As Cidades e As Coisas,
Paraísos perdidos
Nostálgicos, Benedito Nunes e Milton Hatoum escrevem sobre a Belém e a Manaus que eles conheceram e que hoje tentam se reerguer
19jun2026Dois escritores profundamente identificados com suas cidades escrevem sobre elas em Crônica de duas cidades: Belém e Manaus. O lançamento dos ensaios de Benedito Nunes e Milton Hatoum vem em boa hora.
Belém teve grande destaque internacional em 2025 por ter recebido a cop 30, a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, que rendeu poucos avanços no combate à emergência climática, mas muita mídia positiva no âmbito turístico. Talvez agora diminua o quase anonimato das duas metrópoles amazônicas.
Mesmo com a globalização, muitos ainda pensam que as cidades ficam no Nordeste ou que são lugares onde a civilização não chegou. Os franceses, com quem convivo há anos por ter títulos publicados naquele país, parecem mais informados do que muitos moradores do Sudeste, onde, quando preciso falar em público, tenho que explicar que sou de Belém, moro em Belém.
Benedito Nunes é uma das glórias do Pará na cultura e na filosofia, com livros traduzidos no mundo todo. Milton Hatoum é outra glória do Amazonas, escritor de livros de fama mundial adaptados para o cinema e a televisão. Nunes é mais expansivo — texto gostoso, fluido, comentado e informativo. Hatoum, mais jovem, tem texto também delicioso. E ambos, nostálgicos, falam de cidades que eles viram — e que hoje tentam se reerguer.
“Cada escritor elege seu paraíso, sobretudo quando se trata de um paraíso perdido”, diz Hatoum. Os dois lamentam a falta de preservação da história e a ausência de um porvir no presente. “Não querem o passado, mas não gostam do presente. Qual o futuro se não há memória?”, questiona Nunes, que cita outro paraense, o escritor Fábio Castro: “Belém, a cidade Sebastiana, que alimenta o desejo de voltar aos tempos de ouro, como que aguardando Dom Sebastião”.
Quando fazia parte do Grão-Pará, Manaus era conhecida apenas como “Pessoal do Rio Negro” ou “Lugar da Barra”. Uma cidade que, a partir de meados do século 19, junto com Belém, agigantou-se com o apogeu da borracha, extraída das seringueiras. Nordestinos e estrangeiros invadiram as duas cidades. Fortunas surgiram, luxos europeus, abertura de bulevares, prédios gigantescos, a petit Paris, diziam, derrubando toscas moradias de barro e palha.
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Nunes lista ícones de Belém como o cais, construído por ingleses, e o Theatro da Paz. Hatoum cita o Teatro Amazonas (ambas as casas pleiteiam o título de Patrimônio Mundial da Unesco) e o porto de Manaus. Nunes conta que, após a derrocada daquele fausto, a classe dominante mudou, com perda da identidade histórica e cultural. Hatoum anota que o “anseio pela modernidade excluiu a tradição cultural indígena”. Perceberam que não havia indústrias. O que a cidade produziria?
Foi somente a partir de 1967, com a Zona Franca, que Manaus ganhou nova vida, tornando-se hoje a cidade mais populosa da região Norte (com 2,3 milhões de habitantes), mas ainda com enormes deficiências.
Insulares
Em ambas as capitais, chegaram a modernidade e a cidadania, mas não para todos. Insulares é o que somos. Antigamente, para chegar às duas cidades, era preciso vir de navio. Hoje criamos a partir da nossa cultura, mesclamos com as informações de fora e produzimos nossa arte.
Pesquisadores dizem que a Semana de 22 já havia começado no Pará. Nossa música é diferente, como o teatro e as artes visuais. Nossos artistas estão pelo mundo causando sensação. Uma vez, na cidade francesa de Besançon, falei ao público que eu morava em uma selva de concreto fincada na maior floresta tropical do mundo e que, cada vez que um morador de uma das ilhas em frente a Belém rema seu barco para trazer açaí, há um encontro entre dois mundos.
Contei também, para surpresa dos franceses, que assistia aos jogos do Paris Saint-Germain, lia o Le Figaro e o L’Express quase todos os dias em nosso mundo globalizado. Meus livros têm como cenário a cidade de Belém, como um lugar novo a ser descoberto. Mas as tramas poderiam acontecer em qualquer outra parte.
Em ambas as capitais, chegaram a modernidade e a cidadania, mas não para todos
Belém sempre foi vibrante, palco do único movimento revolucionário a ter o povo no poder, a Cabanagem, no século 19. Na Segunda Guerra Mundial, recebeu norte-americanos em bases militares. Submarinos alemães frequentavam a costa do Pará. A cidade ganhou enorme impulso com a construção da rodovia Belém-Brasília — mais ainda com a descoberta de Serra Pelada. Dos milhares de garimpeiros ávidos por fortuna, quase todos acabaram na miséria, formando um cinturão de pobreza que avançou, engolindo municípios.
Se dependesse da natureza, não estaríamos aqui. A combinação de muita umidade, chuva, calor e uma cidade abaixo do nível do oceano resulta em enchentes sazonais. Apesar de as lideranças preocuparem-se mais com o imediato, ainda há muitos atrativos, como o enorme casario português e a herança artística, junto ao que há de mais moderno mundo afora. Mesmo assim, ainda temos de explicar de onde viemos, antes de tudo.
Livros como Crônica de duas cidades, entretanto, nos enchem de orgulho, informação e riqueza.
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