Onde Queremos Viver,
Meninas difíceis
Querem-nos claras como a água: qualquer forma de complexidade é considerada fora de tom
24mar2026 • Atualizado em: 14abr2026 | Edição #104Para quantas pessoas se escreve? Custa crer que para muitas, por mais livros que se vendam. Quantas são as pessoas em simpatia com um livro, quantas podemos esperar que entrem no nosso universo íntimo? Pouquíssimas — e esse é o mistério: que tantas pessoas possam ler um livro e até entendê-lo e gostar dele, mas continuemos a saber que escrevemos, que se escreve sempre, para poucos amigos, que quase nunca chegaremos a conhecer.
Wittgenstein escreveu, no prefácio a um dos seus livros, que o havia escrito para aqueles que estivessem “em simpatia com o seu espírito”, muito poucas pessoas, “dispersas pelo mundo”. Talvez tal seja a única coisa a que uma escritora pode aspirar: a meia dúzia de almas simpáticas, cuja cara desconhece, falantes, quem sabe, de outras línguas.
Estou a ler On Morrison (Penguin, 2026), estudo de Namwali Serpell sobre Toni Morrison. O primeiro capítulo, um tratado sobre literatura e o que é ser hoje uma mulher negra que escreve, intitula-se “Sobre a dificuldade”. O argumento de Serpell é o de que Morrison se atreveu a ser difícil. Escritora magnífica, professora de inglês em Harvard, Serpell escreve que toda a vida lhe dirigiram o insulto de que ela era difícil.
Tido porventura como elogio a certas pessoas, ser uma mulher negra difícil não é destino fácil de carregar: significa, dependendo do interlocutor, ser irreverente, insolente — características inadequadas, segundo um grande número de pessoas, às mulheres negras.
Talvez escrevamos umas para as outras ou na tentativa de constituir leitoras futuras
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Que há nisto de especial? Em que poderia diferir a dificuldade em Morrison ou na jovem Serpell da dificuldade de qualquer escritor consagrado? Dá-se o caso, porém, como explica Serpell, de não ser reconhecido a uma autora negra o direito à dificuldade, à ambiguidade (o primeiro livro dela, uma glosa de Seven Types of Ambiguity, de William Empson, intitula-se Seven Modes of Uncertainty).
Escreve-se para poucos: talvez escrevamos umas para as outras ou na tentativa de constituir leitoras futuras, de fundar para elas um direito alargado à complexidade: “Há muitas maneiras de ser difícil neste mundo”, escreve Serpell.
Pode-se ser exigente, inconveniente, teimosa, complicada, problemática, desconcertante, ilegível. A feminilidade negra é um lugar onde todas essas formas de dificuldade se sobrepõem. Sempre soube disso; já fui chamada de difícil mais vezes na vida do que consigo contar. Mas só comecei a entender, a descobrir os significados e usos da minha própria dificuldade, graças a Toni Morrison.
Gosto especialmente, nessa passagem, do reconhecimento de Serpell sobre como ler Morrison a foi ensinando a respeito da sua própria dificuldade. Querem-nos claras como a água, explícitas, legíveis, chãs. Qualquer forma de complexidade é, mais do que considerada fora de tom, tida como escusada.
Então, talvez essas poucas pessoas que eu gostaria de ter no comprimento de onda futuro dos meus livros fossem as meninas negras complicadas. As que têm mais dificuldade em fazer amigos. Se gosto de me imaginar escrevendo para todos, sei que é com o horizonte delas em vista que escrevo. Ajudar alguém a entender quem é, entendendo que não está sozinha, sabendo que eu estive aqui e que comigo foi parecido. Se o conseguisse, algum dia, chegar pelo menos a uma, já teria valido a pena esta aventura.
Matéria publicada na edição impressa #104 em abril de 2026.
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