Literatura,
O labirinto íntimo de Jon Fosse
Heptalogia é um estudo de caso sobre a fé do Nobel norueguês apresentado por meio de uma potente narrativa ficcional
04fev2026 • Atualizado em: 05fev2026E me percebo de pé olhando para o quadro com duas linhas, uma lilás e uma marrom, que se cruzam bem no meio, uma tela comprida, e reparo que pintei as linhas lentamente numa espessa demão de tinta a óleo, que escorreu, e bem ali na intersecção das linhas lilás e marrom a cor resultante ficou muito bonita e a tinta desceu escorrendo, e penso que isso não é um quadro, mas ao mesmo tempo um quadro será, está pronto, não há mais o que fazer […]
Assim começa Heptalogia, o tour de force de 688 páginas escrito pelo norueguês Jon Fosse, prêmio Nobel de Literatura em 2023 pelo conjunto de sua vasta obra literária.
Heptalogia se inicia com um quadro, ou, melhor dizendo, com a percepção de Asle, pintor que é o narrador do livro, sobre si mesmo diante da imagem de uma cruz na tela em frente à qual se pergunta: seria isso um quadro? A cena consolida muitos dos elementos e temas que serão explorados ao longo deste romance autorreflexivo — e não surpreende que seja o início recorrente das sete partes em que se divide.
A obra foi inicialmente publicada em três livros separados entre 2019 e 2021: O outro nome (capítulos 1 e 2), O eu é um outro (capítulos 3, 4 e 5) e Um novo nome (capítulos 6 e 7). Posteriormente, os três livros foram reunidos num único volume e é nesse formato que a Fósforo lança o romance no Brasil, numa divulgação do autor norueguês que inclui A casa de barcos, Brancura e dois compilados, um de peças teatrais e um de poemas. Outros títulos do autor estão disponíveis no país pela editora Tordesilhas (Melancolia) e pela Companhia das Letras (É a Ales, Trilogia e o infantojuvenil A pequena violinista).
O peso de Heptalogia é o primeiro desafio a ser encarado pelo leitor contemporâneo, acostumado a ter nas mãos as 150 gramas de um celular. É preciso ter um pouco de paciência e tolerar a abstinência de dopamina pela qual passará o cérebro, viciado no scroll das mídias sociais, para embarcar numa espécie de leitura meditativa na qual seja possível fluir e absorver a prosa lenta e circular de Fosse.
É preciso ter um pouco de paciência para embarcar numa espécie de leitura meditativa
O registro literário íntimo, que permite acompanhar o fluxo de pensamento de um personagem ou do eu lírico do autor, não é novidade e cai bem ao gosto dos leitores contemporâneos: a autoficção de Annie Ernaux, por exemplo, para ficarmos entre laureados recentes do Nobel, ou a prosa autobiográfica do seu conterrâneo Karl Ove Knausgård. Mas existe algo muito elaborado formalmente em Fosse, não em termos de gramática ou vocabulário, mas uma complexidade de estilo e de narrativa.
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Não é coincidência que o protagonista Asle seja um fiel, convertido tardiamente ao catolicismo, e que o livro seja dividido em sete partes, como os sete dias que Deus levou para criar o mundo e os sete dias que levam ao Natal, a data simbólica do nascimento de Cristo. Tampouco que a imagem pintada por Asle e que conduz a sua transformação seja de uma cruz — mais especificamente, a Cruz de Santo André, batizada em homenagem a um dos apóstolos mais fervorosos e próximos de Cristo, que, para ser crucificado, pediu uma cruz em formato de X, não uma cruz latina como a de Jesus, por não se sentir digno desta. Nem mesmo a dieta do cachorro herdado por Asle é aleatória: por dias, ele alimenta o pequeno animal somente com pão e água.
Vida interior
A primeira parte do volume, “O outro nome”, apresenta o protagonista, um pintor que vive sozinho e faz viagens ocasionais à cidade mais próxima para comprar mantimentos e entregar uma nova leva de quadros para o galerista. Talvez seja a parte mais difícil do romance, pois ainda há poucos elementos de trama e o avanço da leitura depende de o leitor ser conquistado pela escrita evocativa e imagética de Fosse.
É preciso se entregar ao texto labiríntico: um monólogo não totalmente claro de um personagem que tem dificuldade de separar o mundo real de suas memórias e que se perde com frequência em seus pensamentos e até na cidade onde fica a galeria que o representa.
São dois capítulos de mergulho na vida interior do artista reflexivo e existencialista, que parece viver num cansaço crescente — uma sensação familiar para quem já esteve na Escandinávia nos dias mais curtos do ano, quando a luz é escassa e o corpo luta para se manter atento na escuridão. Mas há muito o que se depreender do seu cotidiano mundano.
Quando o romance se aventura pelo presente do protagonista, consegue colocá-lo em confronto com a realidade, da qual não pode se esconder nem ter controle. E é na presença de outras pessoas que podemos conhecer Asle de fato, pelo que diz e faz, e não apenas por suas elucubrações e seus pensamentos.
É também nessa parte que o autor estabelece alguns mistérios: a existência de outro Asle, a personagem feminina ausente com o sugestivo nome Ales, as duas mulheres chamadas Guro e o casal observado no parquinho e cujos pensamentos são escutados.
A segunda parte, “O eu é um outro”, deixa claro que Asle é um homem em luto. Pela morte da irmã na primeira infância do protagonista, pelo definhamento da avó na adolescência dele e, talvez principalmente, pelo desaparecimento precoce de Ales — sobre quem o mistério continua: que mulher é essa, o que houve com ela?
Asle é um homem cada vez mais cansado, que mal se alimenta, enquanto o outro Asle dorme numa cama de hospital, com delirius tremens. Resta ao Asle protagonista rememorar eventos do passado, tanto seu quanto do outro Asle, passando inclusive pela primeira vez em que os dois se cruzam, num café de hotel, o que é narrado com a medida exata de estranheza e naturalidade que o enredo pede.
Nesses três capítulos fica mais evidente que Asle se refugiou numa vida simples e contida depois da morte daquele amor: “a minha vida foi o que vivi com a Ales, o antes e o depois não importa”. No entanto, as memórias pelas quais navega parecem muito ser de toda a vida que viveu sem Ales — o antes e a especulação sobre o depois, se irá para o Natal na casa da irmã do vizinho, o que vai acontecer com o outro Asle etc.
O que mais impressiona é a riqueza estilística do romance, que não propõe um fluxo autorreferente
No presente, Asle sente esvair o desejo de pintar que o acompanhou pela vida inteira e é como se a Cruz de Santo André do início do livro passasse a contemplar outro significado: a encruzilhada na qual se encontra o personagem. Estaria ele se encaminhando para o fim ou para o início de outra coisa?
Na parte final, “Um novo nome”, a narrativa se encaminha para o sétimo dia, o Natal, o nascimento de Jesus. Asle promete que irá finalmente aceitar o convite recorrente do vizinho para celebrar a festividade na casa da irmã, a segunda Guro. Ele continua sem notícias do estado do outro Asle no hospital. A decisão de não mais pintar vai tomando forma — os apetrechos de pintura são recolhidos e o quadro com a Cruz de Santo André é relegado à pilha das obras ainda não terminadas ou que talvez nunca possam ser terminadas.
Avançar na sinopse seria revelar o desfecho do enredo — e isso provavelmente incomodaria o leitor que leu quinhentas páginas até esse ponto motivado pelo mistério e a força da engenharia narrativa de Fosse. Aquele leitor que levantou hipóteses a ser verificadas no final: de que o outro Asle seria a vida alternativa do primeiro, caso este tivesse tomado decisões diferentes; ou então de que se trata de duas duplas de doppelgangers (os Asles e as Guros) que se cruzam, como as duas linhas da Cruz de Santo André da imagem inicial.
E o livro permite essa leitura. Fosse deixa migalhas ao longo dos capítulos, tornando possível que o leitor esteja sempre bem localizado, sabendo de qual Asle está falando, de qual das Gurus, percebendo as inconsistências entre memórias e assim por diante.
Por outro lado, o que mais impressiona em Heptalogia é a riqueza estilística do romance, que não propõe um fluxo autorreferente nos mínimos detalhes, como em Knausgård. É como se Fosse anunciasse ao conterrâneo, que virou fenômeno literário mundial dez anos antes: vou mostrar como se pode fazer uma autobiografia.
Fragmentos
Num dado momento, Asle menciona que, apesar de já ter lido a bíblia inteira, hoje prefere ler de forma aleatória, abrindo numa página qualquer e consumindo pequenos trechos. E é como se Fosse usasse o mesmo expediente na escrita, se permitindo acessar fragmentos de memória ou pequenos trechos de uma existência, como quem folheia o livro de uma vida ou de várias vidas entremeadas.
É impossível não ver Jon Fosse em Asle — o que torna premonitório o trecho no qual o galerista reconhece o enorme talento do jovem pintor e declara que ele talvez não seja reconhecido em vida, mas que, ao final, “ele, os seus quadros estarão entre o que há de mais importante nas artes plásticas da Noruega, nada menos”. Dois anos depois, veio o Nobel de Literatura.
Heptalogia é um estudo de caso sobre a fé do autor por meio de uma potente narrativa ficcional. E sua conclusão talvez esteja nas últimas palavras do texto, um fragmento editado da Ave Maria. “Ora pro nobis peccatoribus nunc et in hora.” Ore por nós pecadores, agora e na hora vindoura. Seja ela uma hora de mais vida ou de morte.
