A professora de literatura brasileira Regina Dalcastagnè (Divulgação)

Crítica Literária,

O direito a narrar e ser narrado

Pesquisa de Regina Dalcastagnè nos obriga a repensar a literatura brasileira em relação às estruturas que conformam nossa sociedade

09fev2026 • Atualizado em: 06fev2026 | Edição #103

Em tempos de ataque às universidades públicas e desvalorização da cultura e da pesquisa, Uma história da literatura brasileira contemporânea: a narrativa, de Regina Dalcastagnè, é, mais que um livro necessário, urgente. O volume de 608 páginas representa a síntese analítica de mais de três décadas de pesquisa rigorosa e sistemática a respeito da produção narrativa brasileira desde 1970. 

Professora de literatura brasileira na Universidade de Brasília, Dalcastagnè é fundadora e coordenadora do Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, que congrega pesquisadores de diversos países e se tornou referência internacional nos estudos sobre literatura brasileira. Também coordena o portal Praça Clóvis, uma iniciativa coletiva que reúne centenas de pesquisadores para mapear criticamente a literatura brasileira desde a década de 1970.

Fruto de trabalho rigoroso e, principalmente, coletivo, Uma história da literatura brasileira contemporânea é um instrumento crítico que nos obriga a repensar a literatura brasileira a partir de sua relação com as estruturas sociais, políticas e econômicas que conformam nossa sociedade.

Como toda obra monumental tem seus recortes necessários, seria indevido não apontar os que constituem o livro. Dalcastagnè delimita explicitamente seu objeto: narrativa em sentido estrito (contos, romances, crônicas e memórias), excluindo, portanto, poesia, teatro, quadrinhos e literatura infantojuvenil. Esse recorte analítico permite que a autora privilegie aspectos estruturais e temáticos relevantes em sua trajetória como pesquisadora da área. 

A estrutura do livro é um dos pontos fortes. Dalcastagnè organiza a história da literatura contemporânea em quatro grandes seções, que ela denomina “percursos”: espaciais, políticos, íntimos e cotidianos. Uma organização temática, em vez de cronológica, permite leituras transversais para evidenciar conexões que uma abordagem linear ofuscaria. Os quinze capítulos dialogam entre si, criando uma densa teia de relações e apresentando ao leitor uma literatura atravessada por conflitos, desigualdades, exclusões, resistências, insurgências e vozes que insistem em se fazer ouvir apesar de todos os obstáculos.

Dados incômodos, porém preciosos, demonstram o caráter excludente e elitista do campo literário

Esses percursos nos levam a reconhecer o quanto nossa literatura permanece elitista, excludente e marcada por privilégios de classe, raça e gênero. Ao interrogar as bases sobre as quais se constrói o cânone literário brasileiro, Dalcastagnè expõe as exclusões, silenciamentos e hierarquias que marcam nossa produção cultural. É um livro explicitamente combativo e engajado, embora sempre ancorado em dados empíricos robustos. 

Um dos fios condutores é a questão da representação, ou melhor, das exclusões representacionais. Quem tem o direito de narrar? Quem é narrado? Como? Dalcastagnè demonstra sistematicamente como a literatura brasileira contemporânea é marcada por ausências eloquentes: mulheres, negros, indígenas, trabalhadores rurais, moradores de periferias, pessoas LGBTQIA+, pessoas com deficiência — todos esses grupos aparecem sub-representados, tanto na autoria quanto entre personagens. Como Dalcastagnè não é uma teórica que despreza os números, nem uma empirista que ignora a interpretação, ela fundamenta as análises em pesquisas quantitativas e qualitativas de larga escala, somadas a um corpus sem precedentes nos estudos literários brasileiros.

A análise quantitativa nos revela alguns dados incômodos, porém fundamentais e preciosos, sobretudo em se tratando de uma pesquisa na área de literatura, em que esse aparato é raramente mobilizado. De acordo com Dalcastagnè, mais de 80% dos romances contemporâneos se passam em grandes cidades; mais de 70% dos autores são homens; mais de 90% são brancos; a maioria absoluta deles reside no eixo Rio-São Paulo. Esses números, embora à primeira vista não pareçam surpreendentes, não compõem mera estatística. Eles são fundamentais para demonstrar o caráter excludente e elitista do campo literário brasileiro contemporâneo.

Atenção

Apesar da densidade teórica e da vastidão do material analisado, Dalcastagnè escreve de maneira clara e envolvente. Ela evita o jargão acadêmico desnecessário sem renunciar à precisão conceitual. O livro pode ser lido por especialistas em teoria literária e também por professores do ensino médio, estudantes de graduação e leitores interessados em compreender melhor a literatura brasileira mais recente.

Pensando justamente nesses últimos, alguns aspectos de ordem editorial mereciam melhor tratamento: o excesso de notas de rodapé no corpo do texto, embora seja natural ao público acadêmico, pode tornar a leitura cansativa para o leitor comum. Para não abrir mão das preciosas intervenções da autora, as notas poderiam vir apensadas ao fim de cada capítulo ou ao final do livro. Outro ponto que mereceria atenção: dado o volume expressivo do corpus literário analisado, a presença de um índice onomástico facilitaria o trabalho de localização de obras e autores citados ao longo das seiscentas páginas. 

Essas questões apenas reforçam o caráter monumental do trabalho de Dalcastagnè, que estabelece um novo patamar para os estudos sobre literatura brasileira contemporânea. Depois dele, será impossível fazer história literária como se exclusões não importassem, como se números não dissessem nada, como se a literatura existisse em uma bolha separada das lutas sociais. A autora demonstrou que uma história da literatura pode ser, ao mesmo tempo, rigorosa e engajada, abrangente e crítica, respeitosa com seu objeto e criteriosa com suas limitações.

Para pesquisadores, o livro é leitura obrigatória, tanto por seu conteúdo quanto por seu método. Para professores, oferece ferramentas valiosas para pensar o ensino de literatura de maneira mais crítica e inclusiva. Para leitores em geral, abre janelas para dimensões da literatura brasileira que frequentemente permanecem invisíveis. E, para todos nós, brasileiros e brasileiras tentando compreender nosso país e as possibilidades de futuro, este livro nos mostra que a literatura pode e deve ser um espaço de interrogação radical sobre quem somos e quem podemos vir a ser.

Quem escreveu esse texto

Élvio Cotrim

Professor de literatura e de língua francesa na Universidade Federal Fluminense (UFF).

Matéria publicada na edição impressa #103 em março de 2026. Com o título “O direito a narrar e ser narrado”

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