Corridor in the Asylum (1889), pintura de Vincent van Gogh (The Metropolitan Museum of Art/Reprodução)

Onde Queremos Viver,

O asilo

‘Bem-vindo à melhor profissão do mundo’, disse-me uma catedrática quando assinei contrato

23jun2026 | Edição #107

John Williams, em Stoner (1965), faz uma das mais duras descrições da universidade. “Olhem para nós os três”, diz alguém; “nós somos a universidade”. 

“Esperto o suficiente para perceber o que [lhe] aconteceria no mundo lá fora”, um deles é o incompetente, “um filho da mãe” em potência, mas “demasiado preguiçoso” para o ser a tempo inteiro. Segue-se o idealista (Stoner), que crê “que há qualquer coisa aqui, qualquer coisa a descobrir”, uma compreensão final que está sempre já “ao virar da esquina, no corredor ao lado; […] no próximo livro, aquele que ainda não leste, ou na próxima estante, aquela aonde ainda não chegaste”. 

Existe por fim o cínico, incapaz de calar o facto de que se julga “demasiado inteligente para o mundo”, logo “têm de me trancar num espaço no qual eu possa ser irresponsável sem perigo”. A universidade é assim um pouco como a esfera da ficção e é nesta terceira voz que Williams (ele mesmo académico) testa uma conclusão que nenhum de nós se atreve a admitir, muito menos defender publicamente.

“Por muito maus que sejamos”, continua, “não fazemos mal a ninguém, dizemos o que queremos e pagam-nos para isso.” 

É para nós que existe a universidade, para os desalojados do mundo; não para os estudantes, não para a busca altruísta do conhecimento, não por nenhuma das razões que vocês ouvem. Produzimos razões e deixamos entrar alguns dos normais, aqueles que se safariam bem no mundo, mas isso é só para disfarçar e nos protegermos.

Num surto de desânimo, explicaram-me uma vez que não deveria preocupar-me tanto: “a universidade é um bicho muito resiliente, é muito boa a defender-se”. Agora que a vejo em vias de extinção, pelo menos as humanidades, por muito que continuemos a chamar-lhes assim daqui a dez anos, é de esperar que a universidade se defenda com unhas e dentes. Para começar, socorrendo-se de certos tropos habituais, que caducaram enquanto debatíamos a sua epistemologia. Depois, imitando o presente, em vez de o inventar. 

Ninguém consulta a opinião dos professores de literatura sobre questões sérias

Mais bot menos bot, já Geoffrey Hartman se queixava em Criticism in the Wilderness (1980) da deterioração social dos estudos literários. A consequência irónica das sucessivas defesas das espeficidades da profissão é a de que ninguém consulta a opinião dos professores de literatura sobre questões sérias. Aos olhos da sociedade, tornámo-nos um “jardim de infância avançado”, “criados sobrequalificados da família, mesmo quando pagos pelo estado”. (“Bem-vindo à melhor profissão do mundo”, disse-me uma catedrática na manhã em que assinei contrato.)

Creio que, nas suas crises de identidade, que levam tantos de nós a projectarem-se fora da academia (cada vez mais cheia de meio-artistas, meio-curadores, meio-gestores), adoremos, no fundo, a posição almofadada de que passamos a vida a queixar-nos. E odiamo-nos por isso. Excepto aqueles que carregam em si o demónio do pequeno chefe, do mandarim, do magistério. Se os vejo, sorrio a lembrar-me de Stoner, de a universidade ser de facto “um hospício ou […] como é que lhes chamam agora? Um asilo para os enfermos, os idosos, os descontentes e os incompetentes”. 

Será que sorrio para me detestarem? Sorrio e sigo caminho e nesse instante decido nunca dar este livro, nunca explicar nada disto aos meus alunos.

Quem escreveu esse texto

Humberto Brito

É escritor, ensaísta e fotógrafo

Matéria publicada na edição impressa #107 em julho de 2026. Com o título “O asilo”

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