Literatura brasileira,
O cetáceo do sertão
Publicado no mesmo ano de Grande sertão: veredas, Corpo de baile é suficiente para mostrar a grandeza de Guimarães Rosa
01ago2026 | Edição #108Se o Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, fosse a Grande Pirâmide do Egito, então Corpo de baile seria a Esfinge de Gizé. Um monumento que lhe é próximo, estranhamente híbrido e não menos misterioso.
Lançado em 1956, o livro composto por sete novelas ganhou arranjos diversos ao longo dos anos. A primeira edição teve dois volumes. A segunda veio em volume único, com texto cerrado e mais de quinhentas páginas. Daí em diante, a obra se desmembrou em trilogia.
Manuelzão e Miguilim (1964) traz duas histórias unindo as pontas da vida: infância e maturidade. (Rosa não viveu a velhice, pois morreu aos 59 anos, em pleno vigor.) “Campo geral” conta a infância do menino Miguilim, com tintas memorialistas do menino “Joãozito”; e “Uma estória de amor” mostra a maturidade do veterano Manuelzão, que organiza uma grande festa e se prepara para viajar com uma boiada. Mesmo assim, ele sofre o baque da idade e da solidão. A vida lhe furtou alguma coisa e isso o deixa amargo. Ele sente desejo carnal pela nora e também interfere, meio moralista, meio conservador, na convivência amorosa entre dois agregados da fazenda (o Velho Camilo e Joana Xaviel).
Os contos apresentam o lado lúdico do escritor mineiro, divertidamente experimental
No Urubuquaquá, no Pinhém (1965) reúne três narrativas mais distanciadas entre si do que as dos outros volumes. “A estória de Lélio e Lina” também junta duas pontas da vida, contando o afeto platônico entre um rapaz e uma idosa. “O recado do morro”, uma das histórias mais complexas de Rosa, traz uma expedição a serviço de um cientista estrangeiro, durante a qual várias pessoas sucessivamente tentam entender a frase que teriam ouvido ao passar pelo Morro da Garça — frase que sofre variadas interpretações e conduz a um final dramático.
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“Cara-de-Bronze” é talvez a narrativa mais experimental da obra, porque descreve a reunião de vaqueiros na fazenda do personagem-título, preparando a saída de uma boiada, e as histórias que contam entre si. O autor usa técnicas variadas de narração, inclusive peça de teatro e roteiro de cinema dentro da prosa, além da transcrição de longas listas de plantas e animais, o que dá ao conto uma feição catalográfica.
Noites do sertão (1965) traz duas histórias de fazendeiros. Soropita (“Dão-Lalalão”) e Iô Liodoro (“Buriti”) são homens maduros, donos de terras, e o centro de um sistema que gira com segurança. Mas nesse centro pulsa uma inquietação erótica que os justifica e perturba. Duas histórias sobre o poder, com direta tradução no poder sexual. E, no caso da primeira, sobre a insegurança masculina que acompanha necessariamente esse poder.
Experimentações
Duas das histórias de Corpo de baile foram adaptadas para o cinema: “Buriti” tornou-se Noites do sertão (1983), dirigido por Carlos Alberto Prates Correia, com roteiro dele e de Idê Lacreta; “Campo Geral” tornou-se Mutum (2007), dirigido por Sandra Kogut, com roteiro dela e de Ana Luiza Martins Costa.
A história de Miguilim tem elementos autobiográficos evidentes, como a miopia do garoto, que somente no final, ao pôr um par de óculos emprestados, percebe a beleza e os detalhes de tudo que o cerca. Isso já vem implícito numa das primeiras falas do conto: chegando de uma curta viagem que fez com o tio, Miguilim corre a dizer à mãe que o Mutum, onde eles moram, é bonito, porque lá fora todo mundo diz isso.
Essa necessidade infantil da confirmação e da aprovação externas percorre o conto e reforça a ligação de Miguilim, que é perceptivo mas ingênuo, com seu irmão Dito, que é um dizedor, um pequeno filósofo cheio de tiradas inteligentes e experimentais. São dois garotos preocupados com o medo da morte, com o pecado, com a mentira; preocupados com tudo que precisa passar pelo crivo indecifrável (e imprevisível) das ideias dos adultos.
Corpo de baile apresenta um lado lúdico de Guimarães Rosa, divertidamente experimental, essencial à sua personalidade, mas que não está tão presente no seu livro mais conhecido. Grande sertão é um romance trágico e sombrio, mesmo que temperado com momentos de intenso lirismo e com uma vibração emotiva profundamente humana. São poucos, no entanto, os momentos do livro em que sentimos o autor brincando, bricolando, dando piscadelas divertidas na direção do leitor, como viria a fazer com mais liberdade em Primeiras estórias (1962) e Tutameia: terceiras estórias (1967).
Publicado alguns meses mais cedo que o romance, Corpo de baile traz algumas dessas brincadeiras, que Rosa costumava fazer “senão eles acham tudo fácil” (“eles” são os críticos), conforme disse ao tradutor Paulo Rónai, seu amigo. Há um pouco desse espírito no “provocativo movimento” que ele executa nos índices propostos no livro, sugerindo classificações sempre diferentes para as sete histórias.
As primeiras edições vêm com o título Corpo de baile e o subtítulo sete novelas. E o índice do começo do volume diz: “Corpo de Baile — Os poemas”, seguido do título das sete narrativas, na respectiva ordem. Todas, portanto, são ao mesmo tempo novelas e poemas. No outro índice, que vem ao final do volume, lê-se:
I. “GERAIS”
(Os romances): “Campo Geral”, “A Estória de Lélio e Lina”, “Dão-Lalalão”, “Buriti”.
II. PARÁBASE
(Os contos): “Uma Estória de Amor”, “O Recado do Morro”, “Cara-de-Bronze”.
Parece ser uma classificação (romance vs. conto) baseada na extensão dos textos, embora “Dão-Lalalão” seja mais curto do que “Uma estória de amor”. Seria outro o critério ordenador? Pouco importa.
Rosa foi capaz de misturar os contos no índice de Tutameia para poder colocar em sequência três contos cujas iniciais eram as de seu próprio nome, JGR. Para não falar na inserção de quatro “prefácios”, que vinham em meio aos contos e não apenas antes. Era seu lado arlequinal, dado a trocadilhos, pequenos quebra-cabeças, cartas enigmáticas, enigmas figurados.
Quanto à parábase, Rosa indica um dos aspectos mais interessantes do livro. Parábase, no antigo teatro grego, era um recurso de, a certa altura, os atores saírem do personagem e se dirigirem ao público, solicitando comentários, opiniões etc.; e o próprio autor do texto também podia tomar essa iniciativa.
Se ‘Grande sertão’ não fosse publicado meses depois, as sete novelas teriam feito a fama do autor
O autor escolheu os três contos de sua “parábase” para fazer reflexões sobre a criação literária — incluindo-se aí o poema e a canção, pois ele é poeta bissexto (Magma e partes de Ave, palavra, ambos de publicação póstuma) e compositor-fantasma de numerosas quadras, trovas e cantigas que aparecem no corpo de seus textos ou como epígrafes.
“O recado do morro” narra o modo como fragmentos da fala aleatória da rua e da estrada, repetidos por gente de miolo mole, acabam sendo incorporados a uma canção e salvando uma vida. Rosa sugere, em “Cara-de-Bronze”, uma reflexão sobre a criação poética. E “Uma estória de amor” é uma apologia da contação de histórias, em que essa tradicional cerimônia comunitária, noturna, “em volta da fogueira”, ajuda um casal de idosos marginalizados a reafirmar sua pequena grandeza pessoal.
Guerra e paz
De acordo com o que diz Ana Luiza Martins Costa na edição sobre Rosa dos Cadernos de literatura brasileira do IMS, Corpo de baile foi escrito entre 1953 e 1955 e Grande sertão: veredas,entre 1954 e 1955. A ideia inicial de Rosa era um grupo de nove histórias, mas acabaram se desprendendo “As veredas mortas” (título de trabalho de Grande sertão: veredas) e “Meu tio o iauaretê”, que seria publicado apenas em 1961, na revista Senhor, e reunido em Estas estórias (1969).
Estendeu-se por apenas três anos a criação desses dois enormes livros. O autor referia-se a um deles como “um verdadeiro cetáceo” e ao outro como um “mastodonte”. É assustadora a quantidade, e a qualidade, de texto produzida por Guimarães Rosa nesse período, no Rio de Janeiro, após regressar, em 1951, de seu serviço na embaixada brasileira em Paris, para onde tinha sido transferido em agosto de 1948.
Há alguma ironia no destino de certos escritores. Por variadas razões, produzem um título que se populariza e se cobre de honrarias mais que os outros, eclipsando-os.
Se Grande sertão não tivesse sido publicado meses depois de Corpo de baile, esta coletânea de sete novelas teria bastado para lhe fazer a fama. Além da espantosa riqueza verbal e expressiva, desponta ali, longe das guerras jagunças, todo um outro universo de fazendas, famílias, crianças, prostitutas, cantadores, malucos, casais de namorados, festas e folguedos, mortes trágicas, conquistas amorosas, tipos pitorescos. Se Grande sertão: veredas nos mostra a guerra, Corpo de baile ensina o que é o sertão em tempo de paz.
Matéria publicada na edição impressa #108 em agosto de 2026. Com o título “O cetáceo do sertão”
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