O escritor português Lobo Antunes (Georges Seguin/Reprodução)

Memória,

Morre Lobo Antunes, autor que reinventou o romance português, aos 83 anos

Vencedor do Prêmio Camões, escritor transformou em literatura o trauma da guerra colonial em Angola e as ruínas do salazarismo

05mar2026 • Atualizado em: 06mar2026

O escritor português António Lobo Antunes, vencedor do Prêmio Camões em 2007 e um dos nomes cotados ao Nobel de Literatura, morreu nesta quinta-feira (5), aos 83 anos, encerrando uma trajetória literária que atravessou diferentes fases políticas e culturais de Portugal.

Quando estreou com Memória de elefante, em 1979, Lobo Antunes já não era apenas o médico psiquiatra que regressara da guerra colonial em Angola e vira as independências sucedidas pela Revolução dos Cravos, que encerrou o regime salazarista em 25 de abril de 1974. Era também um escritor que trazia consigo a experiência histórica em carne viva. Recém-saído da ditadura militar de Salazar, Portugal buscava reorganizar sua identidade, e é nesse terreno instável que irrompe a literatura de Lobo Antunes.

Nascido em Lisboa, em 1º de setembro de 1942, o autor cresceu em uma família ligada à medicina e à vida intelectual. Formou-se médico e se especializou em psiquiatria, profissão que exerceu por anos no Hospital Miguel Bombarda, após cumprir o serviço militar. Em entrevistas, afirmou que a escuta clínica e o contato com o sofrimento humano marcaram sua construção narrativa. Antes, porém, houve a guerra.

Mobilizado para Angola no início da década de 70, Lobo Antunes foi médico do exército português. Sua experiência no continente africano, no qual presenciou o medo, a violência e a constante sensação de absurdo, tornou-se o centro nervoso dos romances Os cus de Judas (1979) e Conhecimento do inferno (1980). Nas tramas, a guerra que descreve não é épica, mas trauma: espaço de dissolução moral e identitária, no qual Portugal é apresentado não como glória, mas como ruína.

Reinvenção

Ao longo de mais de quatro décadas, o escritor publicou dezenas de romances e livros de crônicas. Sua escrita é frequentemente associada à tradição modernista por dialogar com autores como William Faulkner e Louis-Ferdinand Céline, embora críticos literários conterrâneos ressaltem que Lobo Antunes “preserva uma marca inconfundivelmente portuguesa”.

Desde os primeiros escritos ficcionais, recusou a narrativa tradicional, optando por uma prosa marcada por frases longas, sobreposição de vozes, monólogos interiores e rompimento das fronteiras entre memória e presente — seus personagens são conhecidos por revisitar obsessivamente episódios do passado.

Considerado pela crítica como um dos responsáveis por reinventar o romance português, o escritor foi, durante anos, marcado por uma suposta rivalidade com José Saramago, alimentada sobretudo pela imprensa após o colega vencer o Nobel de Literatura em 1998. Episódios pontuais e declarações ambíguas reforçaram a narrativa de um “duelo” entre os dois polos da ficção pós-25 de Abril, embora ambos tenham relativizado qualquer animosidade. Na prática, seguiam dois projetos literários distintos e coexistentes que consolidaram o prestígio do romance português em escala internacional.

Embora identificado sobretudo como romancista, em 2009, em visita ao Brasil para participar da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), Lobo Antunes disse não gostar da definição, que “só pode ser aplicada a Balzac e a poucos mais”.

Na ocasião, em conversa com o jornalista Humberto Werneck, o português também lembrou sua amizade com o escritor baiano Jorge Amado. “Ele era muito terno comigo, me abraçava, me beijava. A Zélia [Gattai] dizia: ‘Por que você está fazendo isso?’, ao que ele dizia: ‘Gosto de lamber meus filhotes’”. 

Enquanto vivia em Paris e recebia críticas nos jornais e revistas francesas, Lobo Antunes as recortava e enviava com cartas para Amado. “Jorge era um homem que levou tanta pancada da crítica por seus livros. E eu posso aceitar que suas obras tenham envelhecido, mas ele era muito maior que os livros dele. Era um homem sem inveja, de grande coragem e capacidade de amar”, disse.

Reconhecimento

Traduzido para mais de vinte idiomas, durante anos o lisboeta figurou entre os nomes cotados ao Nobel de Literatura. O autor recebeu algumas das principais honrarias literárias da língua portuguesa, entre elas o Prêmio Camões, em 2007. Para o júri da premiação, Lobo Antunes foi escolhido “pela maestria em lidar com a língua portuguesa, aliada à maestria em descortinar os recessos mais inconfessáveis do ser humano, transformando-o num exemplo de autor lúcido e crítico da atualidade literária”.

“Lobo Antunes tem várias vezes admitido chorar através da própria escrita. Não é teatro. São muito raras e objecto de sarcasmo, nas elites, admissões públicas de choro”, escreveu o ensaísta e fotógrafo Humberto Brito em sua coluna Onde Queremos Viver, em julho de 2024. “A elite chora na terapia e nos funerais. A aversão geral ao pranto espontâneo não deixa de ser irónica, na era da terapia. Em contrapartida, chora-se em troca de views. Se é para sofrer, consulte um especialista.”

Após a confirmação da morte do autor na manhã desta quinta, um comunicado da editora Dom Quixote, responsável pela publicação de toda a sua obra em Portugal, confirmou a publicação de um livro inédito de poemas do Lobo Antunes para abril deste ano. Ainda não há previsão de lançamento no Brasil.

Lobo Antunes deixa a esposa, Cristina Ferreira de Almeida, e as filhas Maria José, Joana e Maria Isabel Bustorff Lobo Antunes.