Crítica Literária,
A literatura que atravessa a vida
Tatiana Salem Levy lança coletânea de ensaios sobre literatura publicados ao longo de quase uma década na imprensa
06jul2026Tatiana Salem Levy reúne, em Diga a coisa como ela é, mais de quarenta colunas publicadas no jornal Valor Econômico entre o fim de 2017 e o início de 2026, organizadas em sete blocos temáticos, que vão da relação com os pais à crítica ao trabalho, passando pela tragédia grega, pela literatura sobre racismo e pela ecocrítica amazônica. Como informa a autora, o título vem de Diderot e funciona como confissão de impossibilidade: o livro inteiro pode ser lido como uma longa tentativa de aproximação ao real através da literatura, sustentada pela consciência de que esse real escapa inevitavelmente.
A força do volume está menos na originalidade de cada argumento do que no método: Salem Levy lê tudo a partir de sua própria vida — a morte do pai, a maternidade, a morada em Lisboa, a discriminação sofrida no metrô — e, ao mesmo tempo, se recusa a transformar essa vida no centro de sua escrita. O ensaio sobre a biblioteca paterna e outro sobre O avesso da pele (Companhia das Letras, 2020), de Jeferson Tenório, mostram bem o procedimento: o que a autora viveu não ilustra a literatura, mas é atravessado por ela. O leitor termina o texto sem saber onde termina a crônica e onde começa a crítica — o que, aliás, a própria autora reivindica como projeto, ao recusar hierarquias entre os gêneros que pratica.
Essa porosidade tem um custo. Os ensaios funcionam melhor quando a autora deixa o objeto literário conduzir a reflexão — como nos textos sobre Édipo, Antígona, Bataille ou Rancière, em que há um trabalho real de leitura e de articulação conceitual — do que quando o livro comentado serve de pretexto para uma constatação já dada. Alguns textos sobre feminismo e violência de gênero, por exemplo, repetem teses que a própria autora havia formulado competentemente em ensaios anteriores do mesmo volume.
O que impressiona no conjunto é sua força e a coerência de tom e de posição política
O leitor reconhece o vocabulário (desejo, corpo, silêncio, escrita) antes mesmo de saber qual livro está sendo discutido. Não se pode perder de vista, todavia, que essa repetição é consequência inevitável de reunir num único volume colunas escritas semana a semana, com espaço limitado, durante quase uma década. O que impressiona nesse conjunto é sua força e a coerência de tom e de posição política —explicitamente feminista, antirracista, decolonial, atenta à crise climática.
O recorte mais consistente do livro são os terceiro e quarto blocos, sobre a literatura escrita por e sobre mulheres e a respeito das “narrativas do estranhamento”. Salem Levy articula com rigor autorias que aparentemente pouco têm em comum — Charlotte Perkins Gilman, Patrícia Melo, Alia Trabucco Zerán, David Diop, Joca Reiners Terron — em torno de perguntas que perpassam o livro: quem tem direito à voz e o que acontece quando essa voz é arrancada, cortada ou silenciada? O ensaio sobre Detalhe menor (trad. Safa Jubran, Todavia, 2021), de Adania Shibli, é um dos pontos altos do livro: a discussão sobre o “efeito de real”, do detalhe barthesiano, aplicado à Nakba evita tanto o sentimentalismo quanto a abstração. Salem Levy encerra o ensaio numa formulação precisa sobre o papel da literatura como produtora de testemunhas.
O bloco final, “Antes ou depois de nós”, talvez seja o mais arriscado e mais necessário. Ao discutir Carola Saavedra, Micheliny Verunschk, Vinciane Despret e Eliane Brum, Salem Levy realça uma literatura em que o ser humano não é protagonista — o que lhe exige vocabulário específico, mas sem recair em um jargão hermético. O ensaio sobre Banzeiro òkòtó (Companhia das Letras, 2021), relato de Eliane Brum sobre a Amazônia, termina com uma pergunta sincera e desconfortável: não levar o próprio corpo até a Amazônia, não se “amazonizar”, no sentido literal proposto por Brum, seria já uma forma de fracasso? A pergunta fica sem resposta e é bom que fique — porque a resposta fácil trairia o próprio livro que a inspirou.
Ler e escrever
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O livro tematiza o ato de ler muito antes de comentar qualquer obra específica. A introdução, “Aprendendo a desaprender”, toma a leitura como matéria e método ao mesmo tempo. Salem Levy parte de uma resposta que ela considera clichê e que não consegue substituir por outra: quando lhe pedem um conselho para quem quer aprender a escrever, ela diz “leia muito”. O clichê diz algo verdadeiro sobre a sua formação. O que fez dela uma escritora foi a leitura, e o que a mantém escrevendo, há trinta anos, continua sendo a leitura. Escrever sobre os livros dos outros, ela afirma sem hesitação, a ajuda a escrever os seus.
Essa declaração influencia a compreensão do livro como um todo. As colunas reorganizam a noção tradicional que se atribui à crítica literária: elas não pretendem dar conta do estado de uma obra, de uma tradição ou de um mercado. São, antes, registros do que um livro fez a quem o leu: que deslocamento produziu, que pergunta ativou, que memória acordou. A leitura crítica, para Salem Levy, é um acontecimento que intervém na vida de quem lê. Quando James Baldwin diz que “as coisas que mais [o] atormentavam eram as mesmas que [o] conectavam com todas as pessoas que estavam, ou que alguma vez tinham estado, vivas”, a autora reconhece ali a sua descoberta da literatura: que a dor particular encontra eco nas dores dos outros e que esse eco é tanto o fundamento da arte quanto o motivo pelo qual vale a pena continuar a ler e a escrever.
Há aí uma aposta teórica que a autora explicita ao citar Barthes: o crítico não é aquele que explica o texto para o leitor, mas aquele que “o leva até o desconhecido”. A crítica barthesiana, categoria que Salem Levy reivindica para si, não fecha a obra; abre-a. Não responde as perguntas que levanta; multiplica-as. A palavra que Barthes usa para isso é sapientia: “nenhum poder, um pouco de saber, um pouco de sabedoria, e o máximo de sabor possível”. “Sabor” é a palavra que importa. A autora só escreve sobre livros dos quais gosta, sobre os que a tiram da rede e a levam até a escrivaninha. A preferência é muito mais que uma licença para a arbitrariedade — é a própria condição de que a escrita crítica se mantenha aquecida, não se torne um relatório. Um livro que move quem o lê gera um texto que move quem o lê também — eis o mote fundamental de suas análises.
Escolhas
O volume de textos reunidos ao longo dos anos diz algo sobre o que tal concepção de leitura produz em termos concretos de escolhas. Das mais de cinquenta obras citadas e comentadas no livro, 26 são escritas por mulheres e 26 por homens, uma paridade raramente obtida quando não é perseguida com consciência, que, neste caso, resulta de uma orientação de leitura e de um trabalho atento na edição da coletânea.
A divisão por tradição literária é menos simétrica. A literatura europeia, somando obras contemporâneas e clássicas, responde por cerca de 48% do total: doze obras de autores europeus vivos e treze de autores canônicos — Kafka, Woolf, Flaubert, Tolstói, Thomas Mann, Sófocles, entre outros. A literatura brasileira vem logo atrás, com 31% — quase integralmente contemporânea, com Clarice Lispector como única presença canônica. A literatura latino-americana não brasileira fica em 8%, representada pelas argentinas Tamara Kamenszain e Sylvia Molloy e pela chilena Alia Trabucco Zerán. Com igual proporção, de 8%, a literatura africana e árabe comparece através de David Diop (franco-senegalês), Adania Shibli (palestina), Leïla Slimani (franco-marroquina) e Djaimilia Pereira de Almeida (angolana radicada em Portugal, colunista da Quatro Cinco Um). A literatura anglófona dos Estados Unidos e do Canadá — Maya Angelou, Charlotte Perkins Gilman, Anne Carson, Mark Twain — fecha o quadro com os 8% restantes. Em termos de contemporaneidade, 65% das obras pertencem a autores vivos ou publicados nas últimas décadas; os 35% de obras clássicas ou canônicas distribuem-se sobretudo pela tradição europeia.
O crítico não é aquele que explica o texto para o leitor, mas aquele que ‘o leva até o desconhecido’
Esses números revelam os contornos de uma inteligência crítica que foi lapidada na Europa e nunca parou de olhar para o Brasil. Salem Levy tem doutorado em literaturas francesa e portuguesa e é pesquisadora na Universidade NOVA de Lisboa. Que Duras, Rancière, Bataille e Cixous apareçam com a mesma naturalidade de Itamar Vieira Junior, Noemi Jaffe e Patrícia Melo é a marca de uma formação em que a teoria e a ficção sempre conviveram e em que a literatura brasileira foi lida a partir de um repertório amplo, sem perder autonomia. O dado mais apontado na introdução — a preferência de Salem Levy por livros de que gosta, independentemente da demanda de mercado — explica a presença de obras esgotadas, de ensaios não traduzidos para o português e de clássicos que voltam porque fazem falta.
Como conjunto, Diga a coisa como ela é funciona como mapa de leituras. É um livro que anuncia e estimula o amor aos livros — os títulos comentados, mais a lista final de “Leituras recomendadas”, são um percurso de formação, dos clássicos gregos a lançamentos recentes das literaturas brasileira, africana e latino-americana. Cumpre o que promete desde o título: não dizer a última palavra, mas insistir em tentar dizer a coisa como ela é, sabendo de antemão que ela vai escapar.
Nota da redação
A Tinta-da-China Brasil é o selo editorial da Associação Quatro Cinco Um, que publica a revista dos livros.
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