Música,
Mais que amigos
Ian Leslie conta como mergulhou na química entre Lennon e McCartney para narrar a história da maior banda pop de todos os tempos
19jun2026Em certas plataformas de compras, uma busca por livros relacionados aos Beatles pode gerar mais de 10 mil resultados. No entanto, será preciso vasculhar com lupa para encontrar algum título de enfoque parecido ao de John & Paul: uma história de amor em canções, do inglês Ian Leslie.
Com texto impecável, Leslie biografa detalhadamente John Lennon, Paul McCartney e a maior banda pop de todos os tempos, mas com uma importante diferença em relação aos demais: seu fio condutor é o complexo e fascinante elo entre os dois parceiros, margeando também as semelhanças e os contrastes entre suas histórias.
A abordagem original de Leslie é congruente com as suas especialidades, comportamento humano e psicologia. Ele embasou nessas disciplinas de estudo os seus três livros anteriores, entre eles o celebrado Em conflito: por que as discussões estão nos distanciando e como podem nos unir, publicado em 2021 pela Latitude, com tradução de Lígia Azevedo.
“Quando comecei a escrever John & Paul, me pareceu uma mudança completa de direção em relação aos meus trabalhos anteriores; contudo, enquanto o fazia, passei a enxergá-lo como algo relacionado a eles”, explicou o escritor por e-mail à Quatro Cinco Um. “Meu histórico nessas outras áreas provavelmente ajudou a tornar o livro diferente de outras obras sobre os Beatles.”
Para o autor, que iniciou a pesquisa no confinamento pandêmico de 2020 e dedicou quase quatro anos ao projeto, há mais de um motivo para a escassez no mercado editorial de livros sobre a conexão entre Lennon e McCartney. Um deles é a dificuldade do mundo exterior em rotular o vínculo que os atraía. “Eles eram apenas amigos? Eram ‘irmãos’? Amantes? Competidores? A resposta é um pouco de tudo isso e, ao mesmo tempo, nada disso”, teoriza.
Outro ponto que o escritor ressalta é o fato de muitas biografias do quarteto de Liverpool terem sido escritas por pessoas que, em suas palavras, “simplesmente não se interessam tanto pela dinâmica emocional da banda ou por sua relação principal, se concentrando mais em ‘o que aconteceu’”. Leslie esclarece: “Eu também me interesso pelo que aconteceu, mas também por que aconteceu, e acho que é preciso mergulhar fundo na química pessoal para entender isso”.
Cronologia
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Dividida em 43 capítulos, nomeados por clássicos coescritos pelos dois gênios e canções de suas carreiras solo, Leslie incorpora à cronologia beatlemaníaca um repertório vasto de análises aprofundadas e deliciosamente inspiradas. A obra de Lennon e McCartney se torna, portanto, um potente recurso narrativo.
Em diversos momentos, as organizadoras da trama são as próprias letras; noutros, quem direciona o relato são os bastidores técnicos e históricos das composições. “Eu sabia que teria de contar a história dessa relação por meio das músicas, já que elas eram tão centrais na forma como eles se expressavam e se comunicavam um com o outro”, afirma o escritor.
Sob o viés da interação entre Lennon e McCartney, Leslie expõe, por exemplo, as razões pelas quais, num mesmo ponto da linha do tempo, o primeiro se debruçava sobre a inovadora “Tomorrow Never Knows”, enquanto o segundo cuidava de outra obra-prima, “Eleanor Rigby”. O autor cumpre seu propósito com doses de esmero e sensibilidade suficientes para enriquecer ainda mais a visão do leitor sobre a trajetória dos Fab Four. Consequentemente, deixa para a posterioridade ensaios elucidativos sobre criações da dupla capazes de conquistar os mais ortodoxos críticos musicais.
‘Eles eram só amigos? Amantes? Competidores? A resposta é um pouco de tudo e nada disso’
“Eu nunca tinha escrito longamente sobre música, mas há muito tempo me interesso pela mecânica das canções pop e pelo que sentimos ao ouvi-las”, conta Leslie, que, na bibliografia de John & Paul, lista mais de sessenta títulos consultados. “Meu trabalho foi traduzir as percepções ‘musicológicas’ sobre Lennon e McCartney para uma linguagem acessível.”
Deu certo: suas descrições de hinos dos Beatles como “Yesterday”, “A Day in the Life” e “You Never Give Me Your Money” são tão descomplicadas quanto brilhantes, além de esclarecerem muito sobre a simbiose entre os coautores. Algo similar ocorre no comentário a respeito de “She Loves You”, uma canção “sobre o amor de um casal e sobre a amizade entre homens”, segundo a sua definição. “É a manifestação de uma característica consistente na relação de Lennon e McCartney: o desejo de Paul, quase a necessidade, de guiar seu amigo teimoso a um porto seguro.”

Num outro trecho, em que aborda “We Can Work It Out” e outros sucessos com partes individuais concebidas e cantadas por Lennon e McCartney, o escritor perfura a superfície para descobrir algo íntimo e reflexivo. “A necessidade técnica gerou o efeito estético distinto e arrebatador de dois homens compartilhando o mesmo eu lírico — a mesma consciência”, explica. “Isso se tornou uma expressão da camaradagem do grupo, além de evocar a ideia de que duas pessoas podem transitar no terreno da subjetividade uma da outra, da mesma forma que internalizamos as vozes das pessoas que conhecemos e amamos.”
Há espaço, ainda, para que Leslie pondere sobre o aspecto que considera romântico na ligação entre os dois Beatles: “Hoje em dia, estamos habituados com a ideia de amor homossexual. Porém, ficamos desconcertados diante de uma relação que, embora não seja sexual, é romântica: uma amizade que pode ter um componente físico ou erótico, mas que não envolve sexo”.
Rompimento
A perspectiva literária singular de Leslie não o isenta de enfrentar as etapas mais desagradáveis da saga dos Beatles, a maioria delas igualmente atreladas ao relacionamento entre suas duas maiores figuras. John & Paul esmiúça todos os desentendimentos entre eles em ordem cronológica: da irritação de Lennon com McCartney quando o comparsa quase desertou da banda para trabalhar numa fábrica, ainda em 1961, às estranhas tensões surgidas, vários anos depois, quando eles se apaixonaram pra valer por Yoko Ono e Linda Eastman, respectivamente.
John e Paul não romperam entre si porque encontraram, cada um, o amor de suas vidas: eles encontraram o amor de suas vidas para poderem romper um com o outro.
Previsivelmente, o livro vai ficando doloroso, ao visitar os turbulentos últimos meses dos Beatles e a gangorra de brigas públicas e reconciliações privadas impulsionada por Lennon e McCartney nos anos 70. A partir da ruptura deles, a leitura fica mais interessante, já que o autor mantém no epicentro de sua crônica a ligação umbilical entre os dois ex-colaboradores. Com a mesma dedicação meticulosa mostrada para explanar os anos de harmonia e felicidade, ele desempenha a autópsia do fim musical do qual o mundo nunca se recuperou.
Reparação
Leslie esclarece que nem tentou entrevistar Paul McCartney para não “desequilibrar a narrativa”. Mesmo assim, é possível que os leitores sintam, ao examinarem John & Paul, um certo favorecimento compensatório ao segundo personagem do título.
Mergulhando nos perfis dos protagonistas e na interseção de suas vidas e obras, o escritor se esforçou para mostrar que, em muitas ocasiões, McCartney foi tratado de forma injusta pela opinião pública. É fato que, durante a existência dos Beatles, o estereótipo a respeito de McCartney era o do bom moço afeito a composições mais doces e inofensivas, em contraponto à imagem de visceralidade intuitiva de Lennon. Após a separação, McCartney foi frequentemente considerado uma espécie de monstro da fábula, o vilão responsável pelo fim do grupo. Uma versão que é, no mínimo, imprecisa.
‘John e Paul encontraram o amor de suas vidas para poderem romper um com o outro’
As pistas para esse entendimento revisionista de Leslie apareceram antes mesmo da publicação do livro. O autor se inspirou a escrevê-lo ao constatar a repercussão efusiva obtida por seu ensaio “64 razões para celebrar Paul McCartney”, que publicou em dezembro de 2020 na sua newsletter The Ruffian.
Leslie não nega que seu trabalho possa ser interpretado como uma espécie de “reparação histórica” a McCartney. “Talvez, até certo ponto”, reconhece na entrevista. “McCartney foi seriamente subestimado como artista e como pessoa por muitos anos e, ao longo da última década, as pessoas finalmente estão reconhecendo o quanto ele é grandioso. Queria lhe dar o devido valor.”
No entender do escritor, há também outros ângulos para enxergarmos Lennon. “Queria mostrar que as ideias das pessoas sobre John também são simplistas, e que ele é, na verdade, mais interessante e complexo do que alguns de seus fãs fazem parecer.”
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