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Manual da extrema direita

Jornalista disseca o Projeto 2025, que estrutura ofensiva conservadora a partir dos Estados Unidos, e os possíveis impactos no Brasil e no mundo

23dez2025 • Atualizado em: 18dez2025 | Edição #101

As ideologias, em outro momento ancoradas em estruturas mais estáveis, hoje se movem de forma acelerada, reconfigurando o tecido do presente. Em diversas democracias ocidentais, os movimentos conservadores não apenas têm ganhado espaço eleitoral, mas articulado visões de longo prazo para transformar estruturalmente o Estado e a sociedade. Nesse contexto global, compreender os manuais de operação dessas forças torna-se crucial. 

O Projeto: como a extrema direita está transformando os Estados Unidos, do jornalista David Graham, é uma contribuição indispensável a esse entendimento. Recém-lançado pela Zahar, o livro disseca, com rigor analítico e clareza expositiva, o plano monumental elaborado por um consórcio de think tanks conservadores, liderado pela Heritage Foundation, a fim de preparar uma transição de governo radicalmente eficiente para um próximo mandato republicano nos Estados Unidos, muito provavelmente sob a liderança de Donald Trump.

Repórter da revista The Atlantic e reconhecido pela cobertura da política americana, Graham evita o caminho fácil do alarmismo panfletário. Em vez disso, adota a análise minuciosa, debruçando-se sobre as quase mil páginas do documento original do Projeto 2025 para revelar, mais que um conjunto de políticas, uma detalhada reengenharia do poder Executivo. 

O livro-reportagem expõe, capítulo a capítulo, as ambições do projeto, que vão desde a expansão das prerrogativas presidenciais, passando pelo desmantelamento do que chamam de “Estado administrativo” — com a proposta de reclassificar e potencialmente demitir dezenas de milhares de funcionários públicos considerados desalinhados —, até a reversão de regulações ambientais e climáticas. O jornalista também detalha as propostas para nomear juízes alinhados a uma interpretação da Constituição que permita impor visões conservadoras sobre direitos reprodutivos e questões lgbtqia+ e reorientar a política externa americana para um viés nacionalista e protecionista.

O grande mérito de O Projeto está na capacidade de Graham de tornar palatável um documento denso e, por vezes, bastante árido, sem simplificações excessivas. Ele demonstra como o Projeto 2025 se diferencia de plataformas políticas tradicionais por oferecer um roteiro pragmático, quase gerencial, para a tomada e perpetuação de poder. Não se trata apenas de “o que” fazer, mas fundamentalmente de “como” fazer: o plano inclui listas de potenciais nomeados para cargos-chave, minutas de ordens executivas prontas para assinatura e estratégias detalhadas para neutralizar resistências burocráticas e legais. 

Graham revela a sofisticação organizacional por trás da iniciativa, que aprendeu com as dificuldades enfrentadas pelo primeiro mandato de Trump e que procura garantir que, desta vez, a máquina governamental seja rapidamente alinhada à vontade do Executivo. A descrição quase cirúrgica das intenções e métodos do plano é, por si só, tão inquietante quanto as consequências para a separação de poderes e a estabilidade das instituições democráticas.

Para o leitor brasileiro e latino-americano, Graham oferece mais do que um raio-x dos bastidores da política americana. As reverberações de uma implementação do Projeto 2025 seriam sentidas globalmente e o Brasil, por sua posição geopolítica e econômica, sofreria imediatamente esses impactos. Ainda que o jornalista não explore essa dimensão, as conexões são evidentes. A proposta de tarifas comerciais mais altas e a revisão de acordos multilaterais, como foi visto, podem afetar diretamente as exportações brasileiras. 

O mérito de Graham está na capacidade de tornar palatável um documento denso, sem simplificá-lo

O abandono dos compromissos climáticos e o incentivo a combustíveis fósseis têm consequências ambientais planetárias, com impacto particular na Amazônia. A redefinição de alianças e da postura americana em organismos internacionais é capaz de alterar o equilíbrio de poder regional. Além disso, o Projeto 2025 pode funcionar como um case sobre a organização e a metodologia da nova direita global. A forma como o programa articula think tanks, quadros técnicos e estratégias de comunicação pode servir de inspiração para movimentos políticos conservadores, no Brasil e em outros países, que também buscam consolidar planos de longo prazo para o exercício do poder.

Resistências

O texto de Graham é ágil e informativo, mantendo o leitor engajado mesmo diante da complexidade dos temas. Ele contextualiza historicamente o surgimento do projeto, traçando suas raízes no movimento conservador americano das últimas décadas, e oferece o perfil dos principais arquitetos intelectuais por trás da iniciativa. Se há uma crítica possível, talvez seja a de que o livro–reportagem, por focar na descrição e análise do plano em si, dedique menos espaço a explorar quaisquer resistências institucionais ou sociais em potencial, embora reconheça a existência delas. Contudo, essa escolha parece deliberada: o objetivo principal é alertar sobre a seriedade e a viabilidade do plano, caso as condições políticas se mostrem favoráveis.

O Projeto é, portanto, mais do que um comentário sobre o novo mandato de Trump: é uma análise essencial sobre a evolução do pensamento conservador e as suas estratégias concretas para moldar o século 21. Para um público acostumado a análises que conectam política, sociedade e tendências globais, o trabalho de Graham é um recurso inestimável. Ele nos obriga a confrontar a possibilidade de transformações profundas no que se entendia como a maior democracia do mundo e a refletir sobre como esses movimentos se espelham e impactam nossa realidade. Um texto sóbrio, detalhado e fundamental para quem busca compreender as forças que estão redesenhando o mapa do
poder contemporâneo.

Editoria especial em parceria com o Laut

LAUT – Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo realiza desde 2020, em parceria com a Quatro Cinco Um, uma cobertura especial de livros sobre ameaças à democracia e aos direitos humanos.

Quem escreveu esse texto

Ana Paula Manrique Amaral

É mestre em direito e doutoranda em teoria literária e literatura comparada na USP.

Matéria publicada na edição impressa #101 em janeiro de 2026.