A jornalista e escritora paulistana Vanessa Barbara (Pablo Saborido/Divulgação)

As Cidades e As Coisas,

Viagem ao fim da linha

Entre o inventário minucioso e a atenção ao acaso, Vanessa Barbara revela o insólito nas idas e vindas da maior rodoviária da América Latina

29abr2026 • Atualizado em: 30abr2026 | Edição #105

Em um dos pequenos contos de Histórias de cronópios e de famas (1962), Julio Cortázar narra os hábitos cotidianos dos dois grupos de personagens que dão título ao livro. Antes de viajar, as providências adotadas pelos famas são metódicas: um vai até o hotel e “verifica cautelosamente os preços, a qualidade dos lençóis e a cor dos tapetes”, enquanto outro “vai até o hospital e copia as listas dos médicos de plantão e suas especialidades”. Já os cronópios renunciam a qualquer preparativo, chegam a seu destino com hotéis lotados, transporte atrasado e preços desproporcionalmente altos. Mas não desanimam, porque “acreditam firmemente que essas coisas acontecem com todo mundo”.

Cronópios e famas não são personagens em sentido clássico. São pequenas criaturas que ilustram modos de estar no mundo. Quem lê O livro amarelo do terminal, publicado originalmente pela Cosac Naify em 2008 e reeditado neste ano pela Fósforo, pode ficar com a impressão de que a autora Vanessa Barbara é, antes de tudo, um cronópio. Apenas uma figura com essas características poderia encontrar o insólito nas idas e vindas diárias de milhares de pessoas na principal rodoviária da cidade de São Paulo. Barbara lê a rodoviária do Tietê como “uma cidade de coisas perdidas”. Dos chicletes abandonados aos guarda-chuvas esquecidos, a primeira parte do livro é dedicada a contar a história de pessoas, perdidas ou não.

É por meio da busca por um homem, Creso, que somos introduzidos ao espaço da rodoviária: suas áreas de embarque e desembarque, seu piso superior de serviços com bilheterias, lojas e restaurantes. Barbara segue a pista de que, assim lhe contaram, esse homem passa pelo terminal todos os dias, quase sempre às 7h da noite. Um homem de hábitos, um relógio particular do Tietê. Para encontrá-lo era preciso dirigir-se a uma loja de malas no piso ocidental. Um vendedor da Le Postiche, Hugo, conta que Creso cumprimenta os funcionários diariamente. O momento é fugaz: um homem de camisa amarela grita diante da loja. “É mesmo Creso, acenando do lado de fora. Após uns segundos de incerteza, saio correndo para abordá-lo em meio à multidão, mas ele já havia sumido.” Quando todos parecem anônimos, Barbara procura o encontro furtivo, uma sociabilidade construída na repetição. Creso é quase um fama, enquanto a autora é um cronópio que vê beleza nesse ritual.

A autora vê fios condutores imaginários que organizam o ritmo das pessoas que passam e das que ficam

A rotina é convertida em matéria de estranhamento. Barbara vê fios condutores imaginários que organizam o ritmo das pessoas que passam e das que ficam. As bagagens carregadas pelos passageiros são “como nuvens, parecem assumir feições diferentes a cada troca de ombro”; Cintia, uma das funcionárias do balcão de informações, “é um gerador automático de respostas”, e suas amigas são “almanaques que usam coque, uniforme azul-marinho e lencinho da Socicam”. 

Os funcionamentos internos da empresa concessionária são descritos em toda sua intransparência labiríntica. Ter acesso aos termos do contrato da concessão é um labirinto em si, que leva a autora a seguir a pista de telefones que levam à divisão do “cadastro de empresas”, ao “arquivo-geral” e, depois de outros funcionários, ao fim de linha: a exigência de um ofício para a gerência de compras, protocolado, em papel, com a justificativa para acessar a cópia de um documento tido como “confidencial”, apesar de público. 

A autora por vezes flerta com a dimensão metódica dos famas. A narrativa é entremeada por listas — de títulos de revistas à venda nas bancas de jornal, de preços de itens à venda, de elementos curiosos observados pela autora que funcionam como mais uma camada de estranhamento do que poderia ser lido como banal. O mesmo vale para a quantificação, incorporada como num inventário: 

Nos corredores do terminal, 100 mil cafezinhos e doze toneladas de pão de queijo são consumidos por mês, trezentos quilos de chiclete desgrudam-se do chão a cada grande faxina e 60 mil passageiros vão e vêm a cada dia. Todo mês, 1,4 milhões de créditos telefônicos são consumidos nos orelhões, o que equivale a 46 mil horas de conversa ou 84 milhões de “alôs” repetidos à exaustão. São 63 lojas e onze quiosques, 650 quilowatts de energia por hora, 9 milhões de litros de água e mil quilômetros de papel higiênico (dentro ou fora dos cestos de lixo). 

Os números dão a escala e a medida do Tietê, mas estão longe de uma contabilidade tradicional. Aqui, quantificar não serve para produzir ordem, mas vertigem.

Ditadura

Grande parte do livro se passa em um presente contínuo do encontro. Há, no entanto, uma inflexão quando a autora se volta à construção da rodoviária. A origem do Tietê se confunde com a memória da ditadura civil-militar. É em 1967 que a ideia de uma rodoviária única se consolida, uma história de interesses privados e desvio de dinheiro público, com uma reforma do que viria ser o terminal antes mesmo de sua abertura. Em 8 de maio de 1982, a inauguração teve protesto organizado por mais de trinta entidades proibido pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). Paulo Maluf, então prefeito, dizia tratar-se de “uma integração em alta escala” enquanto 36 manifestantes, incluindo jornalistas, eram presos pelos militares.

O olhar de Barbara nos leva a desnaturalizar os encontros no maior terminal rodoviário da América Latina. As pessoas, seus trabalhos e as distâncias que percorrem passam a estar no centro das histórias. Não é um registro meramente lúdico, mas marcado pela gravidade da tortura e da ausência de democracia nas concessões de transporte. Entre o inventário minucioso e a atenção ao acaso, O livro amarelo do terminal revela o quanto há a descobrir sobre espaços tão cotidianos de passagem, como se cronópios e famas caminhassem numa corda bamba.

Quem escreveu esse texto

Bianca Tavolari

É professora da Fundação Getúlio Vargas e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Matéria publicada na edição impressa #105 em maio de 2026. Com o título “Viagem ao fim da linha”