Ilustrações de Catarina Sobral (Divulgação)

Literatura infantojuvenil,

Virar tudo do avesso

Na biografia ilustrada de Paula Rego, Catarina Sobral traduz o legado da artista e sua defesa radical da liberdade

19jun2026

Na catalogação dos tipos de medos, há os que paralisam e os que se transformam em histórias. Na vida e obra da pintora luso-britânica Paula Rego (1935-2022), o desenho foi uma maneira de fazer a travessia entre os dois: dar forma ao escuro e às memórias, injustiças e inquietações. Na biografia ilustrada Virar o medo ao contrário, como a Paula Rego (Cobogó), a autora e ilustradora portuguesa Catarina Sobral revisita essa trajetória e apresenta aos jovens leitores uma das mais influentes artistas contemporâneas, que fez da pintura um instrumento de resistência e uma forma de “virar tudo do avesso”.

Em entrevista por e-mail à Quatro Cinco Um, Sobral fala sobre o desafio de traduzir a complexidade de Paula Rego, a sua identificação com a artista e a urgência de falar às novas gerações sobre a defesa da liberdade. 

Quem foi Paula Rego e quem ela é para você?
Foi uma artista cheia de contradições — aliás, como todas as boas artistas. Neste livro descrevo-a assim: 

A Paula desenhava sem parar. Antes de começar cada desenho, sentia-se a rebentar com coisas para dizer. A sua arte acordou os sonhos, misturou fantasia e realidade, e tentou virar tudo do avesso.

Antes de começar a investigar a sua vida, ela era, para mim, apenas a artista portuguesa mais conhecida. Digo apenas porque eu não tinha propriamente uma relação afectiva com as obras ou com o pensamento dela. Mas, depois de pesquisar, de entender a sua história e o que a movia (e a atormentava), fiquei a admirá-la sobremaneira. 

‘Não sabia o quanto a pintura dela era politizada, como lutou contra o regime fascista’

Como chegou à expressão “virar o medo ao contrário”? E você fez isso com algum medo seu?
Quem analisa e discursa sobre o trabalho da Paula quase sempre fala do medo. Quando entendemos o processo artístico dela, percebemos que é uma forma de metabolizar as emoções, sobretudo as dolorosas, sendo o medo uma das mais frequentes. Não é que não seja assim, pelo menos um pouco, para todas as artistas. Mas na Paula isso é muito evidente. A expressão “virar o medo ao contrário” é uma forma de o traduzir na linguagem das crianças, porque não se trata de apagar os medos, mas de processá-los, de sublimá-los.

(Divulgação)

Quanto à mim, sim e não… Virei a dois terços, talvez! Desde que vi um clipe da Paula a falar sobre como as pinturas vêm sempre em grupos de quatro — a primeira é exploratória, não sabemos ainda o que estamos a fazer; na segunda já chegamos lá; na terceira, acertamos em cheio; mas a quarta é decadente, já não precisamos dela — e percebi o quanto ela experimentou diferentes estilos e ferramentas na pintura, tenho um pouco menos de medo de perder a coerência autoral ao explorar outras técnicas e o vocabulário gráfico.

Que desafios encontrou ao transformar a vida dela em livro infantil?
Primeiro, a questão da tradução, de que falei antes. O meu trabalho consiste em perceber o que é fundamental na vida e nas ideias de uma artista e arranjar um dispositivo claro e familiar para as crianças, para o traduzir e o tornar próximo do seu dia-a-dia. Depois, a relação com o real e a documentação visual. Tento tanto quanto possível representar os ambientes reais e ser fiel, sem fugir à minha linguagem, na representação das obras e das pessoas. Finalmente, dar à história de não-ficção a essência da ficção narrativa para crianças: a tarefa de descobrir o que significa habitar este mundo.

Você diz que pensa, resolve problemas e protesta melhor através do desenho. Isso te aproximou da Paula?
Sem dúvida. Não só a questão de processar as emoções, que também faço, mas a ideia de protesto. Não sabia o quanto a pintura dela era politizada. Como lutou, com o seu trabalho, contra o regime fascista [de Salazar e Franco], contra o patriarcado e a favor da despenalização da interrupção voluntária da gravidez. Também vivo sob a máxima de que o pessoal é político e o político é pessoal.

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O que a infância da artista, vivida sob a ditadura, diz às crianças que crescem hoje em sociedades democráticas?
Espero que sirva de alerta de como a liberdade é contingente. Nossas sociedades também não são inteiramente democráticas, longe disso. É importante que as crianças entendam que existem formas de opressão que foram aceitas em cada momento histórico. Logo, também na actualidade. Mas que, felizmente, há vozes que lhes resistem — e podemos ser uma delas.

Se Paula estivesse viva, sobre o que você gostaria de conversar com ela?
O Nick Willing disse-me que a mãe tinha manifestado, em vida, não querer que se escrevessem biografias sobre ela. Mas depois de ver o livro, ele ficou contente. Teria de ser assim, com desenhos bonitos. Gostava que ela confirmasse isso. Que não ficou zangada. E conversar sobre o que é o estilo, o que constrói a autoria…

Quem escreveu esse texto

Jaqueline Silva

É jornalista em formação pela ECA-USP e assistente editorial na Quatro Cinco Um.

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