Laut,
O acordo que regula a morte
Pesquisas de Graham Denyer Willis apontam que Estado e crime dividem a gestão da violência e dos desaparecimentos na periferia de São Paulo
01maio2026 • Atualizado em: 29abr2026 | Edição #105Quando o empresário Antônio Vinícius Lopes Gritzbach foi executado com tiros de fuzil no desembarque do aeroporto mais movimentado do país, na Grande São Paulo, em plena luz do dia, o caso pareceu um desvio. Era na verdade uma síntese não só da audácia crescente do crime, mas de algo mais profundo: o conluio entre crime e Estado.
Gritzbach operava um esquema de lavagem de dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC), grupo nascido nas prisões paulistas e hoje expandido por mercados ilícitos nacionais e transnacionais. Jurado de morte pela facção, acusado de mandar matar um integrante graduado da organização criminosa, tornou-se delator — e passou a expor não só a engrenagem do crime, mas os vínculos com agentes das polícias.
Na cinematográfica execução, em novembro de 2024, os papéis se cruzaram de forma explícita. De um lado, policiais de folga faziam ilegalmente a escolta privada do empresário delator. Do outro lado, integrantes da polícia, a serviço da facção, empunhavam as armas que o mataram. O episódio, com a coreografia de um acerto de contas e a assinatura difusa dos autores, expôs o que costuma operar de forma menos visível.
É esse tipo de arranjo — menos exceção do que regra subterrânea — que estrutura o argumento central de O consenso da morte, do cientista político Graham Denyer Willis, que se define como brasilianista. Ele se mudou para o Brasil ainda adolescente, nos anos 90, e os trinta anos no país são a base da sua especialização em políticas da desigualdade e da violência. Hoje, o pesquisador leciona Desigualdades, Política Latino-americana e Cidades na Universidade de Cambridge.
Publicado originalmente nos Estados Unidos em 2015, o livro se tornou referência ao deslocar a pergunta clássica sobre segurança pública: não mais como o Estado combate o crime, mas como diferentes atores operam, juntos, a violência. A resposta de Willis é desconfortável. Em São Paulo, o controle do matar não pertence exclusivamente ao Estado — na prática, é compartilhado com o PCC. Não por meio de pactos formais, mas de um conjunto de rotinas, omissões e reconhecimentos tácitos que produz uma espécie de estabilidade armada.
A polícia historicamente registrou mortes como “resistência à prisão”, uma categoria elástica, capaz de absorver desde confrontos até execuções sumárias. De tão estigmatizada e enviesada, essa tipologia de registro recebeu nova denominação na última década: mortes decorrentes de intervenção policial. Já o PCC impõe sua ordem com códigos de conduta e disciplina cujas punições incluem o justiçamento de quem viola as regras.
O ‘bandido’ morto pela polícia é, muitas vezes, o sujeito condenado pelo PCC por romper com a disciplina
Mais Lidas
Essas duas lógicas não correm apenas em paralelo. Como mostra Willis, incidem sobre os mesmos corpos e, sobretudo, sobre critérios semelhantes de quem pode morrer. O “bandido” morto pela polícia é, muitas vezes, o sujeito condenado pelo PCC — alguém que rompeu não só com a lei, mas com a disciplina do crime.
Willis chama esse arranjo de “soberania por consenso”: um acordo silencioso que define, na prática, quem pode matar, quem pode morrer, onde e em quais circunstâncias. Não se trata de eliminar a violência, mas de domesticá-la e torná-la administrável, previsível.
Esse equilíbrio se sustenta em gestos cotidianos. Policiais que evitam certos territórios ou ocultam sua identidade ao morar em áreas sob domínio do PCC. Integrantes da facção que aceitam extorsão ou calibram suas ações para não provocar repressão desproporcional. Investigações que não avançam diante da lei do silêncio. Mortes que não geram retaliação.
Há, também, uma economia dissimulada de entregas. O PCC pode punir seus membros ou até encaminhá-los ao sistema formal, enquanto a polícia, por sua vez, convive com zonas de baixa intervenção. O confronto aberto, afinal, é ruim para ambos.
Mas o consenso é frágil — e, quando se rompe, revela sua função. Nas crises analisadas por Willis, como as de 2006 e 2012, a regulação dá lugar à guerra: ataques a policiais, execuções em série, retaliações em cadeia. O número de mortes dispara. É nesses momentos que se torna mais claro o papel do arranjo cotidiano: em vez de impedir a violência, evitar que ela saia do controle.
Necropolítica
Para chegar a esse diagnóstico, Willis combinou duas etnografias. Entre 2009 e 2012, acompanhou investigadores da Polícia Civil e do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), observando como mortes são classificadas, explicadas e, muitas vezes, encerradas. Em paralelo, realizou trabalho de campo em uma comunidade da zona leste sob domínio do PCC, ouvindo moradores, trabalhadores sociais e integrantes da facção sobre a lógica interna desse regime.
O resultado é uma inversão incômoda: a violência deixa de ser apenas falha do sistema e passa a aparecer como parte de sua engrenagem, ou seja, uma necropolítica.
Quando o livro de Willis foi lançado pela editora da Universidade da Califórnia, em 2015, a hipótese ajudava a explicar um paradoxo: a queda dos homicídios em São Paulo convivia com a consolidação do PCC e com níveis persistentes de letalidade policial. Entre 1980 e 2000, a taxa de homicídios em São Paulo aumentou 350%. Do início dos anos 2000 até 2010, a queda foi drástica e retornou a níveis de 1980.
Mais de uma década depois, o quadro se intensifica. O Estado reforçou políticas baseadas no confronto e ampliou o encarceramento. O PCC se expandiu dentro e fora das prisões, num movimento que acompanha esse crescimento da população atrás das grades — e, em certa medida, depende dele. Nesse processo, sedimentou-se algo mais difuso: um consenso social sobre quais vidas podem ser perdidas sem abalar a ordem — em geral, jovens, negros e moradores das periferias.
Se O consenso da morte ilumina as regras que organizam o matar, ele também prepara o terreno para uma pergunta ainda mais incômoda, que atravessa o livro seguinte de Willis: o que acontece quando nem mesmo a morte é plenamente reconhecida?
É o que ocorre quando alguém desaparece. A cada ano, no Brasil, isso acontece com cerca de 80 mil pessoas — sem que se saiba ao certo se fugiram, foram mortas ou simplesmente deixaram de existir para o Estado. As famílias seguem procurando, abandonadas por um poder público inundado de problemas que considera mais urgentes no campo da segurança pública.
Ausência administrada
Em Mantenha os ossos vivos, Willis sai da morte administrada para a ausência administrada, a partir da ideia de que algumas pessoas podem simplesmente desaparecer sem produzir uma crise. O autor chama a atenção para o fato de que todo desaparecimento é político e, no caso brasileiro, está ancorado num histórico em que desaparecimentos e buscas se tornaram estratégia de sobrevivência para uns e de exercício de poder para outros.
Willis propõe que, no Brasil, o desaparecimento não é um desvio, mas uma prática com raízes históricas profundas. Ele remonta às missões jesuíticas que reagrupavam populações indígenas devastadas, atravessa a escravidão — quando fugir e desaparecer eram, ao mesmo tempo, estratégia de sobrevivência e motivo de perseguição — e chega ao presente como uma lógica que continua a distribuir desigualmente o direito à existência.
Hoje, essa lógica se traduz em uma distinção brutal: há pessoas que, em vida, são intensamente policiadas e que, ao desaparecer, não se tornam dignas de buscas.
O livro acompanha esse processo de perto. Mães que percorrem delegacias, hospitais, cemitérios, insistindo em manter vivos, ainda que na memória e na busca, filhos que o Estado deixou de procurar. Promotores e funcionários públicos que tentam dar materialidade a casos que escorrem entre sistemas. Corpos não identificados que se acumulam; fragmentos de ossos que às vezes são tudo o que resta.
Sedimentou-se um consenso sobre vidas que podem ser perdidas: em geral, jovens, negros e das periferias
A espera se torna método. Na melhor hipótese, o desaparecido reaparece, desmentindo a tragédia. Na pior, um corpo confirma o destino mais provável. Mas há um terceiro cenário, mais comum e mais corrosivo: a ausência de um desfecho. O caso que não se fecha. A falta que não se resolve nem como vida nem como morte.
É nesse intervalo que se instala o que Willis chama de uma política do desaparecimento: uma forma de gestão em que o Estado não precisa decidir explicitamente quem deve morrer, porque já naturalizou quem pode sumir sem deixar rastro suficiente para mobilizar resposta.
Há, portanto, uma linha de continuidade entre os dois livros. Em O consenso da morte, define-se quem pode morrer sem abalar a ordem. Em Mantenha os ossos vivos, define-se quem pode desaparecer sem sequer entrar nessa contabilidade.
Entre um e outro, o que se revela é uma mesma estrutura: uma hierarquia de vidas tão desigual quanto a sociedade em que elas se inserem. Algumas são protegidas. Outras, apenas toleradas. E há aquelas que podem ser perdidas, seja pela bala, pela burocracia ou pelo esquecimento, sem que o sistema precise se reorganizar.
Se o caso Gritzbach escancarou a engrenagem compartilhada que decide quem pode morrer e como, a pesquisa de Willis também desloca o olhar para aquilo que não explode à vista, mas se acumula no silêncio: os que somem sem cena, sem registro e, muitas vezes, sem consequência.
Entre a execução espetacular e o desaparecimento calado, o que se desenha não são fenômenos distintos, mas partes de uma lógica: a de um país que, todos os dias, define quais vidas merecem visibilidade, investigação e luto, e quais podem simplesmente deixar de existir.
Editoria especial em parceria com o Laut
O LAUT – Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo realiza desde 2020, em parceria com a Quatro Cinco Um, uma cobertura especial de livros sobre ameaças à democracia e aos direitos humanos.
Matéria publicada na edição impressa #105 em maio de 2026. Com o título “O acordo que regula a morte”