Subway (1934), pintura de Lily Furedi (Smithsonian American Art Museum/Reprodução)

Onde Queremos Viver,

A carruagem

Constato, com e sem tristeza, que ninguém lê no comboio; talvez a leitura esteja em vias de extinção

28abr2026 | Edição #105

A caminho de uma aula sobre close reading, no comboio dos pobres, leio um artigo de jornal sobre a morte da leitura. Leio-o aos saltos mas atento, apesar de me ir soando a versão frívola de um tema inquietante. O espírito vai do texto para a carruagem, desta para o horizonte em que me projecto, para o que tenho a dizer, esta tarde, a estudantes do presente acerca de crises que o presente esqueceu, que porém se confundem com a acção do espírito sobre a beleza comum que atravessa a gente em redor, a seguir ao almoço, na direcção de Lisboa. 

Uma graça introspectiva, um sono, uma suspensão, semelhante à serenidade da leitura, nada menos. E é quando sinto uma comunidade nessa serenidade. Pode ser que ler seja como andar de comboio. Pode ser que ler no comboio seja um duplo sonhar. 

Filas adiante, viaja um pai com duas filhas: um homem negro, belo, com as suas meninas, ambas de cabelo penteado em pompons e franjinhas trançadas. Vai perdido em pensamentos, preocupado, a menina mais velha faz de conta que dorme no seu colo e a irmã pequena, de seis, sete anos, vai de testa encostada ao vidro. Apreende como bela a berma avariada a longa planície móvel. 

Há fealdades que, vistas da janela do comboio, se confundem com uma beleza triste que é a melancolia dos filhos dos pobres, da classe trabalhadora. Vêm à memória, de novo, os instantâneos de Walker Evans no metro de Nova York, os desenhos de Daumier, que aqueles, querendo agarrar o que eu mesmo vejo aqui agora, imitam. 

A que se deve este misterioso efeito do transporte público no sono dos pobres?

Dormita agora e que imagem: o sono de um pai enquanto a criança se confunde com a distância através de janelas sujas. Queria fotografá-los e aceito que não sei, não posso fazê-lo. Desenhá-los — mas perdi a mão noutra vida. Virá o dia em que as suas fisionomias se terão dissolvido e limitar-me-ei a inventá-los, se chegar a reler estas linhas. E reparo que o faço já, em caligrafia de transporte público, nas últimas páginas de um diário verde.

É neste ponto que a fotografia e a poesia se tocam: numa descontinuidade entre espírito e objecto. Cinema mudo dos pobres, em que me infiltro e revejo diariamente, a paisagem que se vê do comboio é uma figura desta descontinuidade. Aquilo em que o espírito se projecta é uma paisagem em movimento, a condição de cuja forma é não se poder habitá-la porque não é o exterior, mas o (trepidante) pensamento da menina negra de testa encostada à janela. 

Assim, e aqui mesmo, há uns trinta anos, adormeci. Vim acordar várias estações para lá do destino. Lúcido e revigorado: em contacto com um “eu”, por instantes, atemporal. Saí, atravessei a estação e tive de esperar pelo comboio de volta a casa. A que se deve este misterioso efeito do transporte público no sono dos pobres e da classe média, reminiscência do embalo do berço? Não sei. 

Constato, com e sem tristeza, que ninguém lê na carruagem, no sentido comum do termo, a que não se aplicam este novo esquiar da retinas e a reprogramação dos dedos. Talvez a leitura esteja realmente em vias de extinção. Arrastará consigo um modo da consciência primo da invenção do comboio. Por outro lado, antes de haver comboios, não se dormia assim.

Quem escreveu esse texto

Humberto Brito

É escritor, ensaísta e fotógrafo

Matéria publicada na edição impressa #105 em maio de 2026. Com o título “A carruagem”

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