livros” em uma biblioteca circulante no centro da cidade. Foram ela e Rilda num ônibus até a praça Dom José Gaspar. Voltaram carregadas de obras com temas variados, porque, como não cansam de lembrar as irmãs, “não havia censura em casa”.
Poucos anos depois, Rilda passou no curso de letras, embora não amasse a área, e Ruth foi fazer sociologia. Um dia, a irmã mais velha assistiu, sem compromisso, a uma aula de política inglesa no curso de Ruth e saiu fascinada. Decidiu que nunca mais falaria de gramática e foi estudar com a irmã, que seguiu um ano à frente. “Ai, a sociologia. Eu fui fazer isso e não sei por quê. Adoro as matérias que estudei lá, mas eu não tinha temperamento para aquilo. Eu tinha temperamento para escrever”, conta Ruth.
Os personagens que criou têm a imaginação valorizada e as opiniões sempre ouvidas
Certa tarde, apareceu na faculdade um rapaz alto e bonito. Chamou a atenção de Rilda, que pensou se tratar de um ator da TV. Os dois viraram colegas de classe, o que evoluiu para uma amizade, e ele passou a frequentar a casa dos Machado para fazer trabalhos e estudar para as provas. Ruth se lembra dessa época: “Eu olhava, olhava, e um dia ele reparou”.
“Dali a uns dias, ele me convidou para sair. Fomos tomar um martíni na porta do bar do Theatro Municipal. Um casal de amigos que já estava namorando nos encontrou do lado de fora e falou que tinha uma festa junina de uma moça da faculdade, mas descobrimos que ela só tinha convidado os rapazes. Então, fomos dali todos juntos para uma boate.”
Ruth tinha vinte anos e Eduardo Lousada Rocha, 22. “Tão novinhos. E sabe como ele me pediu em casamento? Nós estávamos na rua de mãos dadas, ele falou ‘Você já pensou que isso pode dar em casamento?’ — e eu falei que sim. Ele perguntou ‘Você topa?’ — e eu falei que sim. Ele era assim.” Mariana nasceu sete anos depois. “Evitamos, evitamos, evitamos, até que um dia não evitamos”, ela conta, rindo.
Depois de se pós-graduar em educação, Ruth foi trabalhar como orientadora no Colégio Rio Branco. Lá, fez amigos que a apresentaram para a baiana Sonia Robatto, então diretora da revista infantil Recreio, criada em 1969 pela Editora Abril com o lema “Leia e Pinte, Recorte e Brinque”. No oitavo número, Ruth embarcou no projeto para fazer a gestão pedagógica. Antes disso, tinha escrito artigos sobre educação para a revista Cláudia, em 1967.
Um dia, Robatto — que tinha ouvido como Ruth enfrentava os desafios da filha Mariana com enredos sobre copos e lâmpadas — botou a colega de frente para uma pilha de papéis em branco e provocou: “Agora escreve uma história para a Recreio”. Saiu “Romeu e Julieta”, sobre borboletas de cores diferentes que não podiam brincar juntas. Foi publicada primeiro em fascículos na revista e depois virou livro pela Abril Cultural, em 1976.
No mesmo ano, nasceria o garoto que mudou a vida de Ruth.
Menino revolucionário
De cabelo tigela e camisetinha polo, nas ilustrações do italiano Adalberto Cornavaca, Marcelo, marmelo, martelo é um menino que cresceu questionando tudo até que encasquetou com os nomes que as coisas têm. Revolucionou a literatura infantil do país no período da ditadura militar.
Antes de Marcelo, marmelo, martelo, os livros para crianças eram moralizantes e didáticos. Ruth Rocha apresentou uma narrativa leve, que valoriza a imaginação da infância e dá aos pequenos um lugar de destaque raramente experimentado antes. Como acontecia com os meninos e meninas na casa da sua família, as personagens que Ruth criou têm a imaginação valorizada e as opiniões sempre ouvidas. “Acho que o Marcelo tem uma coisa que a criança gosta muito, que é o humor. Mas, se eu soubesse por que deu tão certo, eu faria outro igual!”, brinca.
Marcelo, marmelo, martelo já vendeu 20 milhões de cópias. Virou disquinho de vinil na década de 80 e série audiovisual em 2023. Além dele, entre as duas centenas de títulos criados por Ruth em quase cinquenta anos de literatura, fizeram muito sucesso O reizinho mandão, Dois idiotas sentados cada qual no seu barril, Ninguém gosta de mim, Meus lápis de cor são só meus e Escrever e criar. Entre os prêmios, só de Jabuti foram oito.
Os netos Miguel, 31, e Pedro, 27, demoraram para perceber que, no imaginário popular, a avó não era só deles. “A maioria das lembranças boas da infância são com ela. Mais velho é que fui perceber o quanto ela tocou a vida das pessoas”, diz Miguel.
“No shopping, às vezes aparecia alguém, geralmente uma mãe ou professora, e vinha falar o quanto gostava da minha avó. Esse foi o primeiro contato que tive com a fama dela. Mais velho, eu lembro de achar divertido contar para os outros quem era a minha avó, porque sabia que ia causar uma reação de espanto”, conta Pedro.
Hoje, o neto mais novo vai à casa da avó pelo menos três vezes na semana. No quarto de Ruth, viúva desde 2012, ele lê em voz alta por uma hora. Estão no décimo 18° título. Pedro também ajuda na operação dos dois tablets em que Ruth joga sudoku, faz palavras cruzadas e ouve músicas no Spotify — de preferência de Paulo Vanzolini e Chico Buarque. Na galeria de fotos favoritas do dispositivo, um retrato antigo em preto e branco mostra ela ao lado do marido, que segura Mariana pequenininha no colo.
“Meu medo não é morrer, é sofrer. Não quero ficar no hospital, cheia de coisa me cutucando, Deus me livre”, diz Ruth sobre o futuro. Por ora, os compromissos a curto e longo prazo seguem mantidos. Se a inspiração vier, o contrato estará assinado. E, se o telefone tocar, seguramente será Rilda do outro lado da linha, a postos com as páginas que ainda restam do livro da vez — em agosto, era a saga de um historiador italiano derrubando mitos da tradição culinária de seu país.
Matéria publicada na edição impressa #101 em janeiro de 2026.
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