Céu. Fotografia de Jordi Burch

Deslembramentos,

o pássaro que adormecia gaiolas

ao falar dos seus ‘azulões’ e ‘cardeais’, Ardernôr dos Passarinhos me faz duvidar de tudo; ele, devagar, me apassarinha

30jun2026 | Edição #107

certa vez, no sul de Angola, vi um jovem que não me pareceu ser um domador de passarinhos. antes eram os pássaros que puxavam por ele e decidiam o caminho. imaginem: uns 21 passarinhos atados aos tornozelos de um jovem com menos de 21 anos, o olhar dele perdido no fim de tarde do horizonte, e os pássaros querendo fugir para outros voos, mas eis que o seu voo, de cada um deles, era um arrastar de direções a que o jovem se entregava com certo hipnotismo. não falou conosco, que passávamos de carro. não olhou para mim, que olhei para ele. e mesmo os passarinhos não se ocupavam com outra coisa que não arrastá-lo.

anos mais tarde conheci este homem a quem chamarei Ardenôr dos Passarinhos. dono de gaiolas, fala com cada um dos seus passarinhos logo pela manhã quando, antes de trocar de roupa ou lavar os olhos, lhes troca a água, o sujo dos tapetes improvisados dentro das gaiolas, borrifa com vinagre os que tiverem sido acometidos por piolhos, põe medicamento na água dos que devem ser curados e deixa cuidadosamente, em cada gaiola, um pequeno galho de uma flor ou um fruto que o pássaro aprecie. conhece-os não apenas pelo nome, mas pela personalidade. 

traduz-me (quando quer) o que os pássaros lhe contam da noite passada e tudo isso, aos poucos, durante o dia, se traduz numa verdade passarinhal e indubitável. “Pena de Ouro me disse que anda aí um gavião molestando a passaraje”, e lá pelo meio-dia ronda o tal gavião. voa aos círculos sob o olhar atento de Ardenôr. “ele não vai descer, não. já viu que eu tou por aqui.” 

visita cada uma das gaiolas, penduradas em pregos estratégicos para que aguentem o peso, o vento, os voos dos morcegos e algum imprevisto. em noites raras de temporal, recolhe as gaiolas em duas varandas e dorme entre as gaiolas não por causa de algum animal que as ataque, “mas é porque assim todo mundo dorme mais calmo, cê entende? eu também. tem vez que chego a sonhar que sou passarinho”. não resisto. “e, você-passarinho, também vive feliz numa gaiola?”

percorreu o interior de muitos ‘brasis’ como um animal viajador, só que conduzindo camiões

Ardenôr fica parado, deixa o céu olhar para ele. andou toda a vida de um lado para o outro. percorreu o interior de muitos ‘brasis’, como um pássaro, como um animal viajador, só que conduzindo camiões. “nunca tive asa, mas tive muita estrada”, comenta enquanto limpa as gaiolas. “meu voo era no chão mesmo, mas sempre fui apaixonado por passarinho. tenho para mim que o passarinho é feliz na gaiola”. eu, calado, vou observando a movimentação delicada. um homem da estrada, um itinerante, um entregador, um trocador de destinos, um observador modesto, um passarinheiro, como diria o moçambicano ‘mira coito’. “veja bem, na gaiola tem proteção, tem comida, tem medicamento e tá protegido de ser comido à toa nesses voos por aí. você acha pouco? feliz é o pássaro numa gaiola

ele quer, talvez, que eu diga algo. mas eu quero apenas que ele continue dizendo o que vai dizendo. muitas vezes, mesmo falando de pássaros, vai contando causos relacionados com toda uma vida de voejante camioneiro. estórias de bravura e de braveza, assombrações e assombramentos, complicações mecânicas, destrezas de quem manipulou um meio de transporte pesado e longo. tudo ali é poesia; não há gordura lírica nem intenção literária. eu espero, ele conta: “verdade mesmo, eu penso que o passarinho vive bem é na gaiola. veja o modo como eles cantam felizes você já viu infeliz cantar assim?”.

há muitos anos, Ardenôr encontrou um homem vendendo dois cardeais lindos. jovens, “cantavam que era uma belezura. um melhor que o outro e eu olhando os dois sem saber qual escolher”. mas o preço, já naquele então, era muito alto: duzentos reais. Ardenôr tentou pegar os dois por 160. o vendedor foi seco na resposta: “nem que me desse 199 eu não vendia”. o camioneiro desconseguiu de hesitar: deu os duzentos reais pelos dois pássaros. foi altamente ralhado pela sua mulher. era dinheiro sério naquela época. 

chamou a um Pena de Prata e a outro Pena de Ouro. o primeiro adoeceu, deixou de cantar alegre, ficou mudo, faleceu. Pena de Ouro ainda é vivo. tem até muita idade. “esse passarinho tem mais de 27 anos. veja bem, mais velho que minha filha.”

mistério é isso: o modo como cada um vê e cuida dos passarinhos. eu não gosto de ver passarinhos em gaiolas. mas Ardenôr, ao falar dos seus “azulões” e “cardeais”, me faz duvidar de tudo. ele, devagar, me apassarinha.

é que Ardenôr voa quando (a fala é de) passarinho.

Quem escreveu esse texto

Ondjaki

Poeta e escritor angolano, publicou Materiais para confecção de um espanador de tristezas (Pallas).

Matéria publicada na edição impressa #107 em julho de 2026. Com o título “o pássaro que adormecia gaiolas”

Para ler este texto, é preciso assinar a Quatro Cinco Um

Chegou a hora de
fazer a sua assinatura

Escolha como você quer ler a Quatro Cinco Um.

Ecobag Exclusiva

Há nove anos nutrindo leitores onívoros!

Assine a revista dos livros e ajude a fomentar a cultura do livro no Brasil

Peraí. Esquecemos de perguntar o seu nome.

Crie a sua conta gratuita na Quatro Cinco Um ou faça log-in para continuar a ler este e outros textos.

Ou então assine, ganhe acesso integral ao site e ao Clube de Benefícios 451 e contribua com o jornalismo de livros independente e sem fins lucrativos.