Bloco de rua ocupa Centro de São Paulo no Carnaval de 2025 (Prefeitura de São Paulo/Reprodução)

As Cidades e As Coisas,

Planejar o imprevisível

Pablo Sendra retoma clássico da sociologia de Richard Sennett para propor espaços urbanos mais espontâneos e adaptáveis

22dez2025 • Atualizado em: 17dez2025 | Edição #101

Pergunte a alguém que mora em uma grande cidade brasileira se considera o espaço urbano ordenado. A chance de se ouvir um não é alta. Ao contrário das capitais europeias, que se constituíram ao longo de séculos, as brasileiras passaram por um desenvolvimento intenso em um período curto. O crescimento acelerado, combinado com um histórico de desigualdade e violência — que muito se deve à nossa história colonial —, resultou em uma percepção corrente de que não existe nenhum tipo de ordenamento urbano no Brasil, salvo em capitais ditas planejadas, como Brasília e Palmas. Mas as mazelas que observamos no nosso espaço urbano não são fruto da ausência total de planejamento, e sim do desenho de políticas públicas que, grosso modo, escolheram priorizar o carro, delimitar e blindar o espaço privado e ignorar as áreas onde populações mais pobres e minorizadas se estabeleceram.

Qual pode ser, portanto, o interesse por um livro, escrito por um autor espanhol e outro norte-americano, que defende uma desordem intencionalmente projetada? Como escreve Leandro Medrano na apresentação à edição brasileira de Desenhando a desordem, “em um país onde a maioria das cidades já é percebida como desordenada ou mesmo caótica, a proposta de ‘projetar a desordem’ pode soar contraintuitiva ou até mesmo perigosa”. Num país em que a coexistência entre a cidade formal e informal é complexa e o Estado, cujo papel seria o de manter certa ordem, faz o contrário, como na recente chacina no Rio de Janeiro, é uma grata surpresa que a discussão desse livro tenha muito a dizer a brasileiros sobre o que Medrano chama de “desordem qualificada”.

Pablo Sendra, arquiteto e professor da Bartlett School of Planning, em Londres, recupera os argumentos centrais de The Uses of Disorder [Os usos da desordem, sem tradução no Brasil], obra publicada em 1970 pelo sociólogo Richard Sennett e até hoje uma referência para interessados no meio urbano. No livro, Sennett se opõe à rigidez do planejamento modernista e defende novas formas do fazer urbano que promovam diversidade e adaptabilidade, o que contribuiria para que os moradores das cidades lidassem melhor com a ambiguidade e a contradição. Sendra retoma essas ideias cinquenta anos depois (Desenhando a desordem foi publicado em 2020 no Reino Unido) para explorar intervenções urbanísticas que põem em prática os tipos de desordem que o sociólogo defendia. A coautoria do livro é um de seus grandes trunfos, por permitir um diálogo não só entre gerações, mas entre disciplinas que muitas vezes não conversam: a sociologia e o desenho arquitetônico. A ideia de testar, projetualmente, ideias teóricas é corajosa e ambiciosa.

O estudo traz uma série de definições para a desordem defendida pelos autores. Como fio condutor, poderíamos pensar em espaços capazes de se adaptar a usos diferentes e mudanças ao longo do tempo. São lugares que acolhem e promovem usos imprevisíveis, diversos e espontâneos. Sendra discute o próprio processo de projetar as intervenções na cidade e propõe dois fluxos que devem ser sobrepostos: projetar para a interação e para a indeterminação. A linguagem utilizada e os desenhos das propostas são acessíveis e não partem do princípio de que o leitor tenha uma formação técnica.

É desafiador desenvolver projetos que atinjam um equilíbrio entre implementar espaços em que as pessoas tenham liberdade de propor usos espontâneos e que também contenham contornos suficientes para princípios específicos. Os autores admitem que as ferramentas sugeridas propiciam uma cidade mais aberta, mas não garantem. São propostas que “fornecem possibilidades, não certezas”. Outro desafio admitido por Sendra é que seus colegas de profissão, bem como as autoridades responsáveis pela criação e gestão de espaços na cidade, costumam ser avessos à ideia de projetar para a incerteza. Prevendo essas críticas, ele responde que, na essência, o planejamento urbano está sempre tentando lidar com resultados incertos e a virada de chave seria fazer da imprevisibilidade algo positivo a ser deliberadamente explorado.

Como saber se determinado lugar deu certo? Se atingiu a tal da desordem qualificada?

Ao discorrer sobre como as ideias de Sennett poderiam ser postas em prática, o livro traz alguns conceitos interessantes, como a diferença entre divisas e fronteiras para se pensar na conexão entre comunidades: enquanto a divisa estabelece um fechamento, a fronteira permite fluxos. É importante cuidar dessas margens ao se planejar as cidades e propor intervenções que promovam trocas entre grupos diferentes. Também é abordada a importância de realizar intervenções de maneira gradual e em coautoria com os usuários dos espaços. Por defender projetos que não entreguem lugares finalizados, Desenhando a desordem enfatiza a importância de feedbacks contínuos para que melhorias e revisões possam ser feitas.

Para além das resistências esperadas de profissionais do meio, há outra dificuldade em relação às propostas defendidas no estudo: como saber se determinado espaço deu certo? Se atingiu a tal da desordem qualificada? Os autores oferecem alguns exemplos que já existem em cidades europeias. Um deles é uma praça na região leste de Londres onde Sendra considera que existe uma “assemblagem de atividades diferentes”, incluindo usos fixos e temporários, planejados e espontâneos, sendo possível traçar os passos e decisões projetuais que levaram a isso.

Durante a leitura, me perguntei quais lugares entre os que conheço traduzem as ideias defendidas pelos autores. Em uma visita a São Paulo, imaginei que Sendra e Sennett admirariam a avenida Paulista aberta ao público, com seus usos temporários, diversos e informais, e o vão livre do MASP, uma “arquitetura da liberdade”, nas palavras do compositor John Cage. Quanto a processos e maneiras de criar um espaço, o projeto coletivo que levou à implementação do parque Augusta e que incluiu, em sua trajetória, uma ocupação cultural do terreno antes de se tornar um parque, traz à tona muitos dos princípios de adaptabilidade e conflito abordados.

Vocação à bagunça

Volto à pergunta do início: o que nós moradores de cidades brasileiras podemos fazer com o que o estudo propõe? Ao tratar de lugares tão distintos, a discussão pode nos levar a pensar sobre o nosso próprio contexto com um certo distanciamento, e nos encorajar a refletir sobre a nossa vocação para a bagunça. Como diz Gregorio Duvivier na peça O céu da língua, temos um vocabulário quase infindável em português para a desordem, o furdunço, a baderna. E só tomaremos jeito como país quando pararmos de tentar achatar essa dimensão com modelos ordenadores hostis às dinâmicas locais.

Isso não significa defendermos a ausência de Estado ou de acesso a direitos fundamentais, mas nos apropriarmos de algo que existe no Brasil e, em suas melhores manifestações, é uma espécie de tecnologia social. São as nossas instituições que precisam se alçar à altura do nosso Carnaval — uma expressão cultural e urbana que seria talvez o maior exemplo dessa desordem qualificada: adaptável, diversa, imprevisível e feita e refeita a muitas mãos.

Quem escreveu esse texto

Mariana Schiller

É crítica literária, urbanista e mestre em planejamento urbano pela Bartlett School of Planning, em Londres.

Matéria publicada na edição impressa #101 em janeiro de 2026. Com o título “Planejar o imprevisível”

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