Política,
Para onde vai o Irã?
Para a especialista em geopolítica Denilde Holzhacker, retaliação rápida surpreendeu mais do que a estratégia americana e israelense
10mar2026 • Atualizado em: 14mar2026 | Edição #104A imprensa é uma necrófila insaciável e sua matéria-prima são as novidades. Por isso, quando Estados Unidos e Israel bombardearam Teerã, no último dia de fevereiro, veículos jornalísticos em todo o mundo noticiaram o início de mais uma guerra do Golfo. Olhando com a lente da história, a morte do líder supremo da teocracia iraniana, o aiatolá Ali Khamenei, marcou o dia 875 da guerra iniciada em 7 de outubro de 2023 — quando militantes do Hamas e de outros grupos terroristas romperam as cercas que isolavam a Faixa de Gaza e massacraram centenas de civis em território israelense, na maior invasão do país desde a guerra que marcou a fundação do Estado de Israel, entre maio de 1948 e março de 1949.
A reação do governo de Benjamin Netanyahu é a guerra mais longa da história do país e a regionalização do conflito, que acabou alterando o mapa político e militar de diversos países: no território palestino, a pulverização de 70% das construções de Gaza e a aniquilação da força militar do Hamas; a decapitação da liderança da milícia xiita libanesa Hezbollah e a radical redução de sua força militar; a intervenção na Síria, que provocou a mudança do poder central, a ocupação de terras no sul do país e a interrupção da rota de intercâmbio entre Líbano e Irã; a redução do poder das milícias pró-Irã no Iraque e no Iêmen e os primeiros embates diretos com Teerã — que provocou a Guerra dos Doze dias, em junho de 2025, quando os Estados Unidos entraram no conflito para bombardear instalações do programa nuclear iraniano.
A morte do líder supremo iraniano marcou o dia 875 da guerra iniciada em 7 de outubro de 2023
Especialista em geopolítica da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM-SP), a professora Denilde Holzhacker não se espantou com o início da nova onda do conflito por ter entendido que a concentração do poder de fogo norte-americano em volta do Irã era para valer. Ela se surpreendeu, sim, com a capacidade de reação e a amplitude da retaliação iraniana, com mísseis atingindo, além de Israel, vizinhos de Golfo. Ao envolver aliados americanos, Teerã pareceu querer que países como Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Arábia Saudita e até Chipre pressionassem Washington e Tel Aviv a interromper os ataques.
Denilde afirma que a estratégia iraniana se destina a demonstrar capacidade de resistência e aumentar a pressão internacional sobre EUA e Israel — especialmente a pressão da opinião pública interna americana, já que o atual governo foi eleito como um antídoto às intervenções do país no exterior. Para ela, apesar do estilo imprevisível, as ações de Trump são guiadas por uma lógica geopolítica tradicional (contenção da ascensão chinesa). Ela observa também que, apesar da cautela inicial, China e Rússia têm relações profundas com o Irã e devem afirmar isso com o tempo, enquanto a resiliência do regime iraniano torna pouco provável uma rápida e consistente mudança de regime no país.
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O ataque ao Irã te surpreendeu?
Não, porque a mobilização de forças já indicava que poderia acontecer. O que me surpreendeu foi a capacidade de retaliação rápida do Irã.
E a capacidade militar do país depois da Guerra dos Doze Dias?
Surpreendeu. Em termos de resposta, o Irã foi muito rápido. Surpreendeu também a estratégia, que foi além de Israel: eles atacaram bases americanas em países aliados. A intenção pareceu ser levar o Golfo a uma instabilidade e forçar reações internacionais. Isso me surpreendeu mais do que a estratégia americana e israelense.
Isso seria para trazer outros países ao conflito?
Acho que é para chamar a atenção e conter a ação americana, elevando o risco de uma guerra regional. Também me pareceu que o Irã quis mostrar que não estava tão enfraquecido; mostrou força própria e buscou aumentar a pressão internacional contra Estados Unidos e Israel. Foram ações estratégicas e cirúrgicas, mas, ao envolver outros atores, foi uma escalada arriscada para o próprio Irã.
Os Estados Unidos estão condenados a ser um país intervencionista?
Não diria condenados, mas essa vem sendo a linha adotada. Há um fator doméstico: quando um presidente não age, a opinião pública pode julgá-lo fraco. Ao mesmo tempo, a opinião pública não quer intervenções por custos humanos. No caso de Trump, há também um componente psicológico e de narrativa: ele se apresenta como capaz de decisões difíceis, alimentando sua base. Isso cria contradições, mas faz sentido dentro do papel que ele desempenha: causar o problema e se colocar como solucionador.
Para o jornal The Guardian, as ações de Trump, incluindo no Irã, são movidas pela “economia da atenção”, típica do mundo das redes sociais. Isso muda o paradigma geopolítico?
Faz sentido falar em economia da atenção, mas vejo uma lógica tradicional de geopolítica: a percepção de ascensão da China e do fortalecimento das alianças com o Irã. Trata-se de disputa por capacidade e controle de áreas de influência. Há também mudanças sociais e culturais em curso, mas este caso se insere sobretudo na disputa clássica entre potências.
Havia a expectativa de que a aliança Irã-Rússia-China protegeria o regime iraniano, mas Rússia e China ficaram inertes. O que isso indica?
Os EUA avançaram posições, o que cria riscos para a China, sobretudo no acesso ao petróleo iraniano e ao Estreito de Ormuz. A China tende a ser sempre cautelosa e pragmática — pode não responder imediatamente, mas buscará formas de proteger seus interesses. A Rússia pode negociar posições, por exemplo, relativas à Ucrânia, aproveitando-se da crise. O xadrez estratégico está se ajustando, as peças são movidas com cautela.
Essas estratégias de Trump liberam a China e a Rússia para agir agressivamente em seus quintais?
O que Trump sinaliza é que disputas por espaços de poder podem gerar ações regionais mais agressivas, aumentando a instabilidade global.
Há saída para o Irã fora da teocracia xiita?
Acredito que exista saída, mas não é simples. O Irã é diverso: 60% são persas e 40% de outros povos. A maioria xiita não é politicamente homogênea. Havia forças políticas e protestos muito contundentes, mas o regime é robusto: a Guarda Revolucionária ampliou seu papel para além do militar e controla muitos setores. Pode haver formação de grupos moderados, mas não é certo que assumiriam o poder. Não é plausível esperar uma transição rápida e pacífica sem grandes desafios.
Diferentemente dos outros países da região, que nasceram do esfacelamento do Império Otomano e foram controlados por potências europeias, o Irã sempre foi uma potência regional. O país pode se recompor como potência regional?
Uma fragmentação diminuiria sua capacidade e poderia gerar instabilidade interna. O Irã tem recursos energéticos e resiliência econômica que podem permitir a recomposição, mas isso dependerá do arranjo pós-conflito e de como Estados Unidos e aliados tratarão o país. Tratamentos malconduzidos no passado geraram mais instabilidade do que estabilidade, como no Iraque e na Líbia.
Você acredita que o Irã estava desenvolvendo armas nucleares?
Acredito que esteve muito próximo do desenvolvimento. Bombardeios e ações recentes atrasaram ou atingiram essa capacidade. A preocupação americana também era com transferência de tecnologia da China. O governo iraniano sempre foi dúbio quanto aos fins — energia civil ou militar — e isso alimenta a pressão internacional. Além do programa nuclear, o Irã já dispõe de mísseis balísticos e capacidade militar suficiente para causar danos regionais, como vimos.
Ainda estamos na continuidade da guerra iniciada em 7 de Outubro de 2023? Há quem diga que vivemos uma espécie de terceira guerra mundial em episódios?
Vejo continuidade do 7 de Outubro. Israel definiu alvos claros e a primeira fase buscou debilitar capacidades iranianas. A segunda fase parece visar enfraquecer estrategicamente o país e o regime, talvez para mudança de regime e reconfiguração regional. Quanto a uma guerra mundial, ainda não vemos conexão direta entre grandes potências a ponto de caracterizar conflito mundial. Faltam relações diretas e sistêmicas entre países como EUA e China ou Rússia para que se transforme em guerra mundial, embora existam riscos de escalada.
Três livros para entender o Irã e suas circunstâncias
Para entender melhor a crise no Golfo, a professora Denilde Holzhacker recomenda dois livros que cobrem fases diferentes da história do Irã. E mais: uma leitura jornalística da vida contemporânea no país.
Todos os homens do Xá: o golpe norte-americano no Irã e as raízes do terror no Oriente Médio. Stephen Kinzer.
Trad. Pedro Jorgensen Junior // Bertrand Brasil // 288 pp // Disponível em sebos e sites de livros usados
Analisa a história do país desde o golpe de 1953, que derrubou o primeiro-ministro Mohammed Mossadegh, eleito democraticamente, e implantou o regime autocrático do xá Reza Pahlavi. Com estilo jornalístico e pesquisa documental, reconstrói a operação que instalou a ditadura do Xá, a sua derrubada pela oposição em 1979 e a instalação de uma teocracia xiita. Essencial para entender como intervenções externas moldaram a política iraniana e o ressentimento que reverbera até hoje.
República Islâmica do Irã: 40 anos, de Khomeini a Soleimani. Renatho Costa e Andrew Traumann (orgs).
Autografia // 358 pp // R$ 68,56
Coletânea de análises históricas e políticas, de tom mais acadêmico, sobre quatro décadas do regime teocrático iraniano — do triunfo do aiatolá Khomeini ao impacto geopolítico do assassinato de Qasem Soleimani, pelos Estados Unidos, em 2020.
Os iranianos. Samy Adghirni.
Contexto // 224 pp // R$ 59,90
O autor, que foi correspondente da Folha de S.Paulo em Teerã, faz um retrato sociocultural do Irã atual, com as contradições entre tradição e modernidade e as tensões que dividem a sociedade. Ajuda a enxergar além dos grandes temas geopolíticos, mostrando a vida das pessoas e os movimentos culturais que marcam o país.
Matéria publicada na edição impressa #104 em abril de 2026.
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