Deslembramentos,
a imitação da pequenez
há janelas que se abrem como portas e ao debruçarmo-nos sobre elas estreamos aquilo que nos traz arejamento e travessia
12maio2026 | Edição #106há livros que são pontes para um tempo. mas o tempo é, desde sempre, um labirinto complexo e pessoal. (às vezes) lembro das incertas infâncias: mistério e novidade nas primeiras escritas.
eram dias tão novos que eu nem sabia ainda que o mundo ia existir para mim como um labirinto — de lugares e de pessoas.
[quando o personagem nos fala:]
o mundo anda cheio deles. aqueles que aparecem e reivindicam ser personagens. nem são bem eles que pedem. são as circunstâncias. cada escritor interpreta como quiser. creio que há uma diferença acentuada entre o personagem que “quer falar de si” e o personagem que “quer falar”. o primeiro, o mais das vezes, atrapalha. já aquilo que a vida dele nos diz, isso pode chegar à literatura.
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[e ainda, por exemplo:]
quando o P., durante anos, ia à nossa casa, ele já se constituía per se como um bom personagem. eu é que não sabia onde o arrumar. mas o instinto já me dizia que era preciso ouvir e memorizar as (suas) estórias. o modo de falar, ansioso; a hipervontade de beber álcool; o modo de fumar e de rir. a voz e a tosse. faltava-me algo essencial que, obviamente, em criança, eu não tinha ainda disponível: o tempo. foi preciso vir a vida e eu entender a dimensão psicológica e literária do personagem P.
escrever, no futuro, seria reorganizar o lugar dessas coisas, cruzando os afectos com as convicções e, mais tarde, com as urgências que fazem escrever. lembro algumas madrugadas. misturo os tempos, porque não sei separar a água da nascente e a água da foz do rio. o rio como vida que correu. e as margens, que se imaginam fixas, são pessoas como os outros e nós mesmos.
[as janelas narrativas da madrugada:]
o caso mais emblemático, para mim, foi o do grande equívoco geográfico que se revelou um grande desencontro. um amigo estava em Luanda e combinou comigo defronte a um hotel, num bar. ele não me deu o nome do hotel nem o do bar. e eu: já sei onde estás. dirigi-me para lá. sentei-me no tal bar. bebi duas cervejas e ele nunca apareceu. havia de facto um hotel ali perto. quando ia ao hotel perguntar pelo amigo, fui interpelado por um homem que pediu para se sentar e disse a frase mágica: se você me pagar umas cervejas, eu conto uma estória como você nunca ouviu na vida.
eram cerca das 18h57 quando começámos a beber. ele mais do que eu. terminámos perto das 5h47 do dia seguinte. atravessámos a madrugada sem sinal do meu amigo. baseado nesse relato escrevi quantas madrugadas tem a noite. por mais que tente, nunca mais reencontrei o homem que bebeu comigo.
[e os tempos?]
levei anos a conceber a imagem de uma escada que não funciona como as escadas que usamos para atingir lugares. “na literatura” (disse-me Freddy Ginebra, o homem que dirige a Casa de Teatro na capital da República Dominicana), “o tempo e o espaço são degraus de uma escada completamente louca. não se trata nunca de descer ou subir, mas de inventar a deslocação”. (logo de seguida, eu perguntei: y el rum que me habías prometido?)
há janelas que se abrem como portas e ao debruçarmo-nos sobre elas estreamos aquilo que nos traz arejamento e travessia. dois terrenos mágicos para os fazedores de caminhos.
o regresso das coisas ao seu novo lugar… ou como dizia um incerto griot na Guiné-Bissau: o mundo é uma região grande que imita uma pequena curva aberta.
Matéria publicada na edição impressa #106 em junho de 2026. Com o título “a imitação da pequenez”
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