Repertório 451 MHz,
Querido diário
Adriana Lisboa e Júlia de Carvalho Hansen falam sobre como o registro de acontecimentos do cotidiano permeia a escrita de suas últimas coletâneas de poemas
01maio2026 • Atualizado em: 05maio2026Está no ar o 194º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Nesta edição, as poetas Adriana Lisboa e Júlia de Carvalho Hansen conversam sobre diários e o registro de acontecimentos do cotidiano, que alimentou a escrita de suas últimas coletâneas de poemas — Antes de dar nomes ao mundo (Relicário), de Lisboa, e Ano passado (Nós), de Hansen.
As convidadas também falam da relação com o tempo não cronológico e do papel dos pais em suas obras. A conversa foi mediada pela crítica literária Luciana Araujo Marques e aconteceu n’A Feira do Livro 2025, meses antes da morte do professor de literatura João Adolfo Hansen, pai de Júlia, em fevereiro deste ano. O episódio foi realizado com apoio da Lei Rouanet.
Também ficcionista, ensaísta e tradutora, Adriana Lisboa publicou Antes de dar nomes ao mundo em 2025. Ela também é autora do romance Os grandes carnívoros (Alfaguara, 2024), do livro de minicontos Caligrafias — lançado originalmente pela editora Rocco em 2004 e republicado pela Maralto este ano — e do infantojuvenil Pipoca e Picolé (Elo, 2023), entre outros.
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Já Júlia de Carvalho Hansen, além de escritora, é astróloga. Antes de Ano passado, que saiu em 2025, ela publicou as coletâneas de poemas Seiva veneno ou fruto (2015) e Romã (2019), ambas pela editora Chão da Feira.
Diários poéticos
Escritos em grande parte em forma de diário, os livros recentes de Lisboa e Hansen mostram como experiências do cotidiano atravessam os poemas. Hansen conta que, durante a escrita, identificou um limiar entre o cotidiano e a intimidade, e percebeu então que poderia “usar o gênero do diário como um gênero de um poemário”.
Ela classifica Ano passado como um livro de poemas que também é um diário, o que aproxima a estrutura narrativa à de um de romance. “O diário traz uma narrativa por dentro dele”, reflete.
Lisboa também enxerga Antes de dar nomes ao mundo como resultado de uma espécie de agenda, em que reuniu acontecimentos e experiências ao longo dos anos para depois acrescentar toques de ficção nos poemas. Ela conta que começou a escrever o livro em 2021, após a morte do pai, vítima da da Covid-19. “Ele [o livro] fala de momentos específicos que eu estava vivendo, ou que estava observando, e que vão sendo compilados poeticamente”, diz.
Instantes
A passagem do tempo é demarcada nos livros com datas e situações específicas, mas nem sempre cronologicamente ou correspondendo a fatos — as duas escritoras ressaltam que nem tudo que relatam é autobiográfico. Questionada pela mediadora sobre sua predileção por capturar na escrita o que acontece de forma instantânea ou repentina, Hansen diz que isso está relacionado à sua ansiedade. Ela completa recitando um poema de Ano passado, que diz ter começado a escrever em meio a um burnout:
“Não sei por que me distraio tão pouco
com o instante que antecede as coisas
mas me concentro tanto pelo instante
do que ainda não aconteceu”.
Já Lisboa vê o instante como algo expansível, capaz de conter muitos tempos. “A poesia é um modo de fazer essa exploração, de cavar as possibilidades desse instante. Mas, ao mesmo tempo, respeitando a simplicidade do que é instante”, diz. “Tenho um grande professor que se chama Manuel Bandeira, que é a escola da simplicidade, do humilde cotidiano”, explica. Um dos grandes mestres da poesia brasileira, Bandeira foi tema do episódio 192 do 451 MHz, que celebrou os 140 anos de nascimento do escritor recifense.
Figuras paternas
As poetas também discutem sua relação com os pais, figuras muito presentes em seus últimos livros. Lisboa relembra quando começou a escrever o poema que abre Antes de dar nomes ao mundo, chamado “Pré-história”, e o lê durante a conversa. O poema, que descreve o silêncio que antecede um novo dia, surgiu na viagem que a escritora, radicada em Portugal há vinte anos, fez para o Rio de Janeiro depois da piora no estado de saúde do pai. “Era uma espécie de pré-história do meu dia”, conta, refletindo sobre seu estado de espírito antes de ir ao hospital encontrar o pai.
Hansen revela que as passagens sobre o pai, que começava a perder a memória, são as únicas, de Ano passado, em que não inventou nada. Ela afirma que cita coisas que o pai dizia — inclusive piadas que tinham como pano de fundo a própria perda gradual da memória. “De certa maneira, essa é uma das crises que eu quis pontuar no livro”.
Livros e afins
Confira os títulos que aparecem nesta edição do 451 MHz e outras leituras ou referências mencionadas durante a conversa:
- Trilogia biográfica (Companhia das Letras), de Elias Canetti
- O corpo interminável (2019), de Claudia Lage
- Os grandes carnívoros (Alfaguara, 2024), de Adriana Lisboa
- Romã (Chão da Feira, 2019), de Júlia de Carvalho Hansen
- O eremita viajante, (Assírio & Alvim, 2016), de Matsuo Bashô
- Ano passado (Nós, 2025), de Júlia de Carvalho Hansen
- Seiva veneno ou fruto (Chão da Feira, 2015), de Júlia de Carvalho Hansen
- Antes de dar nomes ao mundo (Relicário, 2025), de Adriana Lisboa
Mais na Quatro Cinco Um
Durante o episódio, Júlia Hansen fala sobre o poeta Leonardo Fróes, morto no final de 2025. Fróes foi colaborador da Quatro Cinco Um e participou do 25º e 138º episódios do 451 MHz.
Também no ano passado, a revista dos livros publicou trechos de Antes de dar nomes ao mundo, destacando os dilemas da existência humana tratados por Adriana Lisboa no livro. Leia aqui.
O melhor da literatura LGBTQIA+
Este episódio traz ainda uma dica literária do professor de literatura e língua francesa da UFF (Universidade Federal Fluminense) Élvio Cotrim. Ele sugere Onde estão as bombas (Macondo, 2019), de Tatiana Pequeno.
“É um livro sobre o corpo como campo de batalha, mas não só isso também, o corpo como lugar de prazer. É aquilo que uma voz lésbica pode dizer quando decide não pedir licença para existir em várias instâncias. Esse livro é importante porque, no momento em que as mulheres ainda precisam nomear o perigo para sobreviver a eles, Onde estão as bombas nos lembra que a poesia também pode ser isso, uma detonação cuidadosamente construída”, diz.
O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]
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