A jornalista Janaína Figueiredo entrevista Hugo Chávez em 2004 (Divulgação)

Jornalismo,

No labirinto venezuelano

Janaína Figueiredo constrói um nítido retrato da Venezuela nas últimas décadas, mas dá poucas respostas sobre como o país se afundou em crise

15jun2026

Explicar uma crise política, econômica e social que se arrasta há quase três décadas e tem origem no século 20 não é fácil. Mas isso não inibiu Janaína Figueiredo, uma das correspondentes internacionais mais experientes do Brasil, de tentar. Em ¿Qué pasa, Venezuela?, a jornalista faz um esforço para elucidar a complexa crise na qual o país vizinho se afundou. A missão, contudo, é parcialmente cumprida.

O livro é o segundo de uma série sobre países latino-americanos que passam por momentos turbulentos. O primeiro volume, ¿Qué pasa, Argentina?: história, política, manias e paixões dos nossos hermanos (2023), foi bem recebido. O fato de Figueiredo ter vivido quase duas décadas na Argentina permitiu a construção de um tom mais autêntico. A jornalista nasceu no Brasil, ainda criança se mudou para o país de Maradona e lá trabalhou para veículos como La Nación e Perfil. Depois, foi por quase três décadas repórter de O Globo, onde se destacou na cobertura de América Latina, tornando-se uma das jornalistas que mais reportaram sobre a região.

A jornalista Janaina Figueiredo na cobertura do referendo sobre a continuidade de Chávez no poder, em Caracas, 2004 (Divulgação)

No volume sobre a Venezuela, há uma tentativa similar de transportar o leitor para o país, mas seu êxito não é tão evidente. Talvez porque a jornalista não tenha morado lá. Ou porque, como deixa claro em muitas passagens, o medo paralisante que sentia de estar em território venezuelano a impedia de viver o cotidiano de modo mais autêntic. A exigência não é que a repórter se colocasse em situações de risco. Mas a experiência em contextos adversos — como a Venezuela se tornou — mostra que, se não mergulharmos de cabeça na realidade local, o máximo que conseguimos é uma cobertura de gabinete, sem entender direito como pensa e sente quem vive ali.

O relato de Figueiredo tem dificuldade em esclarecer pontos como por que em 1998 venezuelanos votaram em Hugo Chávez, um militar que anos antes havia tentado dar um golpe de Estado contra o então presidente, Carlos Andrés Pérez. Ou por que o chavismo, mesmo depois de crise econômica, escassez e autoritarismo, ainda mantém apoio de cerca de 25% do eleitorado venezuelano. São questões que intrigam quem se interessa pelo país e a América Latina e que só quem está in loco tem a chance de furar a bolha para entender.

Dependência

A jornalista, que esteve no país doze vezes, divide a crise da Venezuela chavista entre antes e depois da presidência de Nicolás Maduro (2013-2026), para fazer uma distinção com o governo de Chávez (1999-2013), mas isso é pouco para explicar como o país se afundou. Ainda que sejam observações corretas e até certo ponto úteis, são insuficientes para o leitor compreender transformações de um país cujos ciclos políticos e econômicos giram em torno do petróleo, commodity chamada de “excremento do diabo” pelo ex-ministro Juan Pablo Pérez Alfonzo, devido à dependência extrema à qual submete os países produtores.

Não se trata, portanto, de uma análise política ou econômica para tentar explicar o que ocorreu ao longo de quase trinta anos de chavismo. Ainda assim, vale a leitura, já que o livro busca jogar luz sobre o emaranhado que se tornou a Venezuela. Sua contribuição vem justamente do material exclusivo, que só uma repórter experiente — com acesso a fontes privilegiadas e que já esteve tantas vezes ali — pode trazer.

Um mérito da repórter é fazer um perfil honesto de atores como a opositora María Corina Machado

O compilado de bastidores, anedotas, opiniões de interlocutores e impressões da autora é o que dá a ¿Qué pasa, Venezuela? um caráter único. Por exemplo, quando conta detalhes de sua entrevista exclusiva com Hugo Chávez, em 2004, e descreve o líder bolivariano, morto em 2013, como um “encantador de serpentes”, que exigia máxima concentração de seus entrevistadores.

Suas respostas entregavam meias-verdades, buscavam construir narrativas que sustentassem sua revolução e era necessário ter muita atenção para saber como questioná-lo. Chávez era um estrategista militar e político. Dormia poucas horas e estava sempre muito bem-informado e com uma resposta na ponta da língua.

Ou quando traz bastidores do fracasso do golpe de Estado de 2002, quando Chávez foi afastado do poder por 47 horas. Citando uma “fonte da oposição”, a jornalista conta que, quando o então presidente afastado chegou à base naval de Puerto Cabello, onde ficaria preso, o chefe da seção não havia sido avisado e estava dormindo. “Com o passar das horas, foi ficando claro que o golpe não prosperaria. Os militares não confiavam no governo de [Pedro] Carmona. E a rebelião das bases começou a ser cada vez mais forte”, escreve.

Encontro de Janaína Figueiredo com o ex-vice presidente da Venezuela, José Vicente Rangel, em Caracas, 2002 (Divulgação)

Impressões e episódios como esses enriquecem a leitura, ao trazer uma imagem mais nítida da Venezuela nas últimas décadas. Outro mérito da repórter é fazer um perfil honesto de atores da política venezuelana, como a opositora María Corina Machado. Enquanto na imprensa, de maneira geral, Machado foi retratada como uma espécie de salvadora, a autora mostra que, como tudo na Venezuela, as coisas são bem mais complexas do que parecem.

“Em 2025, foi a principal defensora de uma ação dos EUA em seu país e, em 3 de janeiro de 2026, aplaudiu o ataque e a captura do presidente Nicolás Maduro”, escreve sobre a opositora, que, em 2025, recebeu o Nobel da Paz. O prêmio, afirma Figueiredo, despertou polêmica pela trajetória política de Machado, que faz parte da elite venezuelana e apoiou o golpe de Estado contra Chávez em 2002. Na oposição, ela é questionada por ter um “perfil autoritário” e “pouco conciliador”.

É por conseguir expressar o que muitos pensam, embora poucos possam dizer, que a autora faz do livro uma contribuição válida para quem se interessa não apenas pela Venezuela, mas também pelo mundo atual, cujas transformações são difíceis de acompanhar: 

O ataque norte-americano nunca foi relacionado à instauração da democracia, mas sim sobre negócios e zonas de influência. Para Trump, sempre foi sobre ter acesso ao petróleo e limitar a presença da China na América Latina. Para o chavismo, sempre foi sobre permanecer no poder.

Quem escreveu esse texto

Marsílea Gombata

Professora da Faap e pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da USP.

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