Literatura infantojuvenil,
O que cabe em uma mala
Eva Uviedo revisita a ditadura argentina a partir da sua experiência infantil do exílio e da dificuldade de narrar um trauma
20mar2026Uma criança chega da escola e encontra o mundo organizado — o almoço na mesa, os objetos mais queridos onde foram deixados, a sensação de que tudo segue como sempre. Até que… Em A mala vermelha (Companhia das Letrinhas), a artista argentina-brasileira Eva Uviedo traduz a chegada da violência política ao cotidiano, filtrada por um olhar infantil que percebe os sinais, mas não capta inteiramente o que significam.
Em entrevista à Quatro Cinco Um, Uviedo fala sobre o exílio como matéria narrativa e os efeitos íntimos da ditadura militar argentina (1976-1983).

Por que retratar o exílio às crianças?
Quis contar uma história sobre rupturas. As histórias sobre guerras, ditaduras e instabilidades políticas geralmente são contadas pelos protagonistas ou por quem quer dar sua versão, mas acho importante trazer a perspectiva de quem é afetado por esses processos. Para isso, como em Ainda estou aqui, de Walter Salles, é preciso mostrar primeiro um mundo idílico, para evidenciar o quanto a ruptura é traumática. Por ser uma criança, a personagem sente o impacto, mas não entende completamente o subtexto e o trauma. É só depois que percebe que a viagem representa um “desgarrar” das coisas.
O que a inspirou a escrever?
Tive um insight ao ver um debate entre Sebastián Santana Camargo e Bernardo Corman acerca do livro infantil Meu tio chega amanhã, em que uma criança, durante a ditadura, espera pelo tio, que não volta. Isso me inspirou a contar esta história.
O primeiro rascunho já combinava texto e desenho. Depois, ampliei a narrativa: inseri as pautas e as “páginas de silêncio”, fundamentais para retratar o silenciamento e a invisibilidade com que o exilado aprende a conviver. Por isso, as ilustrações começam mais organizadas e vão se tornando mais soltas e escuras.
Ao final, o leitor descobre sobre o seu exílio durante a ditadura militar argentina…
A história é baseada em fatos reais, mas quis mantê-la aberta. Embora se passe no século 20, com elementos de época bem marcados, e faça alusão às ditaduras da América Latina, fala sobre deslocamentos forçados no geral.
‘O livro retrata o silenciamento com que o exilado aprende a conviver para sobreviver’
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Evitei marcadores nacionais para a história dialogar com outras realidades, inclusive contemporâneas. Quis mostrar que conflitos afetam profundamente o cotidiano das crianças. Falo a partir do único ponto de vista possível para mim: o de uma criança que viveu o exílio. Isso se conecta com um movimento mais recente de filhos de exilados que passaram a elaborar essa experiência, como o coletivo Filhas e Filhos do Exílio, na Argentina.
Os filhos têm interesse em entender a história de seus pais e avós. O meu filho fala com a minha mãe e também se apropria dessa história.
O que se deixa para trás quando se parte para o exílio?
O Senhor Lobo, a pelúcia da personagem, representa, para mim, o que não consegui levar. Outros objetos podem ser substituídos, mas um brinquedo afetivo que não cabe na mala é extremamente simbólico. Há uma sutileza no desenho que talvez não seja tão perceptível, mas o Senhor Lobo é animado até o momento da despedida. Ele não cabe na mala — acho que queria caber. Quando a menina diz adeus, ele se torna inanimado, como se “morresse”.
Como vê a Argentina hoje?
Atualmente, o país parece viver a mesma situação de cinquenta anos atrás: crise econômica, greve, governo que reprime porque a economia é mais importante que os seres humanos, ações autoritárias… A Argentina passou por avanços importantes, como julgamentos e processos de memória, mas existem perseguições e prisões. Claro que a situação é outra, mas, para quem vive isso de perto, pode ser um gatilho.
Tenho esperança porque temos falado sobre isso, novas gerações estão se interessando, coletivos continuam ativos. Por lá, há uma frase que resume bem: “Sem memória, não há reparação; sem reparação, não há futuro”. Por isso é fundamental seguir contando as histórias, inclusive para as crianças.
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