Deslembramentos,
o não esquecimento
quem foi levado pelos seus personagens não se esquece deles: as cicatrizes das leituras são marcas que carregamos pela vida
07jul2026 | Edição #108“(…) Inventou a escrita
para nomear a cidade.”
paula tavares
caro Luandino,
às vezes penso na utilidade de vencer aquilo que seja a timidez ou algo parecido e simplesmente sentar e dizer as coisas
que nos vão na alma e na ponta dos dedos.
tempos houve em que os da minha geração o leram na escola. isso seria, assim, em nós, um começo com coisas sérias da literatura. ali se separavam as leituras e os leitores: quem voltasse aos seus livros era porque desejava estar um pouco mais no universo complexo dos seus conteúdos e da sua linguagem.
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com o tempo, aprendemos que esse “voltar aos seus livros” era o início de uma viagem elíptica. os mistérios não se suavizavam, o português, tão seu, era de uma aspereza poética e perturbadora. isso mais a doçura e as chicotadas do kimbundu.
quem privou consigo de perto terá também visto os gestos redondos das (suas) mãos, o olhar pueril cheio de futuros, a sabedoria no silêncio e no posicionamento das palavras. alguns de nós terão passado anos a pensar o que o Luandino terá feito com a sua escrita e a sua solidão em tempos de reclusão. alguns, poucos, tê-lo-ão incomodado com cartas em papel de escrever à mão na expectativa (humana) de receber uma resposta escrita pela sua própria mão. a letra desenhada, o esmero do desenho, a fugacidade do traço, os ecos da simbologia que reconhece quem pode.
não se esqueça, se for possível, que o nosso futuro ainda aguarda por mais palavras suas
hoje venho também dizer-lhe que esteja descansado: quem foi levado pelos seus personagens não se esquece deles. as cicatrizes das leituras, afinal, são marcas que carregamos pela vida. não lhe saberia dizer, nem com as melhores palavras ou munido da melhor sorte, a companhia e a aventurança que João Vêncio me proporcionou. não poderei, jamais, dizer-lhe do conteúdo e do prazer das horas gastas, entre riso e alumbramento, na companhia do camarada Michel Laban, enquanto fazíamos jogo de propor labirintos e chaves dos mistérios que reconhecemos ou reinventámos nos seus textos.
nós, os que viemos a nascer depois da independência, e os outros que nos seguiram nesse tempo dos anos 80 e, ainda, os mais recentes, pelo menos os que se movem em águas de alguma lucidez, estamos (minimamente) atentos e expectantes. desculpe se falo também por outros (mas sei que uns poucos me hão de desculpar) se eu lhe pedir que não se esqueça, se for possível, que o nosso futuro, o das pessoas e o do país, ainda aguarda por mais palavras suas. sim, queremos ler o desenho na areia pouco antes de ser apagado. para que exercitemos também a arte de não esquecer.
(…)
não sei se a sua obra chegou ao lugar que um dia pensou para ela, ou para si. mas que ninguém se engane: em qualquer parte do mundo, aquilo que são os seus “materiais literários” chegou ao lugar onde se fez e se faz a melhor literatura. pela sua personalidade e qualidade, sem dúvida. mas sobretudo pelo seu olhar inconfundível. a sua voz: única. isso, como sabem os deuses e os mais-velhos, está reservado a muito poucos.
obrigado por tanto lhe ter acontecido escrever ou dar-nos tudo aquilo que tanto nos tocou.
Matéria publicada na edição impressa #108 em agosto de 2026. Com o título “o não esquecimento”
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