Corridor in the Asylum (1889), pintura de Vincent van Gogh (The Metropolitan Museum of Art/Reprodução)

Onde Queremos Viver,

Exilar o coração

Tenho encontrado muitas pessoas que julgam saber, melhor do que eu, de onde sou

23jun2026 | Edição #107

Quando se dará exactamente o momento retrospectivamente precioso e preciso, medido numa troca de olhares, no modo como lemos um gesto, ou um trejeito, ou a entoação ou o tom de uma frase, instante com cuja interpretação lutamos mais tarde e por muito tempo, que nos tira o sono e enche de desânimo, ou de um ímpeto de vingança, o exacto instante em que as coisas diante de nós perdem o brilho e o que nos parecia belo nos outros, num princípio de caminho, se revela uma ilusão? 

A cara da perda da ilusão, sempre diferente, anónima, ainda não sei desenhá-la, talvez porque se revista a cada vez de contornos diferentes. E no entanto vamo-nos tornando mestres no seu sabor, sabemos antevê-la, pressenti-la, esboçá-la, mesmo quando nos deixamos levar. 

Aconteceu-me com pessoas, com momentos na vida, com íntimos, com lugares. Com pessoas é talvez mais fácil do que com os lugares. Os lugares absorvem todos os sentidos, submergem-nos.

Pensar nas caras da ilusão conduz-me a vidas à minha volta, lidas e testemunhadas, ouvidas, observadas, reais, fictícias, fictícias mesmo se reais.

Pensar nas caras da ilusão conduz-me a vidas à minha volta, fictícias mesmo se reais

É preciso, então, proceder ao difícil exercício de mudar o coração de sítio, mantendo o corpo onde está. Talvez seja isto que significa voltar à nossa terra. Primeiro, é preciso descobrir qual é a nossa terra, tarefa quase tão complexa quanto aprender a mudar o coração de lugar. Se a encontrarmos, e aprendermos que a nossa terra não é necessariamente o lugar onde nos recebem melhor, talvez consigamos depois iniciar o movimento em que deslocamos só uma parte de nós para esse lugar.

Preparo-me para exilar o meu coração. Considero como fazê-lo e os cuidados a ter. O que devo colocar no saco que ponho às suas costas. Como despedir-me do meu coração. Que avisos devo fazer-lhe. Atento na razão por que o faço: para preservar a imensa alegria que ainda carrego e não me deixar derrotar por tudo aquilo que, em meu redor, a quer sabotar. Então, envio o meu coração. E deixo-me aqui sem coração a enfrentar os monstros sozinha.

Tenho encontrado muitas pessoas que julgam saber, melhor do que eu, de onde sou. Algumas pessoas imaginam que sou do sítio onde nasci e levam a mal que eu queira ser de outro sítio além desse. São pessoas que insistem que eu volte para a minha terra, certas de que elas e eu sabemos que terra é essa. Há pessoas que imaginam que nunca pertenci ao lugar onde nasci, porque me mudei dele com meses de idade e quase nunca lá voltei. Há pessoas que dizem que, por reconhecer os meus livros como parte da tradição que me formou, perdi o direito à minha origem.

Mais curioso é o diminuto número de pessoas que reconhecem que um escritor é os livros que leu. Que estranho país será esse, sem fronteiras, pessoal, colectivo, sem forma? Talvez o preço a pagar pela minha particular carreira de leitora seja ser uma escritora sem o coração por perto.

Ensaio o meu coração para a partida, sem saber sequer se posso chamar país ao lugar para onde o envio em viagem. Não haverá festa de despedida que celebre o meu atrevimento, a coragem passará despercebida. Eis uma vantagem das escritoras sem país.

Quem escreveu esse texto

Djaimilia Pereira de Almeida

Escritora portuguesa, publicou Esse cabelo, A visão das plantas e O que é ser uma escritora negra hoje (Todavia).

Matéria publicada na edição impressa #107 em julho de 2026. Com o título “Exilar o coração”

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