Repertório 451 MHz,

Tudo sobre Dercy

Biógrafa de Dercy Gonçalves, Adriana Negreiros fala sobre a vida e as contradições da humorista em episódio gravado ao vivo n’A Feira do Livro 2026

03jul2026

Está no ar o 202º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Nesta edição, a jornalista Adriana Negreiros, biógrafa da humorista Dercy Gonçalves, conversa sobre seu livro Dercy: a diva debochada (Objetiva) na coluna da poeta Bruna Beber, que estreia um novo nome: Lado Beber.

A gravação aconteceu ao vivo, durante A Feira do Livro 2026, com participação da plateia. No encontro, Negreiros conta como foi o processo de pesquisa e de escrita da biografia e fala sobre a vida difícil e as contradições da humorista, que morreu aos 101 anos, em 2008, e foi uma figura sem igual na cultura popular brasileira. O episódio foi realizado com o apoio da Lei Rouanet.

Editora do portal UOL, Negreiros publicou, também pela Objetiva, a biografia Maria Bonita: sexo, violência e mulheres no cangaço (2018) e A vida nunca mais será a mesma: cultura da violência e estupro no Brasil (2021), vencedor do prêmio de melhor ensaio da APCA

Na conversa, ela conta o que despertou seu interesse por Dercy Gonçalves. “Era uma figura que realmente incomodava”, afirma, lembrando do comportamento desbocado da humorista. “Eu pensava: será que essa mulher realmente é assim o tempo inteiro? É em casa? Será que ela passa o dia inteiro irritada, com raiva de tudo, dizendo um palavrão atrás do outro?”

A jornalista Adriana Negreiros e a poeta Bruna Beber (Matias Maxx/Terebi/A Feira do Livro)

A autora diz que sempre se interessou pela temática feminista, principalmente em relação ao século 20, marcado por “uma série de transformações na vida das mulheres”. Após biografar Maria Bonita (1910-38), que desafiou a família e as convenções ao entrar para o cangaço, Negreiros decidiu adentrar a vida da figura controversa de Dercy. 

A pesquisa para Dercy: a diva debochada e a escrita da biografia duraram três anos. Para a autora, o maior desafio não foi a escassez de informações — como aconteceu com o livro sobre Maria Bonita —, mas o excesso delas: artista que começou a carreira em espetáculos circenses, Dercy teve a vida documentada desde os vinte anos de idade e foi uma figura muito popular do teatro de revista, nos anos 30, e do cinema brasileiro, a partir da década de 40. 

Perereca

Negreiros lembra que Dercy vinha de família pobre e queria inicialmente se tornar cantora, mas não conseguiu. Ela já tinha mais de trinta anos de carreira e era uma das atrizes mais bem pagas do país quando, em 1964, na antiga rede televisiva Excelsior, improvisou a música “A perereca da vizinha”, que virou o hit do carnaval no ano seguinte. 

A relação com a imprensa, que a tachou de feia desde o início da carreira, revela o tipo de obstáculo que a humorista enfrentou. “No teatro de revista, as vedetes, com aquele padrão de beleza muito definido, eram, a todo momento, exaltadas pela beleza e pela juventude. Já a Dercy, a todo instante, era lembrada de que era uma mulher que não correspondia àquele padrão”, conta Negreiros.

Outro obstáculo foi o preconceito contra mulheres que faziam humor. “Referiam-se à Dercy como o ‘Oscarito de saias’. Ninguém chamava o Oscarito de ‘Dercy de calças’, embora ela tivesse uma trajetória prévia à dele”, diz. “Dercy experimentou todo o cardápio de violência de gênero — patrimonial, psicológica, sexual.” 

Os relacionamentos e a insegurança afetiva da humorista, vítima de um estupro quando já tinha mais de setenta anos, são lembrados pela biógrafa. “A Dercy foi uma mulher que sofreu muito em relação ao amor. Nunca foi uma mulher que se sentisse amada o bastante”, conta Negreiros. “E ela dizia: ‘só quem me amou incondicionalmente foi o público’. Ela realmente tinha uma relação muito visceral com as plateias.” 

Contradições 

Apesar de ser considerada uma mulher à frente do tempo, devido ao seu perfil independente e à capacidade de falar sobre assuntos como sexo sem meias-palavras, Dercy jamais se identificou como feminista. Negreiros conta que ela “odiava as feministas; dizia que eram babacas, que não tinham o que fazer, que feminismo é perda de tempo”. 

A atriz e humorista Dercy Gonçalves (Divulgação)

A biógrafa ressalta o lado conservador da humorista, expresso em declarações homofóbicas e racistas que ela deu ao longo da carreira. Para Negreiros, um dos momentos mais controversos da trajetória de Dercy ocorreu quando, nos anos 80, ela mostrou os seios no programa de Hebe Camargo, num protesto contra a modelo Roberta Close. “O que poderia parecer, à primeira vista, um ato de ousadia era, na verdade, algo muito preconceituoso contra uma mulher trans”, diz.

Dercy Gonçalves em cena (Divulgação)

Na visão da autora, em muitos sentidos, os preconceitos de Dercy — que incluíam frases racistas — não eram fruto de ódio, mas reflexo de uma época. “Não é passar pano, mas temos que considerar o tempo em que ela vivia. Quando ela dizia essas barbaridades, esse era o discurso corrente, socialmente aceito.”

O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura – Lei Rouanet
Para falar com a equipe: [email protected]