As Cidades e As Coisas,
Laranjeiras, satisfeito, sorri
Coleção reúne ensaios, poemas e ficções em celebração aos personagens anônimos e ilustres do mítico bairro carioca
27maio2026O bairro das Laranjeiras, satisfeito, sorri. E essa alegria não é um acaso dos eventos festivos que acontecem no bairro ou só pelas novidades, como a abertura do novo Mercado São José, fechado havia sete anos. O sorriso é uma consequência da atmosfera de renascimento constante das ruas e ladeiras, que parece impulsionar aquele canto do Rio de Janeiro para o centro da história e, anacronismos à parte, para o futuro.
As memórias do passado recente e do presente de Laranjeiras estão reunidas em seis plaquetes lançadas pela Mapalab, em parceria com a Janela, a mais nova livraria da região, inaugurada em novembro de 2025 e já ambientada no alto da famosa “rua da feira”, a General Glicério.
Os livros de rápida leitura dão conta do imaginário evocado a respeito do bairro nos últimos dois séculos. O jornalista e pesquisador musical Pedro Paulo Malta assina o ensaio Laranjeiras dá música; a escritora e coordenadora de literatura do Instituto Moreira Salles (IMS) Rachel Valença recria um bairro literário em Aqui nasceu Lima Barreto e outras histórias; e o jornalista e colunista da Quatro Cinco Um Paulo Roberto Pires reúne quatro crônicas em Criança de botequim. Completam a coleção os poemas da jornalista e escritora Cecile Mendonça, em Língua sem chão; os contos de Prolactina, de Maria Cecilia Brandi, escritora e professora de oficinas de tradução literária; além de Mistério na Glicério, do jornalista Roberto Muggiati.
Laranjeiras é um bairro histórico e de histórias. Nasceu às margens do rio Carioca e começou a ser ocupado por chácaras em meados do século 17. Uma delas era a chácara da Princesa Isabel, localizada na rua Pinheiro Machado, hoje Palácio Guanabara. Enquanto o Centro da cidade se expandia para o subúrbio por meio da linha férrea da Central do Brasil, a área ao sul também se alargava com novas construções. Todas essas memórias aparecem em fragmentos da coleção, um conjunto de textos que reivindica um lugar literário definitivo para a região.
As memórias aparecem em fragmentos da coleção, que reivindica um lugar literário para o bairro
Em Laranjeiras dá música, Pedro Paulo Malta, que é também roteirista e apresentador da Rádio Batuta, do IMS, explora as origens da vocação musical do bairro. Amparado em quase dois séculos de produção de choros, sambas, grupos carnavalescos e composições, traça uma linha do tempo de ilustres músicos que contribuíram e ainda colaboram com o cancioneiro popular. Um deles é o rapper Filipe Ret. “Já viu quantos seguidores ele tem, pai? Os ouvintes no Spotify?”, anuncia Malta, logo nas primeiras páginas, citando uma provocação do filho, como um prenúncio da nova geração de ouvintes ligada nos versos “Vem que tem/ Eu tô em Laranjeiras”, da canção “Os deuses me chamam” (2012).
Se o presente é retratado na música contemporânea a partir de uma marcante ligação com a rua e as batidas do rap, pode-se afirmar, conta Malta, que essa conexão encontra reflexos nos habitantes das décadas passadas. O maestro Heitor Villa-Lobos (1887-1959) nasceu numa casa de vila da rua Ipiranga e era frequentador, com os filhos, da antiga Praça de Touros Laranjeiras (na esquina da Ipiranga com a rua das Laranjeiras). A praça já não existe mais; foi demolida para dar lugar a prédios residenciais.
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Outro célebre morador do bairro foi o sambista Angenor de Oliveira, o Cartola (1908-1980). Ele viveu os primeiros anos no bairro, na rua Mundo Novo, antes de se mudar para o morro da Mangueira. Malta relembra que o pequeno Angenor sentiu as primeiras vibrações das cordas do cavaquinho nas ruas de Laranjeiras, quando ainda menino desfilava no Arrepiados, um rancho carnavalesco de operários da fábrica da Aliança, a maior do país no início do século 20. O verde e o rosa do estandarte do rancho inspiraram Cartola na escolha das cores da Estação Primeira de Mangueira, escola que ajudou a fundar em abril de 1928.
Assim como Malta dá contorno aos sons do bairro, na plaquete Aqui nasceu Lima Barreto e outras histórias, Rachel Valença enumera escritores e escritoras que forjaram parte de sua obra literária inspirados em ruas e eventos do bairro. Embora o jornalista e escritor Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922) tenha vivido parte significativa da vida no bairro Todos os Santos, no subúrbio carioca, ele nasceu e viveu os primeiros anos também na rua Ipiranga, na casa de número 18.
Machado
A memória da vida produtiva de Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) é um dos registros mais curiosos da breve historiografia literária do bairro narrada por Valença. Em todas os títulos, surge o questionamento dos autores e autoras acerca dos limites físicos entre os bairros de Laranjeiras, Largo do Machado e Cosme Velho: “em qual rua começa um e termina o outro?”. Não existem pretensões de delimitar tal fronteira, mas Valença afirma que é indiscutível que Machado tenha vivido, sim, no Cosme Velho. Ali, o autor morou até a morte, em um sobrado já demolido e que deu lugar a um prédio residencial — onde hoje se pode ler, numa singela placa, “Aqui morou Machado de Assis”.
Em Criança de botequim, Paulo Roberto Pires apresenta aos leitores histórias de outras paragens da cidade. Mas não muito distantes das Laranjeiras. Em quatro crônicas, Pires narra memórias de um Rio de Janeiro mais boêmio, mais desperto durante a madrugada e com mais jornais à venda nas bancas. No texto que dá nome à plaquete, o autor descreve a solidão de uma criança a partir de uma fotografia histórica reproduzida em uma das paredes do restaurante Villarino, no Centro do Rio. Mas não de qualquer criança — o menino é Pedro de Moraes, filho do poeta Vinicius de Moraes (1913-1980).
Desse detalhe em diante, Pires segue com especulações sobre o exílio temporário de crianças e adultos em bares. O texto apresenta um tempo em que a noite carioca era um convite a experiências possíveis somente após as duas da manhã. Quem compreendia bem esse tempo era outro personagem, conta Pires em “O fim do homem coletivo”. Era Alfredo Jacinto Melo (1945-2019), o Alfredinho, fundador do Bip Bip, bar em Copacabana conhecido pelas rodas de samba e choro comandadas em rodízio por músicos e cantores e por quem mais se aproximasse da cantoria. De acordo com Pires, Alfredinho fazia jus à fama boêmia de qualquer parte da cidade — era um homem das Laranjeiras, da Vila Isabel, do Méier, do Centro, de Cascadura, da Praça da Bandeira e também, por obra do destino, de Copacabana, onde foi velado numa segunda-feira de carnaval.
As plaquetes resumem as subjetividades do bairro, que conserva imaginários inspiradores nas ruas
Os poemas de Língua sem chão, de Cecile Mendonça, e os contos de Prolactina, de Maria Cecilia Brandi, e de Mistério na Glicério, de Roberto Muggiati, apostam em uma Laranjeiras ficcional, instigada por dilemas contemporâneos e crimes sem solução.
Mendonça dá voz ao delicado luto de uma jovem estudante de dança. A autora narra, em 22 poemas, momentos de aprendizado, dúvidas e alegrias vividos na companhia da ausente tia Luci. Em “Prolactina”, conto de Brandi, outra jovem, Lorena, fica às voltas com testes de gravidez. O conto, narrado em tom grave, se passa durante as festas de fim de ano e a alta carga emocional da temporada faz a personagem questionar o amor que dedica aos pais e ao namorado. Já a linguagem do jornalista Roberto Muggiati transporta o leitor diretamente do sereno café Azteca (local fictício em homenagem ao Maya Café, existente no bairro) para o atordoado gabinete do delegado Godofredo. Mistério na Glicério é um breve conto noir, que investiga a morte de João, o clarinetista imorrível.
O repertório das plaquetes resume as múltiplas subjetividades do bairro, que, apesar das transformações, conserva, em suas ruas, imaginários inspiradores. Parafraseando a canção de Nando Reis, o bairro das Laranjeiras sorri — e acena para um futuro de mais memórias e ficções.
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